Somos uma nação mestiça e um povo essencialmente moreno, por Manoel Dias da Fonseca Neto

Meu Povo Moreno

 

Sou caboclo, sou cafuzo,
Sou mescla de etnias,
Indígena, negro e luso,
Em proporção que varia,
Sou moreno brasileiro,
Meu sangue é minha honraria.


Sou filha da mestiçagem,
Guerreira de mui valia,
Da Terra sou mãe coragem,
Irmandade é minha guia,
Sou morena brasileira,
Meu sangue é minha honraria.


Sou triângulo perfeito,
Povo de gran fidalguia,
De trina origem sou feito,
Em genética geometria.
Afirmo sem preconceito:
Meu sangue é minha honraria.


Sou convergência de cores,
Enfrentei muita agonia,
Carrego n'alma as dores,
As lutas, a alegria
Sou o povo brasileiro,
Meu sangue é minha honraria.

 

Somos uma nação mestiça e um povo essencialmente moreno

 

O povo brasileiro é uma síntese de humanidades, pois concentra, em sua herança genética, a essência de povos indígenas, brancos e negros.

Este amálgama de cores e de sangue, que circula em nossos corpos, dá suporte físico ao espírito de uma linhagem humana mestiça, resistente, resiliente e bela, um povo moreno, diferente, de uma alegria contagiante, de uma inteligência ímpar, de uma criatividade exuberante, de uma solidariedade desconcertante diante do sofrimento e extrema dificuldade de seus semelhantes.

Vivemos, na quadra de 2019 – 2022, uma explosão de maldade, intolerância, desrespeito com o sofrimento dos que padeciam, violência e desumanidade. No entanto, esta não é a essência do povo brasileiro. Atravessamos esta fase sombria, onde os instintos mais pervertidos, de parte da população, foram instigados pelo fundamentalismo religioso mais atrasado e por uma corja de seres desumanizados, liderados por um Presidente da República que se vangloriava de defender a tortura e os torturadores, a eliminação de opositores, o desprezo por milhares de pessoas que padeciam e morriam durante a pandemia de Covid 19, o ódio às mulheres, aos negros, aos indígenas, aos pobres e a todos e todas que expressavam formas diferenciadas de se amar. Muitos foram levados a pensar que o povo brasileiro era, essencialmente, ignorante e perverso, capturado pelo desamor e a desumanidade, despossuído de razão, descrente da ciência e da experiência acumulada de sabedoria.

Precisamos renascer na nossa brasilidade morena, reconquistar a nossa humanidade sufocada, refazer os caminhos do afeto, retomar a busca de utopias, reaprender os caminhos já trilhados por nosso povo, na sua luta permanente contra a opressão e violência dos dominadores.

Aprender as lições positivas da nação Guarani, experienciadas na República Comunista Cristã das Missões do Rio Grande do Sul, que persistiu por 130 anos e nos ensinamentos anunciados na atualidade pela cosmovisão de líderes e escritores indígenas na defesa do  Bem Viver – Tekó porã; com os negros e afrodescendentes, nos quilombos e na República Negra Palmarina, que floresceu e resistiu por 100 anos, chegando a ter  20.000 pessoas negras; com os trabalhadores migrantes europeus, no final do Império, constituídos principalmente de camponeses portugueses e já na Primeira República, por portugueses, espanhóis, italianos e de outras nações estrangeiras, que migraram para trabalhar na agroexportação de café e açúcar, bem como para o processo de urbanização e início da industrialização do país.

Estas referências históricas e atuais precisam ser resgatadas para reencontrarmos, despertarmos e inspirarmos a alma brasileira, num movimento de renascimento nacional.

Dos povos originários indígenas brasileiros herdamos o espírito do respeito ao feminino e o sentimento de pertença à mãe natureza (NhandeCy), o cuidado com as crianças de sua tribo ou nação, a solidariedade e fraternidade comunitária, a   crença na utopia da Terra sem Males (Yvy Maraey) e a cosmovisão do Bem Viver.

Do povo negro brasileiro herdamos a rebeldia contra a desumana e cruel violência da escravidão, a resistência coletiva dos Quilombos, de Palmares, a República Negra, numa luta permanente pela igualdade, contra o preconceito racial e o racismo estrutural, devemos nos alegrar, reconhecer e exaltar o poder criativo de compositores, escritores, capoeiristas, cantores, artistas, sambistas, chorões,  instrumentistas, que engrandeceram nossa cultura e criaram gêneros musicais genuinamente brasileiros, com a marca indelével do povo negro.

Os quatro milhões de migrantes brancos europeus, durante a primeira república, nas primeiras décadas do século XX, constituídos de camponeses, operários, artesãos, pequenos comerciantes e outros ofícios, impulsionaram, em parceria com os povos originários brasileiros,  o surgimento de lideranças populares e sindicais, a formação da classe operária, a luta por melhores condições de trabalho e direitos trabalhistas, a criação de sindicatos de trabalhadores, o surgimento da imprensa sindical, através de uma miríade de pequenos jornais de trabalhadores de diversas tendências políticas e a fundação do primeiro partido político da classe trabalhadora. Estes migrantes trabalhadores incorporaram-se progressivamente ao povo, assumindo a sua brasilidade mestiça.

Destas três vertentes étnicas, indígena, negra e branca, forjou-se lentamente e unificou-se o povo brasileiro.

Como diz Darcy Ribeiro, no seu profundo e fundamentado livro O POVO BRASILEIRO – A formação e o sentido do Brasil: “Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia. Esta unidade não significa porém nenhuma uniformidade. O homem se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferente. A urbanização contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças. Fala-se em todo país uma mesma língua, só diferenciada por sotaques regionais. Mais do que uma simples etnia, o Brasil é um povo nação, assentado num território próprio para nele viver o seu destino.”

Somos, os brasileiros e brasileiras, um povo mestiço, essencialmente plural, solidário. Precisamos assumir a nossas brasilidade mestiça, morena, todos nós trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, a classe média, a juventude, pesquisadoras e pesquisadores engajados, produtores agropecuários, industriais, da construção civil, do  comércio e da comunicação com visão democrática, que respeitem os direitos trabalhistas e o estado democrático de direito, os nossos intelectuais e artistas de todas as artes, sem nenhuma apartação de credo, de gênero, de etnia e cor da pele, de origem territorial e de forma de amor. Temos que superar a visão do identitarismo exacerbado, que pode nos segregar, nos compartimentar, pois isto só serve à ideologia individualista capitalista, com seu propósito de nos separar para mais facilmente dominar. Não é a quantidade de melanina que temos na pele, por exemplo, que determina quem somos em nossa essência humana e brasileira, mas sim a nossa escolha de que lado estamos na história, o nosso caráter, nossa ética, nosso respeito, nossa visão de mundo, sem abrir mão da luta permanente e ferrenha contra o preconceito racial e o racismo estrutural. Devemos, enfim, como afirma Cornel West, negro, um dos mais destacados pensadores da atualidade, lutar ” contra todas as formas de racismo, machismo, homofobia ou justiça econômica que prejudicam as oportunidades das pessoas comuns para viver com dignidade e decência”.

O que deve nos unir é a luta pela igualdade social, o respeito às diferenças humanas, a plena liberdade, a ética nas atitudes, a igualdade de oportunidades, a segurança econômica básica, os direitos sociais e da pessoa humana, a equidade na proteção aos mais vulneráveis, na proporção de suas necessidades e a convivência saudável com a natureza e todos os seus entes e potencialidades naturais. Devemos compreender e reconhecer a beleza e o poder de nossa mestiçagem étnica, sem nenhum preconceito e termos orgulho de nossa brasilidade morena. Devemos compreender a nossa conformação étnica, numa visão de reconhecimento de nossa identidade nacional, como nos alerta Darcy Ribeiro: “A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas à lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação.”

Somos uma nação mestiça e um povo essencialmente moreno.

 


Manoel Dias da Fonseca Neto – escritor, médico sanitarista e epidemiologista. Nasceu em Quixadá-Ceará em 1946. Na Faculdade de Medicina  integrou-se às lutas contra a Ditadura Militar, militou na Ação Popular, junto com sua esposa Iracema Serra Azul, sendo presos políticos. Médico Epidemiologista e Sanitarista e Mestre em Saúde Pública.  Secretário de Saúde de Fortaleza e de Beberibe. Foi um dos coordenadores do processo de implantação do Programa Saúde da Família do Ceará e co-fundador da Escola de Saúde Pública. Publicou Desafios para a Saúde Pública do Ceará, Iracema Nosso Amor, Tempo de Nascer, Baú dos Avós, Benditas & Guerreiras, Madalena e o Sagrado Feminino, Meu Povo Ancestral, Fortaleza Cidade Saudável e Fraterna, Escravidão e Lutas de Libertação, Sendas Poéticas e participou de mais de uma dezena de Antologias. Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Movimiento Poetas del Mundo, Academia Quixadaense de Letras, Academia Cearense de Médicos Escritores,  Academia Cearense de Saúde Pública e Academia Cearense de Literatura Popular.

Contatos com o autor: (85) 996457724 | mdfonsecan@gmail.com

 

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Uma resposta

  1. Conheci, o médico sanitarista, escritor e poeta Manoel Fonsêca, no terceiro Festival de Poesia de Lisboa, trazendo seu poema Violação Infantil. Posteriormente, tive a oportunidade de reencontrá-lo na FLP Festa Literária de Paraty, em 2018. Seu trabalho sempre voltado para o tema humanista, reaparece na Coletânea Consciência, trazendo a riqueza da nossa origem, o resultado da miscigenação das raças: branca, indígena e negra. Pontuar esse aspecto é, com certeza, refletir o que nos leva ser o que somos na atualidade e compreender o porquê dos nossos anseios, expectativas e diferenças.

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