Há quem procure a verdade como quem sobe uma montanha. Acredita que, ao alcançar o ponto mais alto, encontrará uma resposta definitiva, uma paisagem capaz de explicar tudo o que viveu. Mas a natureza nunca teve pressa em revelar seus segredos. Ela prefere ensinar em silêncio.

Uma floresta não entrega seus mistérios ao primeiro olhar. Existe um idioma próprio nas folhas que caem sem resistência, nos galhos que se curvam ao vento sem se partir, na água que contorna a pedra em vez de enfrentá-la.

Tudo parece dizer que a verdade não grita. Ela apenas permanece. Talvez por isso seja tão difícil reconhecê-la. Vivemos cercados por narrativas cuidadosamente cultivadas.

Algumas foram herdadas, outras aprendidas, muitas foram inventadas para tornar suportável aquilo que doía demais para ser visto. Como jardins impecáveis que escondem raízes adoecidas, há histórias que florescem apenas porque ninguém ousa cavar a terra. E, ainda assim, algo sempre escapa.

Um olhar que demora um segundo além do esperado. Um silêncio que pesa mais do que qualquer palavra. Um corpo que adoece tentando sustentar uma versão de si mesmo.

A verdade costuma encontrar pequenas frestas para respirar. Ela sopra como o vento antes da tempestade. Quase ninguém a vê chegando, mas todos percebem quando ela se aproxima. Há uma antiga sabedoria que diz que tudo no universo vibra em frequência. Talvez seja por isso que a mentira exija tanto esforço. Ela precisa ser alimentada todos os dias, protegida, repetida, justificada. O que parecia vantajoso ao mentiroso se torna um tormento. Um fardo em contagem progressiva. Tic-tac. Aquela que tarda, mas não falha, cada vez mais perto. A verdade, ao contrário, possui a estranha serenidade das montanhas. Não precisa convencer ninguém de que existe. Ela simplesmente é. O curioso é que nem sempre estamos preparados para encontrá-la. Às vezes preferimos a névoa, porque enxergar exige despedidas. Seria o que chamam de negação na Psicologia. Há verdades que encerram amores, desfazem crenças, mudam caminhos inteiros. Outras obrigam a admitir que passamos anos defendendo uma versão confortável da realidade. Não é fácil abandonar uma ilusão quando foi dentro dela que construímos nossa casa. Mas a natureza conhece o valor dos ciclos. Nenhuma árvore lamenta a queda das folhas. Nenhum rio insiste em voltar à nascente. O casulo jamais seria uma prisão se a borboleta acreditasse que aquele era seu destino definitivo. Talvez seja esse o convite mais delicado da verdade: ela nunca chega para destruir, embora frequentemente pareça fazê-lo. Ela remove o excesso. Afasta o que era decoração e deixa apenas a estrutura essencial. Como a chuva forte que limpa o ar depois de dias de calor sufocante, sua presença pode assustar, mas também devolve clareza. E então compreendemos que a paz nunca nasceu das respostas prontas, mas da coragem de permanecer diante das perguntas certas. Talvez a verdade não seja um lugar de chegada, mas um estado de presença. Um espaço onde já não precisamos representar personagens, colecionar máscaras ou sustentar versões que agradam aos outros enquanto silenciam nossa própria essência. Porque, no fim, toda verdade carrega um milagroso talento: ela liberta primeiro por dentro, muito antes de transformar o que está do lado de fora. E talvez seja exatamente por isso que tantos passam a vida fugindo dela. A verdade é paciente. Espera entre as estações, repousa nas raízes invisíveis, acompanha o voo das aves que nunca perguntam para onde o vento as levará. Ela observa sem julgamento, como a lua cheia refletida em um lago calmo, sabendo que basta uma superfície tranquila para revelar aquilo que sempre esteve ali.

E, quando finalmente acreditamos ter encontrado todas as respostas, percebemos que estivemos seguindo pegadas desenhadas na areia por alguém que também estava perdido.

A verdade é que tudo era mentira.

 

Flávia Bezerra de Menezes Goldmann é médica, formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 2001.

Construiu sua trajetória profissional entre o Brasil e a Alemanha, com atuação dedicada à saúde da pessoa idosa.

Foi preceptora da primeira residência de Geriatria do Recife, no Real Hospital Português.

É presidente da Associação Brasileira de Alzheimer – Regional Pernambuco (ABRAz PE).

Participa de eventos científicos e congressos no Brasil e na Europa, compartilhando experiências nas áreas de Geriatria, envelhecimento e demências.

Em 2025, apresentou a Terapia da Floresta no Congresso Pernambucano de Geriatria e Gerontologia, destacando a relação entre natureza, saúde e envelhecimento.

Também participou de atividades científicas relacionadas à Prescrição Verde, ampliando a discussão sobre intervenções baseadas na natureza.

Em 2026, apresentou a Prescrição Verde como ferramenta terapêutica para demência inicial em evento científico de Geriatria em Berlim.

Desde 2019, desenvolve projetos de Terapia da Floresta e Prescrição Verde por meio da Saúde INVERDI.

Sua trajetória integra medicina, ciência, envelhecimento saudável, natureza e compromisso com pessoas com demência e seus familiares.

 

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