Texto por Emanuel Santana Oliveira, junho de 2025.
No vibrante mês de junho, Recife se veste de chita, acende fogueiras e embala-se ao som contagiante do forró, celebrando as festas juninas. Não são apenas os fogos que irrompem no céu; a cultura se expande, através das quadrilhas, brincadeiras e comidas típicas, ganhando um caráter que transcende a mera diversão. As festas em honra a São João Batista revelam um poderoso convite à socialização, um palco onde gerações se encontram e onde a alegria compartilhada se torna um bálsamo para a saúde da alma, especialmente para as pessoas idosas.
Na tessitura da velhice, os espaços de socialização adquirem um valor singular. O contato com o outro não é apenas um deleite; é pura produção de vida, um fluxo vital que impede a estagnação. Freud, (2021), em sua observação, já nos legava que a saúde psíquica se sustenta sobre dois pilares fundamentais: amar e trabalhar. Mas o que ele queria nos dizer com isso? Para uma mente sã, é imperativo amar, ou seja, possuir a capacidade de erigir e sustentar laços significativos – com a família, amigos, um parceiro – investindo afeto e energia nessas conexões humanas que nos nutrem. E é preciso trabalhar, não apenas no sentido da labuta que traz o retorno financeiro, mas de encontrar propósito e realização em alguma atividade que nos faça sentir úteis e produtivos, seja um hobby, o cuidado com a casa, um projeto voluntário ou, neste caso, por que não a dança — seja o forró junino ou frevo momesco, cada um em seu tempo, cada um em sua pulsão de vida.
Não é uma regra absoluta, e ainda bem, mas o cenário das relações sociais de muitas pessoas idosas tende, não raro, a um esvaziamento das redes e dos vínculos. A aposentadoria, a partida de amigos queridos, as modificações no contexto familiar e, em alguns casos, a diminuição da potência física – o que muitas vezes inclui a dificuldade de se locomover – podem fragilizar ou intensificar a fragilização já existente dos laços sociais, tão cruciais para a manutenção da vida e da circulação no corpo social. Diante disso, a recriação de laços emerge como um imperativo, uma necessidade vital.
Neste momento do ano, a chegada do São João impõe toda a sua força poética e terapêutica. Estar em roda, dançar forró, vestir-se a caráter e partilhar a mesa farta não é apenas uma brincadeira; é um reencontro com o sentido, um mergulho na sensação de pertencimento a uma tradição viva e cheia de calor. E quando ecoa no ar a voz de Luiz Gonzaga cantando “Olha pro céu, meu amor / vê como ele está lindo”, parece que algo desperta suavemente dentro da alma. A música, que mistura encanto e memória, faz do céu junino um espelho da emoção compartilhada, reacendendo lembranças, afetos e a esperança viva no peito de quem dança.
É, acima de tudo, uma afirmação da existência em comunhão com o outro. A energia contagiante das festas juninas reativa aquela força pulsional que nos move, que nos impele a buscar a proximidade, a interagir e a sentir o prazer inerente à vida. Ao se entregar a essa celebração, todos são beneficiados, mas para os mais velhos, os ganhos são ainda mais profundos, pois não apenas o corpo se exercita, mas a mente e o coração são convidados a se mover, reafirmando sua presença no mundo e sua inabalável vontade de viver.
Assim sendo, participar ativamente das festividades juninas é um remédio poderoso contra o isolamento, esse afastamento que pode engendrar tantos infortúnios para a saúde física e mental. O movimento que a quadrilha e o forró demandam, mesmo que adaptado, auxilia na coordenação, no equilíbrio e na circulação, mantendo todo corpo em maior atividade. Além disso, a mera antecipação da festa, a escolha da indumentária, o reencontro com as memórias dos São Joões passados e a vivência do presente da celebração ativam a mente e a memória, servindo como um escudo protetor contra o esquecimento e outros desafios cognitivos.
Para além dos benefícios para a saúde global, o movimento de “dois pra lá, dois pra cá” não arrasta somente os pés, mas tece e entrelaça gerações que interagem entre si. Ver avós dançando com netos, partilhando histórias e risadas, cria e amplia laços de afeto que enriquecem a todos. Para os idosos, essa troca é fundamental: o contato com a energia da juventude, a partilha de sabedorias e o reconhecimento de serem amados e importantes, elevam a autoestima e afastam a melancolia.
Estudos científicos reiteram que a qualidade das relações sociais impacta diretamente a longevidade e a qualidade de vida. Pesquisadores como Holt-Lunstad, Smit e Layton (2010), advertem que a escassez de amigos e de conexão social representa um risco à saúde tão grave quanto tabagismo ou obesidade. Em outras palavras, a agitação social das festas juninas é um verdadeiro remédio, que oferece uma rede de apoio, que nos abraça, que nos aquece e que nos fortalece.
Em Recife, o São João é bem mais do que uma data no calendário; é um lembrete vibrante e visceral de que a vida é entrelaçada em encontros. Para os idosos, a festa é um convite à renovação, a sentir novamente a própria vitalidade e a celebrar cada instante da existência. É na melodia que convida a dançar a própria alma, no calor da fogueira que aquece o espírito e no abraço amigo que a socialização se revela, em sua essência mais profunda, um ato de amor e de cuidado com a própria vida, um contínuo tecer de redes de afeto e sentido, tal qual a dança que nos embala e nos mantém firmes no compasso da existência.
Referências
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). SÃO PAULO, SP: Companhia das Letras, 2021. v. 18
HOLT-LUNSTAD, Julianne; SMITH, Timothy B.; LAYTON, J. Bradley. Social Relationships and Mortality Risk: A Meta-analytic Review. PLoS Medicine, [s. l.], v. 7, n. 7, p. e1000316, 2010.






Uma resposta
A abordagem do Dr. Emanuel sobre a importância da interação social para o bem-estar físico e emocional, especialmente, para o público 60+, encontra eco na programação do Ponto de Cultura Nordestina que, no dia 13 passado, reuniu um grupo de pessoas de 7 a 92 anos para celebrar o Dia de Santo Antônio num encontro de gerações com dança, música, brincadeiras e uma mesa de comidas típicas juninas que encantou crianças e adultos pelo aroma, cores e sabores da culinária regional que remete às nossas memórias afetivas.