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	<title>Arquivos Coletâneas &#8226; Cultura Nordestina</title>
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	<description>Letras &#38; Artes</description>
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	<title>Arquivos Coletâneas &#8226; Cultura Nordestina</title>
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		<title>Clarice Lispector: da Ucrânia para a literatura brasileira, via Pernambuco, por Monsenhor Assis Rocha*</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Nov 2021 16:33:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Clarice Lispector]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em julho de 1966, chegava eu a Afogados da Ingazeira, com 25 anos, para estagiar naquela sede diocesana – cerca de 400 km da Capital, no interior de Pernambuco – tendo em vista a ordenação sacerdotal. Passei a ter como superior e orientador, o próprio Bispo, Dom Francisco Austregésilo, que já fora meu Reitor e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Em julho de 1966, chegava eu a Afogados da Ingazeira, com 25 anos, para estagiar naquela sede diocesana – cerca de 400 km da Capital, no interior de Pernambuco – tendo em vista a ordenação sacerdotal.</p>
<p>Passei a ter como superior e orientador, o próprio Bispo, Dom Francisco Austregésilo, que já fora meu Reitor e professor no Seminário de Sobral, a quem eu sempre admirei e respeitei muito. Foi logo depositando confiança em mim, fazendo-me vice-diretor de um bom Colégio da Diocese, de 1º e 2º graus, até então dirigido por Religiosas Franciscanas e, a partir dali, por diretores indicados pelo Bispo. Tive a sorte de trabalhar com a super competente diretora, Dona Ione de Góes Barros, integrando a sua equipe de professores.</p>
<p>Dom Francisco me deu também a Direção Administrativa da Rádio Pajeú que já estava em seu 7º ano de existência, como pioneira em todo o sertão e me ofereceu uma casa da diocese, bem no centro da cidade, para transformá-la em um “Clube de Jovens de Afogados da Ingazeira”, o <em><u>Club JAI</u></em>, com jogos de mesa, músicas da jovem guarda, revezando com MPB, com hora marcada para iniciar e terminar, já que a energia termoelétrica faltava às 22 horas, com um rápido aviso dez minutos antes. Tempo suficiente para pararem os jogos, organizá-los e correr pra casa.</p>
<p>No início de 1967 o ano era novo para todas as atividades. A base já estava pronta para entrar em ação. Inexperiente, é claro, mas com muito gás e com muitos planos não só por conta do estágio, mas para lançar os alicerces de toda uma vida dali pra frente.</p>
<p>Apesar da importância que eu dava à preparação para ser Padre, não eram menos importantes as outras atividades que preenchiam o meu tempo e, uma delas, é claro, era o meu desempenho e interesse pela educação: no JAI, no Colégio e na Rádio Pajeú de Educação Popular.</p>
<p>À função de vice-diretor eu acumulava a de professor de certas matérias ou disciplinas importantíssimas para nossos alunos: Literatura Brasileira era uma delas. Não encontrando compêndios apropriados, sem recorrer à internet, bibliotecas ou a arquivos que me pudessem ajudar, logo em 1967 organizei um livreto, “manuscrito” por mim mesmo, pesquisado no que estivesse ao meu alcance na biblioteca do Bispo, do Pe. Antônio, Pároco da Catedral e nos meus “alfarrábios” pessoais, que eu ia formando ao longo do tempo e repassava para meus alunos. Tudo era de grande “novidade” para muitos deles.</p>
<p>Assim eu me expressei, falando-lhes sobre o Modernismo: <em>“é o movimento artístico que se caracteriza pelo desprezo às correntes anteriores (medieval e clássica) e pela busca de novos caminhos artísticos e estéticos”.</em> E acrescentava: <em>“os primeiros movimentos modernistas no Brasil se fizeram através das artes plásticas em oposição a tudo o que vinha do passado e agitava a Europa”.</em> Em seguida eu desfilei 22 escritores da Modernidade Brasileira (da 1ª à 3ª etapa) sobressaindo algumas escritoras: Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa e <strong><em><u>Clarice Lispector</u></em></strong>, mesmo tendo falado depois sobre Lília Pereira da Silva, representando a Literatura e Arte Contemporâneas, dentre 09 outros escritores mencionados.</p>
<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-9457 aligncenter" src="https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/11/clarice-p-monsenhor.png" alt="" width="147" height="171" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>Escritora CLARICE LISPECTOR</em></p>
<p>É aqui que quero dedicar a parte mais especial da minha reflexão, dando sequência ao desfile que estou fazendo de “pensadores que sonharam com um Brasil melhor” agora sob o Nº IX: <em><strong><u>Clarice Lispector</u></strong></em>. Como é possível ter eu elencado mais de 30 “pensadores”, “sonhadores”, “literatos” há 54 anos, nem Padre eu era, e estar vivo para apreciar esta história, até com ex-aluna minha?</p>
<p>Sob a “Organização da LETRART – Recife” tenho em mãos a II Coletânea de Memórias, intitulada de “Cartas a Clarice Lispector”, assinadas por nomes a mim familiares, por ter vivido em Pernambuco por 40 anos: <em>Quintella, Borba, Menezes, Gusmão, Japiassu, Rego</em> <em>Barros, Valença </em>e, é claro, minha ex-aluna e querida amiga <em>Fátima Brasileiro</em>. Entre eles há até um “Estadunidense de Sobral” para não fugir à regra de que “cearense está por toda parte”. Eu que o diga.</p>
<p>Entre as minhas resumidas ‘<em>anotações</em>’ que eu chamei de ‘<em>manuscritos’, </em>para as 30 biografias, eu segui o mesmo esquema: vida, obras e apreciação. Não me envergonho de mostrar a minha limitada sabedoria. <em>A Clarice nasceu aos 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia. Filha de um casal judaico. Todos tiveram que fugir do país devido a perseguições aos judeus durante a guerra civil russa. Vieram para o Brasil, entrando por Maceió, quando Clarice tinha dois meses de idade. Depois foram para o Recife onde ela aprendeu a ler e escrever e já foi mostrando sua vocação para escritora. Integrou o Modernismo Brasileiro já na sua 3ª etapa, junto a Rubem Braga, Lúcio Cardoso e Fernando Sabino.</em> Ressaltei-lhe as <em><u>Obras</u></em> até 1967, enquanto eu escrevia meus resumos: “Perto do Coração Selvagem” (1944). “O Lustre” (1946). “A Cidade Sitiada” (1949). “Alguns Contos” (1952). “Laços de Família” (1960). “A maçã no escuro” (1961). “A Paixão segundo G.H.” (1961 – sigla passível de vários significados). “A Legião estrangeira” (1964). “O Mistério do Coelho pensante” (1967).</p>
<p>Minha <em><u>apreciação</u></em> à época foi: <em>“até aqui, citei estas obras, imaginando o tanto que ela seria capaz de produzir. Conteúdo e bagagem ela tinha de sobra. Casada com um Diplomata viajava pelo mundo em sua companhia. Poliglota, tradutora e com uma carreira literária pela frente”… </em></p>
<p>Aos se aproximar do dia 10 de dezembro de 2020 e pelo ano de 2021 adentro, começou-se a falar de Clarice de uma maneira mais direcionada pela passagem dos 100 anos de seu nascimento, já que sua presença entre nós foi muito benfazeja. Cartas e mais cartas lhe foram direcionadas pelos seus mais diversos admiradores, estudiosos e escritores dos mais diversos pontos do país, sobretudo pernambucanos, que não se contiveram na ocultação de seus sentimentos, já que haviam bebido na fonte de seus conhecimentos e escritos que teriam de passá-los adiante. Eu, apesar de não ser escritor, por ter tido uma pálida passagem por sua vida, enquanto professor interiorano no sertão de Pernambuco e depois de ter visto uma ex-aluna minha – Fátima Brasileiro – tão belamente se referindo a ela, não me contive. Quis também eu usar este espaço que me é oferecido pelo meu amigo e colega, Professor Leunam, para opinar também sobre este centenário de alguém que também “pensou e agiu para tornar o Brasil melhor”.</p>
<p>Clarice morreu jovem ainda – um dia antes de completar 57 anos – aos 09 de dezembro de 1977 no Rio de Janeiro. Nos 10 anos de sua vida – entre a data que parei de escrever minhas anotações de Literatura Brasileira (1967) e a data de sua morte (1977) – ela ainda escreveu: “A Mulher que matou os Peixes” (1969). “Uma aprendizagem ou Livro dos Prazeres” (1969). “Felicidade de Clandestina” (1971). “Água Viva” (1973). “Imitação da Rosa” (1973). “A Via crucis do Corpo” (1974). “A vida íntima de Laura” (1974). “A Hora da Estrela” (1977). Com uma Bibliografia tão vasta é impossível resumi-la em poucas palavras. No entanto ouso indicar algumas frases: <em>“eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca”. “A grandeza do mundo me encolhe”. “O verdadeiro pensamento parece sem autor”. “A vida é oblíqua e muito íntima… Venho da dor de viver”. </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><strong> <em>Da série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (IX)</em></strong></p>
<p><strong>*Mons. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz, Mestre e Doutor em Comunicação Social, Articulista, Escritor</strong></p>
<p>Conheça a nossa história</p>
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		<title>Carta de Fátima Brasileiro a Clarice Lispector</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Sep 2021 13:09:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[II Coletânea de memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Clarice Lispector]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A CLARICE LISPECTOR &#160; Recife, 10 de setembro de 2021 Prezada Clarice, &#160; Reservada em vida, penso que vai agora se surpreender com tantas cartas na Caixa Postal. Quando ler a primeira, vai entender que esse foi o jeito encontrado pela Cultura Nordestina, para dizer que você continua presente entre [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A CLARICE LISPECTOR</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Recife, 10 de setembro de 2021</p>
<p>Prezada Clarice,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Reservada em vida, penso que vai agora se surpreender com tantas cartas na Caixa Postal. Quando ler a primeira, vai entender que esse foi o jeito encontrado pela Cultura Nordestina, para dizer que você continua presente entre nós, definitivamente.</p>
<p>A lembrança do nosso primeiro encontro é de quando comprei ¨Laços de Família¨, na Livro 7, um espaço de muita importância na vida cultural da cidade. Não é da sua época a livraria, mas quando eu disser o nome da rua &#8211; Sete de Setembro &#8211; vai se localizar, pois faz parte do mesmo Bairro da Boa Vista onde você viveu, e eu também. A Sinagoga que frequentou ficava na Rua Martins Júnior, uma das transversais, só que no trecho mais próximo à sua casa, na Praça Maciel Pinheiro, enquanto a Livro 7 estava mais perto da Faculdade de Direito e do Parque 13 de Maio.</p>
<p>Atraída pelo título, pois os meus laços são muito fortes, li com crescente interesse cada um dos treze contos. Ao longo desse tempo os reli, e agora, antes de lhe escrever, leio outra vez os preferidos.</p>
<p>Uma das primeiras identificações, foi logo no trecho inicial do conto que dá nome ao livro. Sou de origem interiorana e nosso meio regular de transporte, por longos anos, era exclusivamente o trem. Igual à mãe do texto, a minha também contava os volumes ao embarcar e os recontava a cada parada, pelo risco real de extravio, nas descidas e subidas dos passageiros.</p>
<p>¨Uma galinha¨, é o retrato do domingo na maioria das casas daquela época. O almoço era cevado no quintal por algumas semanas, assim engordava e ficava limpo. Comprar na feira e matar logo não era aconselhável, podia inclusive estar doente. Várias vezes bati o sangue de uma delas no prato contendo vinagre, para fazer o molho pardo, que eu adoro!</p>
<p>Minha avó dizia que se a gente tivesse pena, a vítima demorava a morrer. E não é que um dia aconteceu? A galinha soltou-se e saiu correndo pela cozinha, o pescoço sangrando, um alvoroço. Acabou na panela, o coraçãozinho com dois pequenos cortes transversais, uma simpatia para adivinhar o sexo de um bebê. Ficasse bem fechado após o cozimento, seria um menino; com as bordas entreabertas, uma menina.</p>
<p>Até a chegada da ultrassonografia, a galinha, além de ingrediente principal dos pirões do resguardo, tinha a responsabilidade de definir a cor do enxoval. Quando o prognóstico se confirmava, perfeito. Quando falhava, a sorte dela era estar morta e não ser filiada a nenhum conselho profissional. À parteira, contra os princípios de então, só restava a alternativa de vestir de rosa os meninos, e de azul, as meninas.</p>
<p>Outro conto do livro não me saiu da cabeça até hoje. As impressões sobre as reuniões familiares nunca mais foram as mesmas, a partir do ¨Feliz aniversário<em>¨ </em>de Dona Anita. Aos oitenta e nove anos e em dia de festa, teve o nome mencionado apenas pela vizinha. As noras de Olaria e Ipanema, ¨mulherezinhas de pernas finas, com colares e brincos falsificados¨, como a tratavam? Seria o desprezo entre as três, motivo para não dizer aos leitores os seus nomes?</p>
<p>A indiferença dos próprios filhos se refletia nos cumprimentos distantes e no beijo cauteloso na pele ¨infamiliar¨. Os sentimentos de estranheza e hostilidade de uns para com os outros, resultado das ofensas e desavenças passadas, se traduzia no espírito do (des)encontro &#8211; olhares impassíveis, corações revoltados e inquietos, angústia muda. Durante o ano inteiro, a vida da velha mãe era uma vaga etapa na da família. Nova visita só no próximo aniversário, diante do bolo aceso. ¨Ano que vem nos veremos, mamãe! ¨</p>
<p>A bem da verdade, a aniversariante desprezava toda a descendência &#8211; ¨que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas¨; inclusive os próprios filhos, não passavam de ¨carne do seu joelho¨. Que motivo a faria considerar, entre tantos netos e bisnetos, justamente Rodrigo, filho de Cordélia, ¨carne do coração¨?</p>
<p>Cordélia, a nora mais nova, de olhar sempre ausente e sorriso estonteado. Que segredo carregaria? Por acaso acreditava sobre ¨acontecer uma coisa que só acontece quando a gente acredita¨? A velha grande, magra, imponente e morena, acalentaria sonhos na aparência oca? Em algum ponto sogra e nora convergiam. Havia entre elas um cúmplice entendimento sobre a efemeridade da vida, mesmo sendo a verdade falada de relance, em linguagem compreendida apenas pelas duas. Quantas suspeitas você deixa nas entrelinhas!</p>
<p>Toda a conversa até agora foi apenas sobre o ¨Laços de Família¨. Também, aqui pra nós, tem algo mais poderoso? Sejam nós ou laços o que nos une, é disso que somos feitos, para o bem e para o mal.</p>
<p>Fica óbvio que neste espaço não cabem considerações sobre outros livros, marcas que nos acompanham nas leituras e escritas, na vida. Comprei agora no seu centenário, ¨Todas as Crônicas¨, uma festa para quem, feito eu, é cronista aprendiz. Outra publicação muito boa é ¨Clarice na cabeceira¨, com trechos de nove dos seus romances, um convite à leitura completa de sua obra.</p>
<p>¨Correio para Mulheres¨, mais uma edição comemorativa, reuniu os textos publicados em<em> ¨</em>Correio Feminino¨ e<em> ¨</em>Só para mulheres¨<em>. </em>O livro é lindo, traz fita em cetim para marcar as páginas e muito vermelho na capa. Aproximou mais você, essa é minha impressão. Ler o trabalho jornalístico sobre assuntos triviais, mesmo sob o disfarce de pseudônimos, é um imã que atrai o leitor comum, e fio que nos conduz pelos caminhos da sua genial criação literária. Gosto de pensar que você escreveu também para ser lida. Lida por todos que se interessam pela reflexão.</p>
<p>Preciso conversar muito, mas fico por aqui. Ah, ia esquecendo de contar que a minha sobrinha se chama Clarice &#8211; nome delicado mas de sonoridade expressiva e forte. Sua xará lhe conhece faz tempo, e conserva na estante dos livros da infância ¨A vida íntima de Laura¨, ¨A mulher que matou os peixes¨, ¨O mistério do coelho pensante¨ e ¨Quase de verdade¨. Sobre o último, nos divertíamos com Ulisses, por ter o mesmo nome de um tio muito querido. E pela interação dele, contando uma ¨história bem latida¨. Você criou personagens bichos incríveis!</p>
<p>Nesse momento, prefiro não lhe dar notícias do Brasil. A esperança é que no próximo 2022 recuperemos a dignidade de cidadãos.</p>
<p>Agradeço pelo legado e aproveito para reafirmar que a curiosidade pelos seus escritos não se esgota. Cada vez que a gente lê, surge um feitiço a nos desafiar, um ponto a refletir.</p>
<p>Recomendações à comunidade judaica, por quem tenho especial carinho.</p>
<p>Fique bem e em paz.</p>
<p>Abraço,</p>
<p>Fatima Brasileiro</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acesse o Edital de participação da Coletânea Cartas a Clarice Lispector</p>
<p><a href="https://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/">https://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Maria de Fatima Brasileiro Lyra, pernambucana, é farmacêutica e escreve crônicas para registrar o que leva no coração. É autora do livro <strong><em>Memórias Afetivas: Marias. A avó contou. A neta escreve </em></strong>e fez parte da Oficina Literária Raimundo Carrero. Nas publicações da Cultura Nordestina teve participação em <strong><em>Cartas a Monteiro Lobato</em></strong> e <strong><em>Festa junina especial. </em></strong>Sob a orientação de Paulo Caldas e Flávia Suassuna participou de várias coletâneas.</p>
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		<title>Carta de Bernadete Bruto a Clarice Lispector</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 May 2021 14:49:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[II Coletânea de memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Bernadete Bruto]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Clarice Lispector]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A CLARICE LISPECTOR                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 Elas moravam  num belo país. uma terra mágica que se chamava Literatura Pernambucana. (Cassio Cavalcante) &#160; Clarice, &#160; Me pego cismando o que poderia escrever que lhe interessasse, caso esta carta parasse em suas mãos. Logo eu, cuja escrita engatinha a milhas de distância da sua [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A CLARICE LISPECTOR</p>
<p style="text-align: right;">                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                <em>Elas moravam</em><br />
<em> num belo país.</em><br />
<em>uma terra mágica</em><br />
<em> que se chamava</em><br />
<em>Literatura Pernambucana.</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong>(Cassio Cavalcante</strong>)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Clarice,</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Me pego cismando o que poderia escrever que lhe interessasse, caso esta carta parasse em suas mãos. Logo eu, cuja escrita engatinha a milhas de distância da sua bela composição. Minha proto-escrita oriunda lá do neolítico do escrever, com certeza não lhe atrairia na rudeza do rabiscar. Da mesma forma, sinto que, na superficialidade de suposta leveza que apregoo meu existir, sempre rindo muito de mim e dos outros, também dificultaria bastante me aproximar de você, mulher profunda. E a distância se arraigaria para mais além, quando buscasse experiências de vida similares. Não deixei a minha pátria ao nascer, não morei no exterior, nem queimei meu rosto em um incêndio. E ainda por cima, como alcançar a sua dor da menina, que cedo perdeu a mãezinha? São muitas distâncias entre nós…</p>
<p>Não tenho profundidade suficiente para chegar ao nível de seu mergulho interior ao escrever, embora sua escrita cause a empatia em quem, já nadou em águas revoltas, com fundas imersões. Imagino que minha experiência de vida não seria motivo para sua atenção. O que talvez você pudesse lhe interessar fosse à propósito de algumas passagens agradáveis que vivi em ressonância com a leitura de seus textos. O que de sua escritura trouxe de bom para uma leitora que escreve e gosta de apresentar trabalhos como o seu, utilizando-se de outras artes.</p>
<p>Recordo da bela noite em que cheguei à Confraria das Artes, um ambiente de que gosto muito de frequentar. Naquele momento, estavam lendo “A Hora da Estrela<em>”</em>. Quer hora melhor para chegar a um lugar onde você se identifica? E foi lá, como também na Livraria Jaqueira, na Biblioteca de Olinda, em feiras literárias, juntamente com Taciana Valença e Vera Nóbrega que foi apresentada a performance “Eu, Clarice”. Para aquela apresentação, além do vestuário que achamos lhe representasse, colocamos uma máscara com sua imagem (inicialmente em preto e branco, e depois colorida). Naquela performance realizada a três, a     través de suas palavras, expomos  o seu processo criativo, no qual você equipara seu modo de escrever com a música, a pintura e cujo      tema versa sobre o instante.      E sabe de que livro as frases foram retiradas? “Água Viva”. Pois é… eu que me considero leve, optei pela ardência de palavras cunhadas a fogo naquele livro. Palavras espalhadas por cada página, como pequenos fios azuis e vermelhos formando a cabeleira de bolhas transparentes a boiar no mar da existência. Palavras que costumam queimar como brasa, deixando ferimentos na pele da alma. Assim, relembro como elas emergiram das profundezas daquele oceano interior e, ainda hoje, bailam em meu coração como uma velha canção do mar. É o meu livro predileto!</p>
<p>Também recordo da primeira frase escolhida para iniciar a performance, quando Vera dizia: <em>meu tema é o instante?</em>      Durante a apresentação, em determinado momento, eu falava algo que continua fazendo sentido para minha forma de viver: (…) <em>e se eu digo “eu” é porque não ouso dizer “tu”, ou “nós” ou “uma pessoa”. Sou obrigada à humildade de me personalizar me apequenando, mas sou és-tu. </em>Também inesquecível é o final da apresentação. Nele, fica declarada toda intenção pretendida através da escrita, por meio da frase que Taciana finalizava: <em>Quem me acompanha que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida, mas é vivida. Porque agora te falo a sério: <u>não estou brincando com palavras</u></em>     <em> </em>(grifo nosso).</p>
<p>E você acredita Clarice, que, por conta de nossa apresentação, ganhamos até um poema? O escritor Cássio Cavalcante escreveu para nós: “Três meninas, três Clarices”!  O recebemos      como uma grande honra. De minha parte, tenho a lhe dizer do encanto que foi encarnar sua personagem, como sei que foi do mesmo modo pelas meninas-Clarice. Posso afirmar em nosso nome, o quanto foi prazeroso, até, colocar pérolas, pintar o olho no estilo gatinho, escolher a vestimenta e aprimorar a apresentação. Através de suas palavras, levamos um pouco de você para o público, naqueles eventos em sua homenagem. Foram ocasiões memoráveis!</p>
<p>Espero que você, onde estiver, aprecie as homenagens que lhe fizemos. Tudo foi realizado com muito carinho, em respeito a sua palavra e à grandiosidade de sua escrita. Foi um tributo de “conterrâneas” da cidade do Recife, a cidade que você adotou como sua. Espero, um dia,  que esta cidade reconheça seu valor plenamente e que a casa abandonada na Travessa do Veras, local onde você residiu, seja transformada em uma casa-museu, concedendo-lhe um lugar de honra.</p>
<p>Por fim, aproveito o momento em que escrevo esta carta, para lhe desejar paz, agradecer aos ensinamentos provenientes da leitura de suas obras, as ocasiões especiais em que me agigantei, transformando-me em você. Despeço-me assim, com outra frase sua retirada igualmente do livro “Água Viva”, para afirmar que é do mesmo modo que desejo encerrar minha jornada: Q<em>uero morrer com vida. Juro que só morrerei lucrando até o último instante. </em>E como não tenho pressa, ficarei por aqui, a todo instante, degustando a escrita alheia que muito me enriquece.</p>
<p>Muito agradecida,</p>
<p style="text-align: right;">Berna</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acesse o Edital de participação da Coletânea Cartas a Clarice Lispector</p>
<p><a href="https://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/">https://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/</a></p>
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		<title>Narrativas de mulheres longevas (coletânea)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 May 2021 18:06:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coletânea Narrativas de mulheres longevas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Coletânea]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres longevas]]></category>
		<category><![CDATA[narrativas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>COLETÂNEA: NARRATIVAS DE MULHERES LONGEVAS Organizadora: Virgínia Barbosa Leal Editora: Salete Rêgo Barros Realização: Novoestilo Edições do Autor &#160; Estamos num tempo em que a longevidade tem aumentado a população de idosos, cujo perfil não guarda mais correspondência com os parcos estudos sobre o tema. O idoso atual que goza de boa ou relativa saúde [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h6><strong>COLETÂNEA: </strong><strong>NARRATIVAS DE MULHERES LONGEVAS</strong> <img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-6798 alignright" src="https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1-272x300.png" alt="" width="250" height="276" srcset="https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1-272x300.png 272w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1-600x663.png 600w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1-927x1024.png 927w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1-768x849.png 768w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1-1390x1536.png 1390w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1-1854x2048.png 1854w" sizes="(max-width: 250px) 100vw, 250px" />Organizadora: <em>Virgínia Barbosa Leal</em><br />
Editora: Salete Rêgo Barros<br />
Realização: Novoestilo Edições do Autor</h6>
<p>&nbsp;</p>
<p>Estamos num tempo em que a longevidade tem aumentado a população de idosos, cujo perfil não guarda mais correspondência com os parcos estudos sobre o tema. O idoso atual que goza de boa ou relativa saúde tem uma vida ativa física e intelectual, inserido em vários setores sociais, desde o esporte ao lazer, às atividades criativas e culturais.</p>
<p>A mulher longeva destaca-se nesse cenário, contribuindo de forma decisiva como formadora de opinião, trazendo seu saber, fruto da reflexão sobre as experiências que viveu e os eventos que testemunhou ao longo da vida.</p>
<p>É desse ponto que as convido a trazer o seu olhar a partir da sua inserção na terceira fase da vida, com narrativas que ajudem as mais jovens a atravessar a difícil fase de transição da vida fértil para a fase de declínio físico, com seus transtornos e benefícios. Dentro desse último ciclo de vida há várias faixas etárias, em contextos diferentes, e a pluralidade  enriquecerá o conteúdo da  coletânea.</p>
<p>A contribuição da narrativa do caminho de cada uma para se adaptar à nova realidade, tirando o melhor proveito dela. Falar sobre o que as motiva, os projetos, o sentido que deu à vida em retrospectiva e os novos horizontes de uma etapa que propicia descobertas sobre si, sobre sua relação com o divino e sobre o amor. Uma perspectiva em que sua identidade traz novos contornos, onde o profissional não é mais o principal elemento, embora não o exclua.</p>
<p>Façamos a diferença.</p>
<p>Tendo em vista os mais de 1.000 comentários no blog da Cultura Nordestina, nas postagens da I Coletânea lançada em 2019, Cartas a Monteiro Lobato, além da participação, as autoras concorrerão a três prêmios: o 1º lugar receberá mais 10 exemplares da coletânea, além da sua cota em livros; o 2º lugar, 5 e o 3º lugar, 3, levando-se em consideração o número de comentários no www.blog.culturanordestina.com.br dos trabalhos, por ocasião das publicações, que ocorrerão na medida em que o material for sendo entregue. A contagem dos acessos será encerrada um pouco antes do lançamento, previsto para outubro, durante a XIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.</p>
<h6>Os trabalhos deverão ser enviados até 31 de agosto para o e-mail:</h6>
<h6><a href="mailto:vblealster@gmail.com">vblealster@gmail.com</a>, quando serão encerradas as inscrições.</h6>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>PARTICIPAÇÃO: </em></p>
<ul>
<li>maiores de 18 anos, brasileiras, escritoras ou aspirantes a escritora</li>
</ul>
<p><em>PERÍODO DE INSCRIÇÃO:</em></p>
<ul>
<li>até 31 de agosto de 2021</li>
</ul>
<p><strong><em>ESPECIFICAÇÕES:</em></strong></p>
<ul>
<li>até 2 páginas formato A4 | entrelinhas simples | fonte Calibri 12</li>
<li>livro: formato 16 X 23 cm, miolo em papel pólen 80 grs., capa em Supremo 250 grs., laminação fosca</li>
</ul>
<p><em>VALOR DA ADESÃO:</em></p>
<ul>
<li>R$ 300,00 em espécie ou depósito bancário | em 2 de R$ 150,00 no cartão (Visa, Master ou Hiper) + taxas da maquineta</li>
</ul>
<p>OBSERVAÇÕES:</p>
<ul>
<li>o valor da adesão é relativo à aquisição de 10 (dez) exemplares da coletânea “Narrativas de mulheres longevas”;</li>
<li>os textos deverão obedecer aos padrões do gênero <em>narrativa</em> <em>pessoal</em> e serem entregues já revisados de acordo com a norma culta e as regras do Novo acordo ortográfico da língua portuguesa, em vigor desde 2009, e de uso obrigatório a partir de 2016;</li>
<li>maiores informações<strong>:</strong> 81 3097-3927 | 9-81137126 (WhatsApp);</li>
<li>a ficha de inscrição deverá ser solicitada pelo e-mail</li>
</ul>
<p><a href="mailto:culturanordestinaletras@gmail.com">culturanordestinaletras@gmail.com</a> ou diretamente na editora.</p>
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		<title>Carta de Ariadne Quintella a Clarice Lispector</title>
		<link>https://culturanordestina.com.br/carta-de-ariadne-quintella-a-clarice-lispector/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Apr 2021 17:59:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[II Coletânea de memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Ariadne Quintella]]></category>
		<category><![CDATA[Castas a Clarice Lispector]]></category>
		<category><![CDATA[clarice lispector]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>II Coletânea de memórias Cartas a Clarice Lispector &#160; Carta aberta àquelas que comemorarão o centenário de Clarice, &#160; No Centenário de Clarice Lispector, a curiosidade das comemorações ainda não atingiu seu ápice, mas todos os prognósticos são de que vai haver muito reboliço – seu nome marcou épocas e continua cintilando. Da mesma maneira, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>II Coletânea de memórias Cartas a Clarice Lispector</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Carta aberta àquelas que comemorarão o centenário de Clarice,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No Centenário de Clarice Lispector, a curiosidade das comemorações ainda não atingiu seu ápice, mas todos os prognósticos são de que vai haver muito reboliço – seu nome marcou épocas e continua cintilando. Da mesma maneira, sua criatividade inatingível, que exige uma leitura atenta e prolongada, consagrou-lhe como uma das maiores escritoras, não apenas do século XX, mas de todos os tempos.</p>
<p>Seus romances <em>A Hora da Estrela </em>e <em>Perto do Coração Selvagem</em>, tendo sido este o primeiro romance escrito por ela, e aquele um dos últimos de sua carreira, revelam uma Clarice de corpo inteiro, com um detalhe: seus personagens em nada se parecem com ela, mas possuem uma subjetividade própria e complexa. A nordestina Macabéa, por exemplo, é uma mulher miserável, sem consciência do existir, enquanto Clarice, capaz de desenvolver essas personagens cheias, ao mesmo tempo, de vida e de morte, é atribuída e se atribui a diversas origens: nasce na Ucrânia, muda-se para Maceió, no Estado de Alagoas, mas entende-se como Pernambucana, sua terra de coração.</p>
<p>Observa-se, em Clarice, o dom da escrita desde suas primeiras palavras, a profundidade do jogo de letras armado por ela pode ser lido, até mesmo, nas dedicatórias de seus livros, sem esquecer que sua preocupação remonta não ao agrado do público, mas escreve aquilo que sente e acha que deve escrever. Como a própria Clarice aponta, em uma de suas entrevistas, ela acredita que as pontuações do texto são a respiração do escritor, e por isso nunca concordou que os editores alterassem o ritmo das passagens de suas obras. Ela respeita, acima de tudo, seu texto escrito, junto às imagens que cria, que, mesmo não servindo como espelhos de si mesma, refletem, com peculiar perspicácia, nuances e versões de uma Clarice que escreve tudo o que lhe ocorre. Suas epifanias permitem que ela se lance, constantemente, a um desconhecido que habita nela mesma.</p>
<p>Por vezes, o que nos parece é que Clarice escrevia porque precisava, mas não porque gostasse ou o quisesse de fato. Conforme a própria escritora aponta: “O que me atrapalha a vida é escrever”, e então começamos a pensar: como alguém que não gosta de escrever, cativa a tantos com aquilo que imprime nas páginas em branco de seus romances, contos e crônicas? Em Clarice, parece existir sempre um algo a mais, escondido por trás da melancolia aparente em seus escritos e em seus olhos cansados e cheios de um amargor pujante.</p>
<p>Como uma forma de testemunho, ela lança a seguinte citação em <em>A Hora da Estrela</em>, deixando clara essa angústia que sente – é como se Clarice não gostasse de escrever, apesar de apreciar o que já tem escrito:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.</p>
<p>(LISPECTOR, <em>A Hora da Estrela</em>, 1998, p. 21).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Com toda minha estima e admiração,</p>
<p>Ariadne Quintella</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acesse o Edital de participação da Coletânea Cartas a Clarice Lispector</p>
<p><a href="https://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/">https://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/</a></p>
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		<item>
		<title>Carta de Ricardo Japiassu a Clarice Lispector</title>
		<link>https://culturanordestina.com.br/carta-de-ricardo-japiassu-a-clarice-lispector/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Apr 2021 16:06:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[II Coletânea de memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Clarice Lispector]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Japiassu]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTA A CLARICE LISPECTOR Recife, Sábado de Aleluia de 2021. Tudo é Graça de Deus! Oi Clarice, tanta saudade de você. &#160; A tarde está agradável, bonito para chover. O tempo cinza e a garoa banhando a terra. Mas deixa eu te contar: Descobri que viemos do mesmo pai Abraão, aquele [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTA A CLARICE LISPECTOR</strong></p>
<p>Recife, Sábado de Aleluia de 2021.</p>
<p>Tudo é Graça de Deus!</p>
<p>Oi Clarice, tanta saudade de você.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A tarde está agradável, bonito para chover. O tempo cinza e a garoa banhando a terra. Mas deixa eu te contar: Descobri que viemos do mesmo pai Abraão, aquele das Arábias, genitor dos ismaelitas, dos israelitas e de nós católicos, braço do judaísmo. Então, somos parentes, da mesma descendência e cepa. Amanhã comemoraremos a Páscoa, uma festa cristã, embebida na tradição dos judeus, quando da sua passagem da escravidão à liberdade, daquela fuga do Egito, tão bem contata na Bíblia, também nosso livro sagrado. Portanto, bons festejos para nós todos. Boa Páscoa.</p>
<p>Eu vou te contar: A minha amiga pernambucana, a poetisa Deborah Brennand, escreveu um livro lindo, em prosa poética, <strong>Tantas e Tantas Cartas</strong>. Deborah é senhora de um estilo muito diferente do teu. Ela é delicada, reflete sobre o amor e os estados de paixão. Enquanto, tu és impetuosa, colocas o dedo na ferida. Duas recifenses que me agradam e eu parodio Deborah nesta carta: Tantas e Tantas Saudades. A tarde invernosa, lembrou-me dos meus dias em Paris, há quase 30 anos. Muito jovem, assisti ao curso <strong>Poética da Diferença Sexual</strong>, ministrado por Hélène Cixous, no Collège de France. Já tinha lido o teu <strong>A Paixão Segundo GH</strong>. Livro que me impressionou, embora sem leitura mais adensada. Começava a te conhecer academicamente, na França. Um sonho! Foi na França que conheci Manolo, o sarraceno, o espanhol. Os bancos da Sorbonne me trouxeram alegria. Ele atravessou o Atlântico numa caravela para me ver, atracou em Pernambuco. No entanto, eu já estava afetivamente doente. O lacaniano Carlos Roberto me adoeceu de tristeza e desamor. Tantos maltratos.</p>
<p>Manolo foi embora antes do Carnaval. Ele chegou no dia 5 de fevereiro de 1995, data do acidente, anos antes, que acabou com a saúde do meu pai, Carlos Eduardo. Lembrança forte para mim. Estava entre dois amores. Manolo e o meu pai convalescente. Manuel Enrique tinha os olhos castanhos, escuros, a tez branca e delicadeza no trato. Sou como Deborah, de amores delicados e suaves. Quase trinta anos depois e a lembrança permanece firme. Somos assim, as afeições olhando para o tempo com insignificância, são lembranças atemporais.</p>
<p>Estudar-te, porém, não foi uma dádiva determinada pela velha Europa. No primeiro semestre do mesmo ano, já aluno da Universidade de São Paulo, debrucei-me sobre os teus contos, sobretudo aqueles de memória. A professora Nádia Battella Gotlib entrou na sala, com muito charme. Magrinha, os cabelos muito negros – quase azuis – arriavam sobre os ombros. Lembro bem. Trajava minissaia e era só charme, linda. Depois da aula, fomos almoçar no restaurante dos professores, o Clubinho. Estava pesquisando o diário da Condessa de Barral – grande paixão de Dom Pedro II &#8211; o que me salvaria a vida de tanta tristeza e decepção. Meu coração, meu espírito e a minha mente se encontravam em frangalhos. O ardor pela vida que a Condessa de Barral manifestava nos seus manuscritos, faziam-me reviver. Não foi a toa que escolhi os teus contos de memória, Clarice, aqueles do livro <strong>Felicidade Clandestina</strong>: <strong>Resto de Carnaval e Cem Anos de Perdão</strong>; e de <strong>A Descoberta do Mundo</strong>, o conto <strong>Banho de Mar,</strong> como temas do meu trabalho de conclusão do semestre. Ah! Deixa eu te contar: nunca revelei a ninguém. Aqui em Recife, eu e Manolo subimos ao campanário da igreja de São Pedro dos Clérigos. Vimos, do alto, a cidade afogada por rios. Que saudades.</p>
<p>Entretanto, as peripécias, me unindo a ti e a Nádia, continuavam. Já radicado na friorenta Poços de Caldas, iniciei um curso sobre as tuas crônicas, no campus da Unesp, em Araraquara. Dormia na casa de Nádia, em Ribeirão Preto e, no dia seguinte, íamos à aula e, à tardinha, regressava a Poços de Caldas. Uma delícia o nosso almoço na fazendinha do grupo Lupo. Sou guloso e não nego. O doce de amoras, mesclado ao doce de leite, uma beleza. Assim estreitei sobremaneira os laços com Nádia e o esposo dela, o Márcio. E falávamos tanto da Condessa, do frescor da juventude, em plena madureza. Porém, sobre Manolo eu nada contei à minha professora. Pelo contrário, falei somente de Zeca. Não disse a ela ainda que ele faleceu jovem, aos 64 anos, depois de ser prefeito da Pedra – a cidade onde nasci, tu sabes – por três vezes. Senti, mas não me envolvi. A paixão já tinha passado. Nós namoramos, eu era ainda bem jovem. No entanto, ele me marcou muito, Clarice.</p>
<p>Quase tudo passa. Porque hoje estou solitário? Não sei. Tantas paixões e me encontro sozinho. Não há outra palavra: Destino. Tenho muitos amigos da minha idade, outros bem mais velhos, como a jornalista Ariadne Quintella. Nos encontramos aos domingos, saímos para almoçar; um concerto de vez em quando; um bom balé e tanta, tanta sinceridade, olhos nos olhos. Um faz bem ao outro. Assim a vida. Deus jamais permite que fiquemos abandonados. Honrei a existência do meu pai. Cuidei dele, da alimentação à higiene; do banho ao repouso da noite. O bom Deus me cumulou muito, cobriu de bênçãos. Tanto que eu te escrevo para dar a notícia que o psicanalista Juliano Victor Luna, está me fazendo superar a era Carlos Roberto. Maravilha a existência. Com menos tristeza no coração, reparo no esplendor de cada dia, cada momento de Graça. Como me ensinou uma freira Damas, Irmã Maria do Carmo Ferreira: Tudo é Graça de Deus. Eu vivo assim agora.</p>
<p>Tantas e tantas coisas a te dizer. Hoje realizo com o essencial. Voltei a estudar. Estou cursando Licenciatura em Letras – Francês, na UFPE. Quero fazer concurso para lecionar. Os meus anos de jornalismo no Diário de Pernambuco foram violentos, pesados, agoniados, de nível baixo, mesmo enlouquecedor. Uma gente agressiva, recalcada. Carlos Roberto teceu muita intriga. Este prejudicou o meu transcurso. Nada, no entanto, de bom ou de ruim que fazemos passa desapercebido de Deus, nesta existência. As pedras, um dia, se juntam. E, naturalmente, creio no acerto de contas.</p>
<p>De vez em quando escrevo, nunca tão intenso quando a densidade de tuas palavras, a profundidade do teu dizer. De <strong>Restou de Carnaval</strong>, ficou a sutileza de um beijo roubado; de <strong>Banho de Mar</strong>, o quanto a natureza nos regenera e, por fim, de <strong>Cem Anos de Perdão</strong>, de que ninguém rouba ninguém. Tudo é de cada um. Pois aqui fico, na terra da tua tia Mina, Clarice, esperando me debruçar sobre outras leituras tuas. Um beijo sempre grande.</p>
<p>Estrada da capelinha dos Aflitos, outono,</p>
<p>Ricardo Japiassu Simões.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acesse o Edital de participação da Coletânea Cartas a Clarice Lispector</p>
<p><a href="https://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/">https://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Carta de Paulino Fernandes a Clarice Lispector</title>
		<link>https://culturanordestina.com.br/carta-de-paulino-fernandes-a-clarice-lispector/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Dec 2020 13:20:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[II Coletânea de memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Novoestilo]]></category>
		<category><![CDATA[clarice lispector]]></category>
		<category><![CDATA[coletânea de memórias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTA A CLARICE LISPECTOR &#160; Recife, novembro de 2020 Clarice Lispector, Escrevo-te esta carta para contar um pouco de como estamos vivendo, mais de 43 depois que mudaste. Logo depois de sete anos, experimentamos uma retomada da vida democrática no País. Sabemos o quanto isso importou em tua produção literária, pois [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTA A CLARICE LISPECTOR<br />
</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Recife, novembro de 2020</p>
<p>Clarice Lispector,</p>
<p>Escrevo-te esta carta para contar um pouco de como estamos vivendo, mais de 43 depois que mudaste. Logo depois de sete anos, experimentamos uma retomada da vida democrática no País. Sabemos o quanto isso importou em tua produção literária, pois nas duas últimas décadas, em que estiveras aqui entre nós, não tínhamos tanta liberdade de expressão e de manifestação de pensamento. E o tempo se passou. Revendo aquela última entrevista que deste para a TV Cultura, em princípio parecia que tudo tinha chegado ao fim. “Só que não” (para usar aqui uma expressão da juventude, público confesso que tanto se identifica com a tua escrita, como afirmaras). Conclui que nem imaginarias que o legado literário, àquela altura de 1977, já estava plantado para uma infindável posteridade literária. E tenho boas notícias. Começo pela honraria que Pernambuco te concedeu agora, no mês de agosto, com o título de “<em>Patrona da Literatura Pernambucana</em>”. Já conferi aqui, no Diário Oficial. Sei que o reconhecimento poderia ter vindo antes, mas nesse caso, acho que é valido aquele adágio popular “Antes tarde do que nunca”. Só que as homenagens e as lembranças da contribuição literária não pararam por aí. Há um Projeto para restauração daquela Casa em que viveste aqui, na Praça Maciel Pinheiro. Pretende-se lá instalar um Centro Cultural, que possa perpetuar tua memória literária. Vou tentar acompanhar tudo o que puder, mas já adianto que a FUNDAJ, junto ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, deu os primeiros passos, com o Edital. E os jornais estão anunciando essas e outras boas novas, especialmente neste ano de celebração de teu centenário. Tem mais: ainda por iniciativa da Fundação Joaquim Nabuco, a Assembleia Legislativa do Estado  te concedera o título honorífico de “<em>cidadã pernambucana</em>”. Podes agora abrir o sorriso, Clarice: o ano de 2020 é teu. Aqui e lá fora. E o Recife está todo em ti, como afirmaras, antes de alçar vôo para o plano superior dos gênios.</p>
<p>Alegro-me muito em te contar essas boas novas, principalmente, porque estamos atravessando um ano tão difícil por aqui, hein? Que nem te falo. Ao menos por enquanto, não vou deixar que os contratempos que estamos suportando, com a chegada de uma Peste indesejável, ofusque a alegria de comemorar o lado bom deste ano, que é o teu aniversário. Quero falar de coisas boas, nem que pareça aos demais que fui acometido pela ingenuidade da Macabéa. A propósito, quando releio “A hora da estrela”, não me contenho, com as falas engraçadas e o modo de ser desta personagem que criaste. E quando assisto ao filme também, viu? Ou deveria dizer, como o Recifense: “visse”? Afinal, assim como tu, não vim de tão longe, como a Ucrânia, embora de mais perto, que é o Ceará. No entanto, já me sinto em casa e, como tal, assimilei as expressões dessa gente tão acolhedora.</p>
<p>Ainda sobre “A hora da estrela, Clarice, a adaptação de tua novela, para o Cinema, ficou ótima. Tanto que a premiação foi fatal, com o Urso de prata em Berlim, para a Atriz Marcélia Cartaxo, que se imergiu, completamente, na pele da personagem. Afinal quem não se esmeraria tanto, para corresponder à criação literária advinda de ti, Clarice? Parafraseando aqui Saint Exupèry: “Tu te tornas responsável por tudo aquilo que cativas”. E como nos cativaste, “visse?”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>PAULINO FERNANDES DE LIMA é natural de Sobral, Ceará, nascido em 6 de janeiro de 1974. Bacharelou-se em Direito, na Universidade de Fortaleza (UNIFOR), em 1999. Pós-graduado em Direito processual penal (UNIFOR, 2000); em Estudos literários e culturais (UFC) e concluiu o Mestrado em Letras, na Universidade Federal do Ceará (UFC), em 2006. Aprovado no primeiro concurso (2016) para Defensor público do Estado de Pernambuco, tomou posse em 2010. No magistério de ensino superior, leciona as disciplinas de Direito penal e Constitucional, além de “Redação técnico-jurídica”, Curso que criou, desde seu magistério na Universidade de Fortaleza. Colabora na imprensa, com artigos que abordam temas jurídicos e afins. Criador e apresentador do programa de rádio “Educação e cidadania em pauta”, por também possuir o Curso de locução e apresentação de rádio e TV. Escreve também sobre a “Sétima Arte”, possuindo o Curso de Crítico de Cinema. Autor do livro &#8220;Reflexões de um defensor público &amp; outros temas&#8221;, editado pela Novoestilo Edições do Autor em 2020.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acesse o Edital de participação da Coletânea Cartas a Clarice Lispector</p>
<p><a href="http://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/">http://culturanordestina.com.br/ii-coletanea-de-memorias-cartas-a-clarice-lispector/</a></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Carta de Taciana Valença a Clarice Lispector</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Dec 2020 12:55:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[II Coletânea de memórias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS &#8211; CARTAS A CLARICE LISPECTOR &#160; Recife, 1º de setembro de 2020 &#160; Clarice, querida: Hoje novamente senti aquela sensação. Uma sensação de vazio, da falta de algo que passa próximo, mas não chega. Como o vendedor de cuscuz, daquele que gosto, com leite de coco, e que só serve se [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS &#8211; CARTAS A CLARICE LISPECTOR</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Recife, 1º de setembro de 2020</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Clarice, querida:</p>
<p>Hoje novamente senti aquela sensação. Uma sensação de vazio, da falta de algo que passa próximo, mas não chega. Como o vendedor de cuscuz, daquele que gosto, com leite de coco, e que só serve se for o da rua.</p>
<p>Ele apita na esquina de casa e quando corro para chamar, já vai longe&#8230;</p>
<p>Fico na vontade, pensando no próximo dia, na próxima hora, no desejo que, esperançoso, vai dormir embolado na decepção. Mas enfim, era só um cuscuz, só um exemplo. Ninguém vai ficar deprimido por causa de um cuscuz.</p>
<p>Pensando nisso, inevitavelmente, lembrei do seu conto Felicidade clandestina. A ânsia pelo livro e a menina gorda, baixa, de cabelos crespos e ruivos e sardenta fazendo pouco da humildade da colega. A vida às vezes parece com essa menina. Testa nossos limites, nossa paciência, nossa resiliência, enquanto enche seus bolsos do que supostamente preencheria nossos vazios, estes que não se preenchem.</p>
<p>Deus é a livraria, pai de todas as histórias, pai da Vida, e muitas vezes anda muito ocupado para saber o que ela anda fazendo da gente, não é mesmo? São os ratos, Clarice, os ratos&#8230;</p>
<p>Desculpa, remexi em tudo no seu conto. Mas me dá um desconto porque hoje estou no dia de vazio. É que imaginei que se nosso pai nos desse o livro certo seria diferente. Mas ele quer que a gente lute pelo livro que a gente quer ler, pela história que será a nossa, mesmo que para isso tenhamos que nos humilhar perante a Vida.</p>
<p>E nessa história ele não se mete. Ele é o dono da livraria, mas você deve lutar pelo título que escolheu para você. É justo, pelo menos para ele, se não fosse pela Vida, àquela sua filha gorda.</p>
<p>Está bem, está bem, estou confusa, ou talvez, extremamente certa.</p>
<p>Às vezes a gente espera que o dono da livraria nos dê aquele livro bonito de capa dura que tanto desejamos. Então a Vida (a filha sardenta) vem e nos dá um cartão postal da cidade onde moramos. Quer coisa mais sem graça, Clarice? E a gente espera mais, Clarice, bem mais&#8230; Quer saber do propósito, dos porquês, do para que.</p>
<p>É , estou lhe confundindo talvez, mas você já fez tanto isso comigo. Em quantos contos? Em quantos livros? Nunca iremos questionar seus questionamentos, nem mesmo querer saber quem ou o que era G.H ou a Coisa, por exemplo (mas me diz, por favor!).</p>
<p>Escrevi um conto que virou um livro que se chama Sumiço do ovo. E sabe por que? Porque perdi um ovo entre os afazeres domésticos. Claro, lembrei do seu conto O Ovo e a galinha, que você mesma disse não compreender, mas o fez. Portanto, me perdoe se mexi e remexi na confusão dessa clandestina felicidade.</p>
<p>Então hoje, nesse vazio, percebi a Vida sádica e cruel, chupando balas a fazer barulho enquanto não divide com ninguém. E nós, na ânsia de conseguirmos o livro, não percebemos as humilhações que ela nos faz passar.</p>
<p>Vamos todos os dias buscar o livro da Felicidade, que ela prometera emprestar, navegamos na alegria e na esperança e ela não nos dá. Mente, adia&#8230; E olha que é um empréstimo que um dia devolveremos. E ela promete, promete, promete&#8230;. A gente espera, espera, espera&#8230;</p>
<p>Quantos dias seguintes temos que esperar, Clarice? Você sabe, enfim?</p>
<p>Lembra desse trecho do conto? “Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra”.</p>
<p>Pois então, não tenho razão em hoje, dia de vazio, achar que a gorda é a vida? Que batemos todos os dias na porta e ela nega o nosso livro? E mente, diz que emprestou a outra pessoa? E dormimos mal, acordamos segurando a esperança.</p>
<p>Sabe, Clarice, estou aguardando a mãe da Vida chegar e desmascará-la, emprestando enfim o livro que ela tanto escondeu. Quero sair leve e feliz com ele, enfim, em minhas mãos, e ficar por quanto tempo quiser. Já pensou?</p>
<p>Sim, isso é ousar, Clarice, é persistir.</p>
<p>Viu que deixei o pai trabalhar? Que tentei resolver diretamente com a Vida? Sim, sim, não deu muito certo, eu sei, mas a mãe enfim chegou e resolveu tudo.</p>
<p>Mas sabe o que estou pensando? Quem seria a mãe da Vida? E por que depois de conseguir o livro tudo se fez tão tranquilo? Por que sentir-se uma mulher com seu amante? Seria a Morte a mãe da Vida? E o Paraíso seu amante, enfim?</p>
<p>Está bem, Clarice, está bem. Não é nada disso, mas poderia ser, num dia assim, em que o vazio bateu em mim.</p>
<p>Então vamos começar outra vez&#8230;.</p>
<p>Recife, 01 de setembro de 2020</p>
<p>Clarice, querida:</p>
<p>Hoje novamente senti aquela sensação&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>TACIANA VALENÇA é <em>administradora de empresas por formação (UFPE-1988), assessora literária, árbitra e mediadora de conflitos, massoterapeuta, escritora, compositora, primeira vice-presidente da União Brasileira de Escritores-Recife e produtora cultural. Autora de Malu em Apuros e Especialmente Criança e (Febre (poemas), além de ter participação em diversas antologias. É responsável pelo projeto Conversando Perto de Casa, na Livraria Jaqueira, editora da Revista Perto de Casa, criadora do projeto Navegando em poesias e co-coordenadora do Destaque Literário na Cultura Nordestina Letras &amp; Artes. Links onde podem ser encontrados um pouco dos seus escritos: <a href="http://ensaiandopoesias.blogspot.com/">http://ensaiandopoesias.blogspot.com/</a></em></p>
<p><a href="https://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=27346"><em>https://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=27346</em></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acesse o Edital de participação da Coletânea Cartas a Clarice Lispector</p>
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		<title>Carta de Eugênia Menezes a Clarice Lispector</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Dec 2020 12:50:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[II Coletânea de memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Novoestilo]]></category>
		<category><![CDATA[clarice lispector]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS &#8211; CARTAS A CLARICE LISPECTOR Poço da Panela, Recife, 27 de agosto de 2020 &#160; Estimada Clarice Apesar de termos estado muito próximas – moramos na mesma cidade –, ouvi muito falar sobre a sua obra. Esta é a primeira vez que nos falamos. Conheço muito o seu trabalho – participo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>II COLETÂNEA DE MEMÓRIAS &#8211; CARTAS A CLARICE LISPECTOR</strong></p>
<p>Poço da Panela, Recife, 27 de agosto de 2020</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Estimada Clarice</p>
<p>Apesar de termos estado muito próximas – moramos na mesma cidade –, ouvi muito falar sobre a sua obra. Esta é a primeira vez que nos falamos.</p>
<p>Conheço muito o seu trabalho – participo de uma oficina literária com seu nome, comandada por Fátima Quintas, no Ponto de Cultura Nordestina Letras &amp; Artes. Somos ambas escritoras e nos damos muito bem.</p>
<p>Mas o que eu gostaria mesmo era de levá-la até Taperoá, na Paraíba, meu ponto de chegada ao mundo. É um ugar simples, belo (quando chove) e cheio de pessoas interessantes, inteligentes e indispensáveis. Minha família é toda de lá. Quando pequena, eu e um de meus irmãos inventamos uma biblioteca em nossa casa, porque toda vez que eu ganhava um livro chorava, porque as outras crianças não tinham como ter acesso aos livros.</p>
<p>Nossa invenção deu certo (no espaço onde funcionava o lugar de passar roupas). Todo sábado as crianças vinham dos sítios, faziam fila na calçada do jardim e assinavam o livro da responsabilidade. Nunca perdemos um livro.</p>
<p>Outra coisa interessante da minha cidade é uma grande pedra que tem na Fazenda Carnaúba, onde são registrados os feitos de Ariano Suassuna, que é meu primo. Conseguimos um lavrador de pedras no Rio Grande do Norte, que trabalha muito bem. É lá na Carnaúba onde fica a casa taperoarense de Ariano, agora administrada por seu filho Dantas Suassuna. Sempre que vejo a sua casa aqui no Recife, lembro-me de sua pessoa e fico emocionada.</p>
<p>Acho que já li sua obra quase toda, Clarice, e a considero muito boa. É assim como eu a vejo e acolho em meu coração.</p>
<p>Grande abraço.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>EUGÊNIA MENEZES é e<em>scritora</em><em> com treze livros publicados, sendo cinco deles em coautoria. </em><em>É socióloga, trabalhou durante trinta anos na Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ, onde dirigiu os departamentos de Sociologia, Cultura e Planejamento. É vice-presidente da Rede de Associados Letras &amp; Artes – LETRART, e membro da diretoria da União Brasileira de Escritores – UBE.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acesse o Edital de participação da Coletânea Cartas a Clarice Lispector</p>
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		<title>Milagrâncias, por Bruna Estima Borba</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Oct 2020 20:05:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coletânea infantojuvenil]]></category>
		<category><![CDATA[Coletânea O fio da meada]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[o fio da meada]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Bruna Estima Borba é natural do Recife. É escritora de novelas e contos ambientados em sua cidade. Sua literatura é contemporânea contendo, de passagem, referências históricas. A narrativa é leve tendendo para a comicidade, sem descuidar de sentimentos e emoções. Professora universitária com doutorado em Direito, é autora de contos e das novelas “Tempo”, “Vivendo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-5512 aligncenter" src="https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Bruna-293x300.jpg" alt="" width="293" height="300" srcset="https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Bruna-293x300.jpg 293w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Bruna-600x615.jpg 600w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Bruna-999x1024.jpg 999w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Bruna-768x787.jpg 768w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Bruna-400x410.jpg 400w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Bruna-300x308.jpg 300w, https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Bruna.jpg 1073w" sizes="(max-width: 293px) 100vw, 293px" /></p>
<p>Bruna Estima Borba é natural do Recife. É escritora de novelas e contos ambientados em sua cidade. Sua literatura é contemporânea contendo, de passagem, referências históricas. A narrativa é leve tendendo para a comicidade, sem descuidar de sentimentos e emoções. Professora universitária com doutorado em Direito, é autora de contos e das novelas “Tempo”, “Vivendo as circunstâncias&#8221; e “O Edifício Estrela”. Sua obra, já premiada pela Academia Pernambucana de Letras, está disponível em livro impresso e em meio virtual nos sites Amazon. Contatos: E-mail: brunaestimaborba@gmail.com; Facebook: https://www.facebook.com/ bruna.borba.501; Instagram: @bruna_estima_borba.</p>
<p style="text-align: center;"><em><strong>Milagrâncias</strong></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&#8211; Bom dia. Sueli está?</p>
<p>Senti uma enorme vontade de mentir.</p>
<p>&#8211; Está, mas não pode atender agora.</p>
<p>&#8211; Posso deixar um recado?</p>
<p>O impulso aumentou.</p>
<p>&#8211; Pode sim, mas só vou conseguir dar o recado a mamãe quando ela voltar do curso de astronauta.</p>
<p>&#8211; Como assim? Onde está sua mãe?</p>
<p>Prossegui dando asas à imaginação.</p>
<p>&#8211; Ninguém sabe, é segredo. É um projeto internacional, uma viagem interestelar rumo aos anéis de Saturno. Ela será a primeira mulher a ir tão longe.</p>
<p>A amiga de minha mãe perguntou, preocupada:</p>
<p>&#8211; E quando ela volta?</p>
<p>Ia responder, mas mamãe chegou e tomou o celular de minha mão.</p>
<p>&#8211; Desculpe, Magda. Amandinha vive inventando estórias, não sei mais o que fazer com essa menina.</p>
<p>Eu acabara de aprender os nomes dos planetas e me encantara com o misterioso Saturno. Além do mais, mamãe era minha heroína, nada mais adequado que fosse convocada para essa extraordinária missão.</p>
<p>&#8211; Amanda, você precisa parar de inventar.</p>
<p>&#8211; Não consigo. É sem querer, quando acordo já estou cheia dessas ideias na cabeça, não tenho culpa.</p>
<p>&#8211; Acontece que quando você fala essas coisas, elas se transformam em mentiras. E mentir não é certo. Prometa que vai guardar essas milagrâncias com você.</p>
<p>&#8211; Está bem, mamãe. &#8211; Menti mais uma vez.</p>
<p>Na verdade, eu não conseguia impedir os pensamentos. E, uma vez que nasciam, adquiriam autonomia, moviam-se por si próprios. Quando me dava conta, já haviam saído pela boca, como a água corre sobre o leito do rio, como o vento entra pela fresta da janela.</p>
<p>Os primos não perdoavam:</p>
<p>&#8211; Lá vem Maria mentirinha.</p>
<p>Meu pai foi mais duro:</p>
<p>&#8211; Você não é mais criança. Pare de mentir. Quando as pessoas falam com você têm a expectativa de ouvir a verdade. Não as decepcione.</p>
<p>Fui mandada para o quarto mais uma vez. A porta fechou. Eram duas da tarde e só sairia às seis da noite. Mais que o castigo, a reprimenda de meu pai me magoou. Não queria decepcioná-lo.</p>
<p>Precisava encontrar um meio de controlar aquelas ideias que surgiam em minha mente. Sentia que explodiriam se não as expulsasse jogando palavras como torpedos sobre atônitos ouvintes. Uma angústia enorme tomou conta de mim e comecei a chorar. Adormeci e sonhei que escrevia um dicionário. Não seria como os outros, claro. Nele só haveria palavras inventadas. Deveria começar pelo A, mas decidi que homenagearia minha mãe e iniciei com &#8216;milagrância&#8217;. Escrevi: &#8220;milagrância (substantivo feminino), fato imaginário contado como verdade aproveitando-se da ignorância e credulidade das pessoas&#8221;.</p>
<p>Li e reli aquela definição. Encontrei, subitamente, a solução. Passei a pôr no papel minhas milagrâncias. Tornei-me escritora.</p>
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