“Diz a lenda que se você parar de olhar pro celular e erguer os olhos, vai ver árvores, pessoas, céu, pássaros……..” (Internet. A Rádio Rock, 28/3/2015. #vivarock)
No mundo contemporâneo, o virtual tem tentado se impor como Verdade. Há todo um instrumental e estratégias voltados em atrair as pessoas para outras realidades. Entre os mais diversos tipos de equipamentos, reina o smartphone. Tornado espécie de prótese eletrônica, é reconhecidamente eficiente como meio de comunicação social e acesso à informação. Entretanto, esses aparelhos capturam, os bens mais preciosos do ser humano: a atenção e o tempo. Isto é, inibem, estrategicamente, a contemplação e a imaginação como fontes de construção da realidade própria de cada pessoa. A foto da Figura 01 ilustra bem o poder de tais aparelhos. Na imagem, duas pessoas estão sentadas em um banco de costas para a praia e o mar. Suas atenções voltam-se inteiramente para os celulares. O ambiente natural e a pessoa que passa correndo não atraem a atenção. Eles estão ausentes de tudo, deixaram de ver o mundo.
Figura 1. Olinda/PE. 2025.
Estamos, portanto, diante de enorme desafio. O que é a Verdade num mundo digital povoado de redes sociais, de informações falsas e presença da Inteligência Artificial? Escritores, líderes espirituais e legislações estatais têm, porém, acionado o alarme. O filósofo sul-coreano Byung – Chul Han, autor do livro PSICOPOLÍTICA: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, diz que o smartphone tornou-se um objeto de devoção. Para Niall Ferguson e John – Clarkl Levi, no artigo A MORTE DA HISTÓRIA, publicado no “The Free Press” em 16/7/2026, as ferramentas que outrora expuseram e desmascaram a negação do Holocausto tornaram-se impotentes contra a Inteligência Artificial e os algoritmos. O escritor Yuval Noah Harari, afirma em seu livro NEXUS: uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à Inteligência artificial, que “Informação não é verdade”. A própria Igreja Católica, com a recente Encíclica MAGNIFICA HUMANITAS do PAPA LEÃO XIV, fez veemente convite para a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Alguns países também entraram na luta com legislações proibitivas do uso do celular por crianças e jovens. Além do mais, filósofos, poetas, médicos, psicólogos e artistas já participam desse grande movimento de resistência.
A Fotografia, por sua vez, tem obrigação de participar desse bom combate. A câmera fotográfica integrada ao celular revolucionou o mundo das imagens. Popularizando a atividade, a câmera do aparelho permite que diariamente bilhões de pessoas tirem, compartilhando nas redes sociais, fotos de diversos temas. Tais imagens fotográficas, entretanto, podem ser entendidas como traços de um mundo real. Não há nenhuma novidade. O escritor Roland Barthes em A CÂMARA CLARA: nota sobre a fotografia, publicada pela 1980, deixava explicito que “não há foto sem alguma coisa ou alguém”.
A presença da câmera fotográfica, portanto, possibilitou o uso do celular como meio de observação e registro de coisas verdadeiras da vida e do mundo. As imagens do banhista fotografando uma garça com celular são bastantes ilustrativas (Figura 02 e Figura 03). Seus gestos revelam o acompanhamento do movimento da ave pela tela do aparelho. O celular, perdendo parte do poder de reter a atenção e tempo, foi utilizado para a observação e registro de coisas reais.
Fig. 2. Olinda/PE. 2025. Fig. 3 Olinda/PE. 2025
Enfim, as gerações contemporâneas estão diante do maior desafio da humanidade. Isto é, a ameaça das inovações tecnológicas de informação sobre o desenvolvimento integral do ser humano e a conservação de nossa Casa Comum.
RIVALDO CHAGAS MAFRA. Olinda/Pernambuco, 1933. Engenheiro Agrônomo pela UFRPE. Professor aposentado da UFRPE, pesquisador aposentado do IPA e membro da Academia Pernambucana de Ciências Agronômicas. Associado da LETRART (2016). O amor pela Fotografia faz parte de sua vida. Nos registros das atividades profissionais e iniciação à Arte Fotográfica na aposentadoria. Frequentou cursos de curta duração e Saídas Fotográficas do Pernambuco Foto Clube. Participa dos eventos atuais do Pequeno Encontro da Fotografia. Em 2017, iniciou trabalho voluntário, lecionando Cursos de Fotografia com celular para pessoas idosas do NAISCI/HUOC/UPE. Ministrou Palestras e Oficinas sobre Fotografia Artística. Publicou o fotolivro ASSIM VI (2022) e o fotozine OLHAR DE QUARENTENA: registro celular em Chã Grande (2023).
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Uma resposta
O tema debatido nesta quarta edição da série de coletâneas lançadas, desde 2023, pela Novoestilo Edições do Autor, é tratado por seus participantes sob diferentes ângulos. O texto de Rivaldo Mafra expõe a verdade sob a perspectiva da fotografia, enxergando as nuances que podem transformar a IA em um entrave para o desenvolvimento ético e moral do ser humano, dada a disseminação da mentira e da retórica do ódio, na velocidade da luz, neste início do século XXI. Parabéns, Rivaldo, pela sensibilidade com que o tema foi tratado, abrilhantando a nossa coletânea.