Crônica de vida e sentimento – vista do vazio entre o sonho e a realidade, por Cláudia Guerra

Era um cenário lúgubre. Um terraço estreito, longo e mal iluminado, com poltronas e sofás antigos com estofados de tecido estampado e triste. 

Parecia que as luzes não tinham forças para iluminar e, conformadas, limitavam-se a sombrear o caminho. 

Havia cadeiras empalhadas e encardidas, com almofadas deformadas e seus forros amarelados,  que escondiam histórias ouvidas e continham silêncios entre seus braços.

Os móveis, pesados, inertes e escuros nos olhavam desconfiados. Pareciam conformados com o lugar que ocupavam há muito tempo desde que foram colocados ali condenados a fazerem parte desse ambiente para sempre.

Atravessando o corredor sempre do mesmo jeito, no fundo, chegávamos a um um sofá, almofadado, pesado, enraizado, cuja madeira já acinzentada, entregava sem querer a sua antiguidade.

Convidados a sentar, após os cumprimentos iniciais, começava então a enfadonha conversa.  

Somente ela, a criança, tal como os móveis, calada, observava os olhares, sorrisos sem graça e dos assuntos que não lhe interessavam, pouco entendia. 

Sabia apenas que era o último dia de suas férias escolares e que sua mãe estava com ela, e logo iriam se separar, pois, no dia seguinte viajaria para o interior onde morava, até as próximas férias em que se encontrariam novamente.

Ela não conseguia compreender o por que de todas as vezes, às vésperas de se despedir da sua mãezinha, tinha que ir a esse lugar, passar por aqueles móveis, naquela penumbra e ver essas pessoas estranhas das conversas sem graça.  

Depois, a despedida e a realidade. Era sempre assim.

Terminada a visita em que pouco falara, e que achava até nem ter sido vista, se despediam e  voltavam pra casa. 

Como entender aquilo tudo, e por que tinha que estar ali, sem deixar de sentir um frio estranho na barriga, a sensação de vazio e o desejo de fugir daquele lugar estranho e desagradável. 

Até que um dia, sem qualquer explicação, como acordando de um pesadelo,  a menina não mais esteve  naquele lugar, com aquelas pessoas estranhas, restando apenas em sua lembrança, a sensação, por vezes, daquele vazio que sentia. 

 

CLÁUDIA GUERRA é natural de Campina Grande e radicada em Recife desde 1975. Foi aluna do Colégio das Damas de 1964 a 1977, onde concluiu o curso médio de Desenhista de Arquitetura. Advogada, mestre e doutora em Engenharia Civil pela UFPE, foi empregada por 38 anos da CBTU – metrô do Recife. Mediadora lusófona, pelo ICFML em 2019. Poeta e escritora pós-graduada em Escrita Criativa pela Unicap/PUCRGS/2023. 

Autora do livro de contos e poemas ilustrados “Aquih&Acolah, pelo qual ganhou em 2022, o prêmio do Canal Arte Agora de Melhor Poetisa estreante no âmbito da FLIPPO. Autora do livro “Foi um dia… uma história… uma vez… com causos, fábulas e contos do Metrô do Recife” lançado na Bienal em Recife/2023. Autora do Livro Iluminações com Cláudia Guerra, lançado na bienal/2025. Coautora em dez coletâneas literárias, membro da Sobrames/PE e da União Brasileira de Escritores – UBE/PE. 

É artista plástica, pintora, idealizadora e apresentadora do Programa Iluminações com Cláudia Guerra, no Canal Arte Agora no Youtube, cuja estreia se deu em outubro/2024 e foi eleito pela Câmara Brasileira de Cultura na categoria de Melhor Programa de arte de 2025 Idealizadora e mediadora no Projeto Literário (RE)Contando Histórias para Adultos do Programa 60+ de Cultura Nordestina Letras e Artes, em parceria com a Editora Ser Poeta.

Para participar da nossa Coletânea, clique aqui, leia o edital e inscreva-se até 30 de setembro de 2026

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