Uma maneira (talvez didática) de sensibilizar a estupidez, por Salete Rêgo Barros

Salete Rêgo Barros - Organizadora e co-autora da Coletânea Consciência pra que te quero

O velho tocando fogo num gato, para vê-lo girar em um círculo em chamas, até morrer, era a cena que mais arrancava risos e aplausos dos que se reuniam para ouvir histórias macabras, sentados na calçada do cemitério de uma cidade do Sertão nordestino. Algumas crianças, no entanto, não achavam qualquer graça naquilo e, por isso, eram excluídas das brincadeiras do grupo. Havia outras que ficavam com dó do gato, mas fingiam se divertir com a história, só para serem aceitas e participar das brincadeiras.

Certo dia, uma das crianças que se divertia pra valer com as malvadezas de que o velho tanto se orgulhava, munida de um bodoque, à caça de pássaros no alto das árvores, encontrou um bebê passarinho se debatendo no chão e, entre as possibilidades de colocá-lo de volta no ninho ou jogá-lo na poça de lama mais próxima, a criança escolheu a segunda opção. O amigo que o acompanhava questionou aquela atitude, mas o menino se justificou dizendo que tinha feito aquilo para poder contar a peripécia ao grupo, logo mais à tardinha.

Os encontros tinham hora marcada para acontecer. O velho contador de histórias criou fama entre as crianças, e o grupo foi crescendo. Existia um acordo tácito entre elas – quem não desse boas risadas e batesse palmas estaria fora do próximo encontro. Aquele homem precisava de aprovação, e quanto mais detalhada fosse a malvadeza, mais emoção, mais aplausos e mais repercussão haveria dentro e fora do grupo. Tratava-se de uma espécie de sociedade secreta, onde ninguém revelava o teor da brincadeira. O local era ideal: pouco frequentado, longe da vista de pais e avós.

O tempo passou, o velho morreu, e as crianças se tornaram adultos que carregam a estupidez nas entranhas. Com frequência, as suas escolhas apontam para a banalização da vida. Uns se tornaram pessoas insensíveis, intolerantes e autoritárias – perfil adequado a cargos de liderança, conjugados ao poder e à opressão. Este tipo de gente desenvolve a ganância para alcançar objetivos que atendem aos seus próprios interesses, sendo capazes de obstruir oportunidades, de praticar tortura física e psicológica, de manipular, mentir, enganar e até matar. São avessos ao diálogo e, para dominar a conversa, se valem da prepotência para intimidar os interlocutores. Essas pessoas têm alto poder de convencimento e utilizam o absurdo como forma de intimidação dos ingênuos ou desavisados.

As crianças que, mesmo sentindo dó do gato, preferiam continuar a fazer parte do grupo, tornaram-se adultos admiradores de púlpitos e palanques. Ali, eles se veem representados e, no meio do grupo, sentem-se acolhidos e protegidos pelo líder. As figuras do pastor e do politiqueiro remetem à figura do velho contador de histórias, presente em suas memórias afetivas.

Existe um consenso entre os estudiosos do comportamento humano, de que o melhor antídoto para a estupidez é o conhecimento e o diálogo. Crianças expulsas do grupo por não acharem graça nas histórias macabras do velho, desenvolveram o senso crítico a partir de sua exclusão e de seu contato com novos grupos; tornaram-se adultos capazes de mudar os rumos da história da estupidez, que está levando a humanidade à autodestruição. Desenvolveram o espírito de empatia, solidariedade, e do cuidado com o outro e a Natureza – valores consolidados, inquestionáveis e universais, de preservação da vida, dos quais não abrem mão.

Emoções trazidas pelo instinto animal, de que o ser humano é, também, dotado, precisam ser constantemente domesticadas desde a primeira infância – em casa, na escola, no trabalho e no espaço público. Quando os limites da boa convivência são extrapolados, a Lei – instrumento de controle aceito pela sociedade – precisa ser aplicada. A razão deve prevalecer como forma de preservação da vida, das relações pessoais, sociais e institucionais. Ao longo da vida, conhecemos o bem e o mal, e somos livres para fazer escolhas. No entanto, é o ambiente em que nos desenvolvemos e as oportunidades que nos são apresentadas, que irão determiná-las. E é lá na infância que a nossa personalidade é formada ou deformada de acordo com os estímulos recebidos.

Os avanços tecnológicos permitem a todos o acesso ao ambiente virtual, onde facilmente é encontrada a informação e o conhecimento. No entanto, ali também existem emoções violentas que induzem à banalização da vida e à valorização do supérfluo, e a desinformação. Somos a única espécie que conspira a favor da própria extinção utilizando os meios de comunicação. Essa questão, quando tratada com responsabilidade, é vista como fator determinante para moldar personalidades em formação.

De forma geral, a manipulação do pensamento, dado o poder de convencimento que agora se amplia no mundo virtual, é transmitida por influenciadores que utilizam púlpitos e palanques, e do sistema de desinformação, feito para distorcer valores, estimular o consumo desenfreado, o preconceito, a intolerância, a desvalorização da vida, a devastação da Natureza e a desigualdade social. É uma arma utilizada por estúpidos com propósitos igualmente estúpidos, investidos de cargos de poder e liderança, concedidos pelas próprias vítimas de sua estupidez.

No século passado, o pós-guerra trouxe reflexões de vários pensadores, sobre os motivos que levaram o povo a aderir aos discursos de ordem inflamados, proferidos por lideranças políticas que facilitaram a ascensão do fascismo e do nazismo na Europa. Nesses estudos podem ser destacadas duas teorias relevantes que continuam atuais: a Teoria do esclarecimento, da Escola de Frankfurt, na Alemanha, e a Teoria da estupidez, do teólogo e pastor luterano, alemão, Dietrich Bonhoeffer, assassinado num campo de concentração em 1945. Ambas demonstram como a manipulação para deformar o pensamento humano é feita com o objetivo de atingir determinados fins que, para a razão, não faz sentido, mas sob determinados tipos de emoção ela se transforma em uma perigosa arma de destruição dos valores éticos e morais da sociedade. Entre essas emoções pode-se destacar palavras de ordem que reforçam sentimentos religiosos, nacionalistas e afetivos, e a estética de poder utilizada em desfiles militares e aparições públicas de lideranças com o objetivo de causar impacto e demonstrar força. As pautas morais de conotação sexual, também são bastante exploradas neste contexto manipulador.

Com o advento da Internet, a manipulação assume o caráter de pandemia, e somente o conhecimento é capaz de reverter este quadro, reformando consciências através do esclarecimento e da razão. A informação responsável é encontrada em estudos e pesquisas científicas, registrados nos meios físicos e também virtuais, oriundos de fontes confiáveis e verificáveis. Já a desinformação prefere circular nos meios fluidos, que podem ser eliminados com apenas um clique, por ser revestida de caráter fútil, mentiroso e ameaçador, podendo ser facilmente identificada como farsa, quando criticamente analisada.

É inegável que a Internet se tornou um meio eficaz de conhecimento para diversas atividades humanas. No passado, só tinha poder quem tivesse conhecimento, o que era raro, dadas as dificuldades de sua propagação. Atualmente, o conhecimento chega à palma da mão dos internautas, e conhecimento é poder. E, não raro, o poder pode se tornar perigoso, como é a face da Internet utilizada para servir aos interesses de homogeneização do comportamento, o que se mostra inadequado para o progresso civilizatório da humanidade, que avança na pluralidade de ideias, na diversidade e no debate responsável do contraditório. Por isso, há urgência na sua regulamentação, para combater a estupidez e impor limites aos instintos mal controlados no mundo virtual, diferentemente do que ocorre no mundo real, que está sujeito ao ordenamento jurídico consensual com sanções e proibições que permitem a convivência pacífica e respeitosa entre todas as pessoas.

 


Salete Rêgo Barros é pernambucana, arquiteta, parapsicóloga, editora e produtora cultural executiva do Ponto de Cultura Nordestina Letras & Artes. Escreve preferencialmente nos gêneros conto, crônica e artigo de opinião, embora já tenha transitado pela poesia e autobioficção. É autora de nove livros solo, organizadora e participante de várias coletâneas em 30 anos de produção literária. Está consciente do poder da escrita como ferramenta de transformação social no processo civilizatório da humanidade.

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