Algo redundante. Estava cansada da cor estéril do esmalte. O cigarro dourando os dentes, enegrecendo os lábios. Diacho epidêmico. Agosto na vida. E quem escreveu essa obra.”Quem foi que não recriou as histórias da vida?” Melinda sempre a cozer e empanturrar. Comida encomendada pelo diabo. Olhava para o lado e um ramo de arruda para contrabalancear. A pequena que tanto sonhava? A minha querida olhando para onde não tinha gente. Era sempre assim e eu tentava imaginar o que passava. Não era às vezes que colocava os olhos para a parede. E eu parava e vagava meu pensamento a tal ponto que tudo ao redor perdia o foco, passava a me comunicar com o passado. Refazia uma a uma as questões ao me relacionar com o mundo. Muitas pessoas eu lembrava e de repente um gosto de sangue na boca. Fazia muitas costuras com sentimentos de mágoas e ponderava cada rancor. As intrigas iam se desfazendo na minha cabeça. Aquilo que vinha na minha mente, sentimentos que interpunham a qualquer angústia. E meus impulsos que não pretendiam reconhecer certas ousadias. Não adiantava voltar atrás dos que veem a vida por um ângulo tão arbitrário. Que se mentem o tempo todo. A ilusão que está sempre pronta a revidar e tolher-se depois de uma intriga. E pensava o quanto era interessante saltar de um ponto e ver a vida de fora. Qual um satélite para com a Terra. Por esta premissa, o desgosto não mais me abala. A angústia se desfaz. Não sou eu que tive ausências, pois exilar-se é também uma forma de dizer que em algum lugar existe o não-exílio. Para que ter medo da loucura? O reflexo de uma loucura está no profundo da alma. E quando me tenho raso eu simplesmente adoeço. Porque não dá mais para ver certas coisas quando se prefere a superfície para nunca temer o óbvio que é a vida. Então pretendes encarnar sempre do mesmo ponto para sentir somente uma parte do existir. A dor é o revés da tolice.
Tânia Consuelo. Formada em Letras pela FAFIRE.
Participou de várias oficinas de escrita ministradas pelo SESC-Recife.
Entre estas a oficina de Marina Colasanti, Marcelino Freire.
Participou também do estudo sobre a obra de Clarice Lispector ministrada por Fátima Quintas na Cultura Nordestina Letras e Artes, no Recife-PE.
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Respostas de 21
Que texto intenso! Há escritas que simplesmente contamos e há aquelas que sentimos — e essa, definitivamente, pertence à segunda categoria.
Tânia nos conduz por um mergulho inquietante entre memória, dor, lucidez e aquilo que tantas vezes chamamos de loucura apenas porque não conseguimos compreender. A pergunta “Para que ter medo da loucura?” permanece ecoando depois da última linha, quase como um convite para olharmos com mais coragem para nossas próprias profundezas.
Talvez seja justamente isso que mais me encanta na sua escrita: você não entrega respostas prontas. Provoca. Inquieta. Faz pensar. Faz sentir.
Que privilégio acompanhar sua literatura encontrando espaço no mundo. Que venham muitas outras páginas, publicações e leitores para descobrir a força das suas palavras. ❤️
Parabéns, Tânia! 🌷📚
Existir é a essência que transcende as tolas normalidades. Viver é um eterno reencontro consigo mesmo e não há o que temer. Parabéns pela tecitura das palavras, Tânia Consuelo! Abraço fraterno, querida!
Os textos de Tânia são reflexões necessárias, que traduzem sentimento e verdade. Tânia é ativista da liberdade, sabe bem que saúde mental é direito e que esse direito deve ser assegurado a todos, com atenção, acolhida e respeito.
Um texto potente e lindo!
Que texto impressionante. Há uma força poética e uma profundidade nas imagens… Faz a gente não apenas ler, mas ESTAR na mente da narradora e experimentar um pouco daquele universo.
Gosto dessa escrita que provoca e faz parar em determinadas frases para absorvê-las. Tem uma mistura de memória, angústia, lucidez, como se pensamento e sentimento fossem se costurando .
Texto belo e reflexivo… Obrigada por compartilhar, Tânia
Muito obrigada por compartilhar tão profunda reflexão. Eu, realmente, fiquei impactada com essas palavras, que irão me fazer refletir , principalmente sobre o viés presente no fato de que ”quando me tenho raso eu simplesmente adoeço”.
Texto muito forte e verdadeiro!
Uooowww!! Sentir pensar ser profundezas, sair do quadrado e flutuar nas mil possibilidades que o universo nos apresenta!! Que lindo te ver arteando sempre!!
Que texto, amiga… Profundo, inquietante e cheio de camadas. Suas palavras fazem a gente olhar para a dor, para as ausências e para a própria vida de um outro lugar. E essa frase final ficou ecoando em mim: “A dor é o revés da tolice.” Lindo demais
escrita fluida e poética, com frases que tocam fundo. Adorei o texto!
Gostei muito dessa ideia de que, às vezes, é preciso olhar a vida de fora para conseguir enxergá-la melhor. O texto transforma mágoas, angústias e até a “loucura” em caminhos para refletir sobre nós mesmos e sobre o mundo. Profundo, inquietante e muito bonito — parabéns, Tânia!
A sensibilidade de Tânia fica sempre plasmada na produção literária dessa autora. Escrita profunda e também reveladora, de certo modo, também. Ela se revela e a gente se enxerga.
As reflexões sobre como a loucura nos acompanha são atuais e recorrentes, inclusive é deveras imprescindível para esse mundo de acessos e relações tão fugazes.
Texto muito bom.
Parabéns pela escrita! Bastante reflexivo e profundo! Gratidão pela partilha!
Texto sensivelmente escrito, Tânia. Quem nunca reviveu memórias para esmiuçar e elaborar suas próprias dores, não é?
Tania é escritora e artista plástica com uma grande sensibilidade e amor a arte!
Tânia Consuelo afiada como sempre. Uma escrita dedicada ao seu tempo e fiel às demandas do Eu.
Lindo texto! Suas palavras e sensibilidade comovem e nos levam a reflexão! Obrigada por compartilhar
Desvelar as vozes da mente e as emoções do coração é vestir-se de coragem! Obrigada pela partilha.
A profundidade das palavras que nos convidam a sair da superfície. O despir-se que conecta. Lindo texto, parabéns!!
Que pancada esse texto! Profundo e intenso, como é Tânia, ou para os mais íntimos: Consu. Lindeza de texto!