Feliz quem não é acusado por sua consciência e quem não perdeu a esperança. (Eclesiástico 14,2)
Aos quarenta e oito anos e uma vida organizada como a estante de porcelanas herdada da avó materna, Berenice vivia tranquilamente no bairro da Tamarineira. O apartamento de três quartos, com varanda enfeitada por plantas compradas para decorar o ambiente, além das esculturas e quadros de artistas locais, indicados por arquiteta renomada, compunham o espaço de Berenice. Uma vida resumida às aulas de musculação, compras no shopping, idas ao cabeleireiro e manicure, uma vez por semana, aos almoços de domingo com a família e às conversas repetidas com as amigas no whatsapp.
As informações que obtinha eram oriundas das redes sociais e se restringiam a compras, à comédia, à fofoca. A TV era acionada somente no horário das novelas, em eventos esportivos, e desligadas em horário de telejornais. As crenças familiares em que foi ensinada desenharam valores fúteis implantados como um chip em seu cérebro. Além disso, como a vida era dedicada ao marido e aos filhos, ainda deixava sua visão de vida reduzida a um mundinho pequeno, como se não existisse nada além daquele jardim do éden particular.
Naquele tempo, ela acreditava que a vida era feita de pequenas conquistas: trocar o carro a cada cinco anos, pagar o plano de saúde em dia, viajar no fim do ano para algum destino turístico repetidamente fotografado. A vida social era resultante do ambiente familiar, frequentando batizados, crismas, casamentos, aniversários. Nada fora desse círculo parecia lhe dizer respeito. Até se afastava de “leituras pesadas” que viessem abalar aquele mundo cor-de-rosa.
Com o passar do tempo, algo começou a mudar. Primeiro, o marido que parecia tão apaixonado lhe deixa por uma jovem com metade da sua idade. O filho mais velho perdeu o emprego, voltando para casa com os olhos pesados de desalento, e a filha mais nova acabou um noivado promissor aos seus olhos. Depois, uma vizinha do prédio, sua amiga, que sempre cuidava dos filhos com dedicação, foi despejada por não conseguir pagar o aluguel. E, certa noite, quando o ar-condicionado de Berenice quebrou, obrigando-a a abrir as janelas, ela ouviu as vozes da rua: vendedor de cuscuz avisando a passagem com um apito, anunciando o alimento para trabalhadores da construção próxima, crianças pedindo moedas na esquina, gente discutindo. De repente, não era mais um ruído distante. Era a vida pulsando a poucos metros de sua varanda enfeitada.
Curiosa, começou a caminhar pelo bairro além da rota habitual. Reparou nas filas em frente ao posto de saúde, nas mulheres que trabalhavam dobrado para sustentar a casa, nos homens com mochilas pesadas que iam e vinham em silêncio. Sentiu vergonha da própria indiferença. Como pude viver tanto tempo sem ver? Procurou um trabalho para poder não depender de pensão. Conseguiu graças a uma amiga, (pois amigas nunca faltam em momentos difíceis) que lhe empregou num local muito interessante lhe devolvendo a dignidade.
Neste novo mundo, Berenice conheceu a vida das mulheres trabalhadoras, a força de mulheres que vivem por conta própria, e foi saindo do medo de não se sustentar. Com sua iniciativa, foi conseguindo mostrar aos filhos que existe uma esperança. O filho buscou uma vida no exterior, a filha percebeu que o mundo é maior do que um casamento, buscando um emprego dentro da sua habilidade, e está muito realizada.
As leituras que antes desprezava ganharam outro sentido. Um post no Instagram da Associação Comunitária da Tamarineira chamou-lhe atenção. Compareceu tímida à reunião, onde ouviu sobre os cortes de verba na escola pública e sobre a luta por transporte decente. Sentou-se num canto, mas saiu com o coração acelerado. Havia descoberto que existia um mundo de interesses, de disputas e de poder, muito mais próximo do que imaginava.
Nos meses seguintes, além da dedicação ao trabalho, Berenice se tornou presença constante nos encontros da associação. No começo das reuniões, apenas ouvia. Depois, começou a organizar listas, a ajudar na comunicação, a buscar voluntários e emitir opiniões. Sentia-se viva como nunca antes, como se a vida não coubesse mais na estante de porcelanas.
Certo dia foi escolhida para falar em nome da associação em uma audiência pública sobre o sistema de transporte público de passageiros, o aumento da tarifa de ônibus e a privatização do Metrô do Recife. A mulher de voz contida e vida previsível se dirigiu ao microfone do plenário. Com a simplicidade que sempre a acompanhou, Berenice disse: Eu não entendia nada disso. Achava que era coisa dos outros. Mas aprendi que, quando fechamos os olhos, estamos apenas permitindo que alguém decida por nós. Eu não quero mais viver assim! Vamos fazer valer a nossa vontade, que deve ser soberana. Digamos não a essa situação e votemos em quem defende o povo e suas necessidades. Finalizou sua fala com o poema O Trem da Gente de Bernadete Bruto, que entendeu ser apropriado para a ocasião:
O trem da gente
Diariamente
Conduz
Invisível gente
Pela cidade cega
Um trem bom
Para tanta gente
Gente de bem
Não se desfaz de uma história
Não se descarta gente
Não se despacha trem
(longo apito)
O auditório se calou por alguns segundos, antes de aplaudir. Berenice desceu do palco com as pernas tremendo, já não era mais a mesma. Descobrira que a vida, dura e desigual, pedia sua participação. E, pela primeira vez, ela estava pronta a dar-se inteira levando esperanças ao mundo.
Bernadete Bruto é Metroviária, Especialista em RH, Escrita Criativa e Mestre em Design. Tem oito livros publicados, participação em diversas coletâneas, além de várias apresentações performáticas em eventos culturais e vídeos. É produtora do Podcast Salve Palavra, apresentadora do programa Palco Iluminado no Canal Arte Agora e facilitadora da oficina de expressão poética no Curso de Escrita Criativa Social organizado por Patrícia T
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