A verdade é a concordância do que é afirmado ou negado com o objeto da afirmação ou da negação. É a coincidência entre o que se percebe e o que é percebido. Porém, o que é percebido pode resultar de ilusão ou simulação e, assim, não passa de mera aparência.

A moral e a religião exigem que os indivíduos digam sempre a verdade. Por isso, a mentira é repudiada e combatida. 

Dizer sempre a verdade ultrapassa a capacidade do ser humano. Em alguns casos, é transumano, em outros, desumano.

A verdade, em muitos casos, pode ser um luxo só utilizado em situações de segurança. As situações de perigo geralmente eliminam a prática da verdade. E o verossímil é a máscara usada pelo indivíduo para se safar de situações perigosas, ameaçadoras.

Nem sempre podemos dizer a verdade ou toda a verdade.  Há ocasiões em que é necessário mentir, enganar os outros.

A simulação é uma forma de mentira e constitui uma estratégia de sobrevivência. A presa se disfarça ou simula estar morta para salvar sua vida, enganando o predador. Stephen Larsen informou que os chimpanzés e os gorilas são capazes de mentir. O homem, também, em situações especiais, mente para salvar sua vida e/ou de outras pessoas. Ninguém é obrigado, em nome da verdade, a sacrificar a própria vida. Qual a mãe que, em nome da verdade, indicaria o paradeiro de um filho, perseguido por pessoas sequiosas de matá-lo? Em nome da verdade, deveria fornecer a estas pessoas o local exato onde o seu filho se encontra? A mentira, nessas circunstâncias, não é um mal necessário: é uma estratégia biológica, deflagrada pelo instinto de auto conservação ou pela estima por outras pessoas. Nesses casos, a mentira não prejudica ninguém e ainda salva a vida do circunstancial mentiroso ou de terceiros. Assim, ela não deve ser julgada em si, mas nas suas motivações e consequências. Falar a verdade, mesmo às custas da vida, é sempre uma opção, jamais uma obrigação, um dever.

Na guerra, se usa a camuflagem para enganar o inimigo. Na paz, se faz diplomacia, uma mentira elegante, para se preservar a paz.

A vida social é um complexo de mentiras ritualizadas. As mentiras sociais pacificam as pessoas e asseguram a continuidade das relações sociais.

Quem, ao menos uma vez da vida, não se utilizou da indulgente mentira da doença para se furtar a um incômodo compromisso social? Se o paraíso é vedado àquele que já mentiu, é inquestionavelmente certo que nenhum ser humano se encontra lá.

Mentimos para sermos agradáveis e gentis. Mentimos para nos agradar. Mentimos para nos defender. Mentimos ao exagerar nossas virtudes, habilidades e conquistas. Mentimos ao minimizar nossos defeitos, inabilidades e insucessos. Mentimos para não ferir os outros e para não nos ferir. Mentimos para dar ânimo aos derrotados, aos doentes, aos infelizes. Mentimos para sermos aceitos ou amados. Mentimos para nos livrar de compromissos sociais. Mentimos por medo de prejudicar os outros e nos prejudicar. Mentimos para proteger-nos e proteger as pessoas que amamos. Mentimos para esconder nossa raiva, revolta, despeito, decepção. Mentimos para nos salvar e salvar os outros. Mentimos para evitar um mal maior. Mentimos para não revelar um fato doloroso. Mentimos por paixão e por compaixão. Mentimos por ódio e por amor. Mentimos para estimular o ânimo abatido dos amigos e também para abater os inimigos. A carícia da mentira também é desejável. Em alguns casos, a verdade é uma bofetada aplicada em hora errada. Porque há verdades que apenas derrubam e em nada ajudam.

A mentira é uma grande panaceia, servindo de terapêutica anódina para as mais diversas situações da vida. Quem diz que não mente ou que nunca mentiu é um grande mentiroso. Paradoxalmente quem diz “eu minto”, está dizendo a verdade, mesmo para o escândalo hipócrita dos demais mentirosos.

Ensinamos a verdade e convivemos com a mentira. A verdade, quase nunca, é companhia desejável. Raríssimos são os que gostam de vê-la e de ouvi-la. E raramente a verdade pode ser mostrada, pois, quase sempre, traz vexame e constrangimento. Não é, pois, sem razão que se fala de verdade nua e crua: escandalosa para os olhos, ruim para o paladar. A mentira, ao contrário, em muitos casos, sempre está vestida com os trajes mais deslumbrantes e temperada com os mais deliciosos sabores.

Combate-se a mentira e mente-se, dizendo-se amar a verdade. Até parece que a verdade é um mal necessário e a mentira, a verdadeira natureza humana.

A mentira é a mais versátil e eficiente arma de defesa em determinadas situações. E, também, arma de ataque. Até a confissão de um mentiroso sobre sua mentira pode ser uma mentira para simular o arrependimento e lhe trazer benefícios futuros.

A verdade é sempre a mesma. Mas, a mentira tem o dom da metamorfose: é extremamente versátil e criativa. A verdade é uma estátua, imutável, sem surpresa.

É evidente que, nem sempre, a verdade pode ser dita. Pode até ser prejudicial, em certas circunstâncias. Há pessoas que não estão capacitadas a conhecer certas verdades. Ou seja: não se deve dizê-las a determinadas pessoas, porque elas, por incapacidade de compreendê-las, podem deturpar-lhes o seu real significado. Nesse caso, omite-se a verdade.

Há ocasiões em que a mentira pode trazer resultados benéficos a quem mente e àquele a quem ela é dirigida. Se, por exemplo, sorrimos para alguém de quem ainda temos mágoa, visando restabelecer a amizade abalada, esse gesto, embora mentiroso, pode fazê-lo acreditar que não mais estamos magoados. Então, com isso, é possível, de novo, atrair-lhe a simpatia e, em virtude disto, dissolver a mágoa recíproca.

A mentira eventual é comum no ser humano. Mas, se se torna habitual, é maléfica para quem mente, por fazê-lo uma pessoa não-confiável e principalmente se prejudica outras pessoas.

(Do meu livro “A Realidade e as Questões Existenciais”. 2005)

 

Valter da Rosa Borges é recifense, bacharel em Direito (UFPE), procurador aposentado do Ministério Público de PE. Foi professor de Direito Civil (UNICAP) e Sociologia (UFPE). É livre-pensador, parapsicólogo, filósofo, poeta, escritor, conferencista e autor de 40 livros e de inúmeros artigos que versam sobre os mais diversos assuntos. Fundou o Grêmio Cultural Joaquim Nabuco (1950); o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas – IPPP (1973); a Academia Pernambucana de Ciências – APC (1978). Criou, dirigiu e apresentou o programa “O grande júri” na TVU – Canal 11, durante 14 anos, tendo sido agraciado com o título de “Melhor produtor de Televisão de Pernambuco (1977), conferido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão de Pernambuco. Recebeu o prêmio de poesia “Lyra e César” (1995), concedido pela Academia Pernambucana de Letras – APL, e o título de “História Viva do Recife (1999), outorgado pelo Museu da Cidade do Recife.


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Uma resposta

  1. Um brilhante artigo. Uma coletânea de ideias que iluminam, esclarecem e enaltecem o pensamento humano. Uma obra que nasceu de um grande pensador. Parabéns, Valter da Rosa Borges !!

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