A coragem do tempo e do cuidado: a verdade como resistência psíquica e existencial, por Natália Tavares

Assistimos a um paradoxo marcante do nosso tempo: à medida que as tecnologias avançam a passos largos, prometendo conexões instantâneas e controle sobre o intangível, o processo civilizatório parece tropeçar em uma profunda inversão de valores. Diante de guerras que desumanizam povos inteiros, de narrativas manipuladas e do alheamento social, a busca pela verdade deixa de ser um mero debate filosófico e passa a ser uma urgência ética, psíquica e existencial.

Como nos alertou a filósofa Hannah Arendt, a perda da capacidade de distinguir o verdadeiro do falso compromete a própria faculdade de pensar por conta própria. Sob a ótica da psicologia, essa alienação não é neutra: ela adoece. Quando o sujeito é bombardeado por falsidades convenientes e pela exigência de consumir ilusões, sua integridade psíquica se fragiliza. A verdade, portanto, surge como um ato terapêutico e político de resgate da autonomia. Ter a coragem de encarar a realidade — por mais dura que seja — é o primeiro passo para restaurar a saúde mental, a lucidez e a capacidade de dar sentido à própria existência.

Nesse cenário, a gerontologia oferece uma lente fundamental ao lembrar que a verdade também habita o tempo, a memória e a longevidade. Em uma sociedade descartável e apressada, que frequentemente tenta apagar o passado para impor verdades instantâneas, defender a verdade é proteger a história viva e a sabedoria acumulada pelas gerações. Olhar para a trajetória humana com a perspectiva do tempo vivido ensina que a dignidade não se negocia e que a dor do outro jamais pode ser tratada com indiferença ou apagamento.

A luta pela verdade, assim, manifesta-se como um ato de profundo amor e coragem. Amor não no sentido ingênuo ou passivo, mas como uma prática concreta de cuidado: o amor que escuta o sofrimento alheio, que acolhe as fragilidades do ser e que se recusa a ser conivente com a violência e com a injustiça. E a coragem como o firme posicionamento de quem não se cala diante do cinismo nem se rende ao adestramento do pensamento.

Sustentar a verdade no campo da saúde, da escuta e da vida comunitária exige romper com o silêncio confortável. Significa reconhecer que a existência humana atravessa uma encruzilhada decisiva, em que a empatia e a ética precisam reassumir o protagonismo. Defender o que é verdadeiro é assegurar que o avanço do tempo não signifique a perda da nossa essência, mas a consolidação de um saber que protege a vida em todas as suas fases e manifestações.

Diante do barulho do mundo e das tentativas de anestesiar a nossa sensibilidade, manter a mente crítica e o coração desperto é o nosso maior gesto de resistência. Que a busca pela verdade continue sendo a bússola capaz de guiar as ciências, as relações e a própria consciência coletiva, honrando a preservação da memória e do afeto humano, e iluminando o caminho para uma sociedade mais justa, consciente e verdadeiramente humanizada.

 

Natália Tavares é psicóloga clínica e hospitalar, especialista em Gerontologia, com mais de 40 anos de atuação em saúde pública e desenvolvimento humano. Atua no Hospital dos Servidores do Estado (IASSEPE) e atuou por 24 anos no Ministério Público de Pernambuco à frente de programas de Qualidade de Vida. É co-criadora e coordenadora terapêutica do Método Saúde in Verdi, que utiliza a Terapia da Floresta no manejo do estresse e no acolhimento de transições de vida, além de psicóloga voluntária e Conselheira Fiscal na Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz).

 

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Respostas de 6

  1. Excelente e muito útil para debatermos sobre o envelhecer nos tempos atuais!

  2. Excelente iniciativa! O mundo precisa de cuidados em saúde mental urgente! Que bom que temos excelentes profissionais para nos ajudar a perceber a necessidade dos cuidados.
    Parabéns, Natália Tavares!

  3. Já participei da terapia da floresta com a dra. Natália e com a dra. Flávia. Foi um experiência única e maravilhosa.

  4. Um texto lindo, profundo e, sobretudo, muito humano. É tocante a forma como você entrelaça psicologia, gerontologia e amor, mostrando que esses temas, embora possam parecer distintos, se encontram justamente naquilo que temos de mais essencial: a dignidade, a memória, a autonomia, o cuidado e a capacidade de reconhecer o outro. Suas palavras convidam a pensar e a não perder a sensibilidade diante do mundo. Fico muito feliz e orgulhosa de ver sua voz alcançando tantas pessoas. Parabéns, minha linda!

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