A Serra do Ororubá ergue-se como um coração de pedra no agreste pernambucano. De longe, parece apenas um monumento geográfico. De perto, pulsa. Nela ressoam os passos descalços dos Xukuru, os cânticos ancestrais, o eco de uma luta que não se cala. Hoje, a terra é demarcada, homologada, reconhecida em papel. Mas, no chão, a guerra é diária.
Os Xukuru do Ororubá, de Pesqueira – PE, somam cerca de 12 mil habitantes , espalhadas por 24 aldeias. Seu território, com 27.555 hectares de caatinga, fontes e histórias, é um arco-íris no cinza do sertão. Mas esse coração incomoda. Incomoda o latifúndio, que ainda roe as bordas da terra como um cupim insaciável. Incomoda o agronegócio, que olha para as veredas e só enxerga cana-de-açúcar ou eucalipto. Incomoda a indiferença de quem passa pela BR-232 e não percebe que cada curva da estrada é um capítulo de resistência.
Memória e Sangue
Há 25 anos, o sangue do Cacique Chicão Xukuru banhou essa terra. Seu assassinato, em 1998, não foi um crime isolado: foi um atentado contra a esperança. Chicão sonhava com uma terra livre, com escolas que ensinassem a língua Xukuru, com uma saúde que respeitasse os rituais de cura. Hoje, seu nome é semente. Nas escolas indígenas, crianças aprendem que “Xukuru” não é apenas etnia — é verbo que significa “nós existimos”.
A Terra que não Cessa
A demarcação, conquistada em 2001, foi uma vitória. Mas, e a paz? A paz ainda é um luxo. Fazendeiros vizinhos plantam cercas onde antes havia apenas mato. Madeireiros ilegais cortam árvores sagradas sob o manto da noite. E o Estado? Chega com promessas que voam mais leves que papagaios. A saúde é um quebra-cabeça: agentes indígenas percorrem aldeias de sol a sol, mas faltam remédios, faltam médicos que compreendam que um pajé também cura.
Cultura: Raiz e Antena
Os Xukuru não são só dor. São fogo nas noites de lua cheia, são Toré dançado no terreiro. Maracás ecoam, corpos pintados de urucum contam histórias que nem o tempo apaga. A língua Xukuru quase extinta há 30 anos hoje ressoa nas escolas, nas rádios comunitárias, nos grupos de WhatsApp da juventude. Eles são raiz e antena: guardam os segredos das ervas e dos astros, ao mesmo tempo em que navegam na internet para denunciar invasões e conectar suas lutas às de outros povos indígenas do Brasil.
Desafios do Século XXI
O maior desafio hoje é a sustentabilidade. Como viver da terra sem devastá-la? Os Xukuru apostam na agroecologia: roçados consorciados, criação de caprinos, artesanato que gera renda sem matar a caatinga. Mas a seca castiga, e os projetos públicos são como chuva de verão: fortes, mas passageiros. A juventude Xukuru caminha sobre um fio de navalha: deseja a modernidade, mas teme perder a alma. Alguns migram para as cidades; outros retornam, trazendo consigo os estudos e a certeza de que o Ororubá é o único lugar onde podem ser inteiros.
O Ororubá Pulsa
Ao cair da tarde, o sol pinta a serra de dourado. Do alto, o Cacique Marcos Xukuru olha para seu povo e sorri. Ele sabe que a luta é longa. Sabe que cada criança que aprende a dizer “meu nome é Xukuru” é um tijolo contra o esquecimento. A terra deles não é apenas chão. É arquivo vivo, farmácia, catedral. E enquanto houver um Xukuru cantando, rezando, plantando resistência, o Ororubá continuará pulsando. Batendo forte. Batendo livre. Batendo indígena.
Maria do Carmo da Silva. Mestra em Ciências da Educação com foco em pesquisa Indígena. Pós-Graduação Lato Sensu em Ensino da História do Brasil pela Faculdade Integradas da Vitória de Santo Antão (FAINTVISA) Graduação em História pela Faculdade Integradas da Vitória de Santo Antão (1993). Graduação em Pedagogia pela Faculdade Única de Minas Gerais. Experiência Profissional: Professora de História, Filosofia e Geografia no Colégio Céu Azul. Orientadora e membro de bancas de avaliação de trabalhos de conclusão de cursos. Palestrante e pesquisadora das culturas afro-brasileiras e indígenas, com destaque para os Xukuru do Ororubá em Pesqueira – PE. Atividades Literárias: Escritora com livros publicados, autora de diversos capítulos de livros, artigos em revistas, e contribuições para jornais e antologias e organizadora de livros. Membro de Instituições Culturais: Membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciências (AVLAC). Membro da Arena da Poesia em Caruaru. Sócia do Instituto de Patrimônio Histórico e Geográfico de Gravatá (IHAG). Sócia do Instituto Histórico e Geográfico da Vitória de Santo Antão (IHGVSA). Sócia da Academia de Letras, Artes e Ofícios Municipais de Pernambuco (ALAOMPE).
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