Pelo quarto ano consecutivo, a Novoestilo Edições do Autor dá publicidade, em prosa e verso, ao pensamento crítico de autoras e autores reunidos em coletâneas cujos temas trazem ao debate questionamentos que se impõem como indispensáveis à compreensão da natureza moral do comportamento humano no século XXI.
Temas:
- 2003: Fome de quê?;
- 2004: Gaia: a deusa-mãe;
- 2005: Consciência: para que te quero?;
- 2006: A luta pela verdade: um ato de amor e coragem.
Pela primeira vez na história da humanidade, está ocorrendo um retrocesso no processo civilizatório, que anda na contramão dos avanços tecnológicos. Em tempos de redes sociais, os véus da miséria moral são rasgados mostrando os disfarces da mentira, assim como do ressentimento e do ódio, afetos que passam a ser banalizados, mas que também deixam o caminho livre para o confronto pacífico e esclarecedor.
No século passado, surgiu um movimento contra o preconceito racial na África do Sul e, posteriormente, de resistência civil pela independência da Índia do jugo britânico, liderado por Mahatma Gandhi (1869 – 1948), advogado e líder espiritual indiano. A junção de duas palavras sânscritas – Satya (verdade) e Agraha (firmeza) deu origem ao termo Satyagraha, significando “A força da verdade”, que se tornou o lema do movimento que pregava a filosofia da resistência civil e da não-violência, inspiradora de outros movimentos de libertação com repercussão mundial.
O movimento pacífico produziu resultados históricos, como a independência da Índia, em 1947, com a mobilização de pessoas que antes se sentiam impotentes diante de governos autoritários. A motivação vinha da ideia de que violência gera mais violência, e que mudanças duradouras não podem vir da força, mas sim do despertar da consciência opressora.
A persuasão pela razão e pelo sofrimento simbólico (greve de fome); a retirada de apoio ao sistema injusto, assim como a aceitação da punição legal diante da infração de leis injustas, além da construção de alternativas positivas promotoras da autossuficiência e disseminação da Educação, eram ações afirmativas da resistência civil através da não-violência, utilizada por Gandhi. No entanto, forças políticas que insistiam em manter o povo subjugado, calaram a grande liderança, causando uma comoção popular sem precedentes na história da Índia. Mahatma Gandhi foi assassinado com três tiros no peito em 1948, em Nova Deli, enquanto caminhava acompanhado por seguidores, voltando de uma reunião de oração. O atirador era um nacionalista hindu radical, membro do partido de direita Mahasabaha. Godse foi preso, julgado e condenado à morte por enforcamento. Nos últimos anos, o matador de Gandhi tem sido louvado como patriota por grupos direitistas hindus, e celebrado abertamente por grupos extremistas de direita em várias partes do mundo.
O crescimento da extrema-direita está vinculado ao crescimento econômico escalar, tido como o modelo ideal a ser implantado em várias partes do mundo. Mas para que isso aconteça, é preciso que a escalada de destruição dos recursos naturais prossiga, apesar dos constantes alertas de sua iminente exaustão. E para que essa escalada prospere, é necessário que o sistema de desinformação seja cada vez mais eficaz; que a ciência seja negada por formadores de opinião; que o Estado seja mínimo, e que o pensamento crítico seja sequestrado, torturado e, finalmente, morto. A violência não precisa mais de armas, mas de crença na retórica do ódio, plantada e reproduzida na velocidade da luz, cujo resultado dificilmente poderá ser contestado em tempo hábil.
A manutenção do funcionamento da engrenagem capitalista prescinde do pensamento crítico; ela necessita, sim, de cabeças ocas, simples replicadoras de desejos nunca satisfeitos. Para alguém ser parte integrante do sistema e gozar de seus privilégios, é preciso agir crendo que os recursos naturais indispensáveis à produção da riqueza são infinitos, e pensando como se não houvesse amanhã; é preciso que os que produzem a riqueza sejam induzidos a endeusar e aceitar os donos dos meios de produção como herdeiros naturais da maior fatia da riqueza produzida. A conivência do explorado com o sistema explorador é fundamental para a continuidade do processo destruidor dos recursos naturais.
No universo digital tudo pode ser resolvido na ponta dos dedos. Agindo freneticamente diante de opções prontas e infinitas, a frequência natural do cérebro analógico sucumbe ao comportamento esquizofrênico digital. Compras, serviços e atendimentos de qualquer natureza; composições artísticas, de textos simples ou acadêmicos, nada disso mais carece de criatividade e trabalho humano, mas sim da escolha do “usuário” entre inúmeras opções oferecidas pelo “servidor” – opções prontas, dirigidas com objetivos moldados pela inteligência humana, indutora da manutenção do sistema predador da Natureza, que está levando seres que sabem o que fazem à exaustão dos recursos naturais, ao adoecimento, à precarização da criatividade, do trabalho e da vida, rumo à autodestruição.
Existe ambivalência no ambiente digital, e cada vez mais suas ferramentas são utilizadas com finalidades que podem ser antidemocráticas, mas também podem e devem ser instrumentalizadas a favor do pensamento crítico e de sua aplicação prática na tecnologia, na ciência, na educação, na saúde, nas artes e demais áreas do conhecimento, inclusive, no monitoramento em tempo real dos danos intencionalmente causados à Natureza. Um dos usos benéficos da tecnologia da informação são os alertas do sistema de monitoramento climático, que podem evitar mortes causadas por desastres naturais, cada vez mais frequentes e intensos, resultantes da interferência desastrosa do ser humano na Natureza.
A verdade é a Natureza e a Natureza é a verdade; a realidade é o relacionamento perene entre os seres e a Natureza. Apesar de dotados de criatividade e inteligência, os humanos tornaram-se seres oportunistas e, por isso, arcarão com as consequências de suas escolhas. O seu afastamento da Natureza implica no descaso com a grande mãe e, consequentemente, no desprezo pela verdade, no apego aos bens materiais e aos delírios de poder. No meio urbano, as células humanas sofrem o desgaste provocado pelo seu distanciamento do habitat natural; reagem tentando se defender e acabam exaurindo as suas reservas estratégicas. O adoecimento do corpo e da mente acontece e é real.
Lutar pela verdade é um ato de amor e coragem – amor pela vida e coragem para enfrentar a complexidade do mundo contemporâneo, desafiando as narrativas hegemônicas que tentam nos fazer crer que não há alternativa ao modelo atual de desenvolvimento. É nesse espírito que convidamos autoras e autores a compor este quarto volume, dando voz àquilo que resiste à desinformação e ao esquecimento.
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