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	<title>Arquivos Salete Rêgo Barros &#8226; Cultura Nordestina</title>
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	<title>Arquivos Salete Rêgo Barros &#8226; Cultura Nordestina</title>
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		<title>Salete Rêgo Barros</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Aug 2023 14:44:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Humanização da consciência &#160; Àquela hora, a lã, o corpo e a palha pareciam uma coisa só. Por tímido que fosse o movimento, o ar penetraria a carne atingindo os ossos. A voz (im)piedosa rasgava o silêncio da madrugada deixando passar o cheiro do leite fervido: É hora, a mesa está posta! Acorda, menina, avia, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2>Humanização da consciência</h2>
<p>&nbsp;</p>
<p>Àquela hora, a lã, o corpo e a palha pareciam uma coisa só. Por tímido que fosse o movimento, o ar penetraria a carne atingindo os ossos. A voz (im)piedosa rasgava o silêncio da madrugada deixando passar o cheiro do leite fervido: É hora, a mesa está posta! Acorda, menina, avia, o sino toca, o pão e o leite vão esfriar. Não quero ir, por favor, só hoje, quero ficar, amanhã eu vou, juro por Deus. Não, você vai levantar e é agora. Quer ir para o inferno? Usar o nome de Deus em vão é pecado mortal, vai ter que se confessar. Levanta daí, este é o último aviso!</p>
<p>Mãos entrelaçadas cumprem o rito que poderia ser seguido até de olhos vendados: a travessia do beco fedido, a descida da ladeira esburacada e a chegada à imponente Matriz de São José. Ao longe se ouve o código sineiro chamando os fieis. Preguiçosamente, o nevoeiro se desfaz revelando vultos bem agasalhados entrando apressadamente pela porta principal. Em silêncio procuram os lugares que restam nos bancos da nave central. Antes de sentar, flexionam o joelho direito mantendo a cabeça inclinada, por instantes, em sinal de respeito. Lágrimas aquecem as bochechas rosadas enquanto o pensamento, agarrado às franjas do ló preto rendado, se aquece na lã do cobertor xadrez e na palha do colchão coberto por chita florida que ficou para trás.</p>
<p>Como acreditar que tamanha malvadeza venha de um ser que ama seus filhos, tudo vê e tudo sabe? Será preciso arder no fogo do inferno se não for à missa aos domingos, àquela hora? Dizem que tudo acontece com a Sua permissão, mas, por séculos, humanos foram retirados de seus lares e amontoados nos porões infectados dos navios negreiros. Após longa travessia, os que sobreviviam eram expostos, pesados e vendidos como qualquer outra mercadoria, para servir aos seus senhores com o aval da Igreja e do Estado, em atendimento a interesses (in)confessáveis. Eram marcados a ferro em brasa, chicoteados, presos ao tronco e usados de todas as formas. Mas nada disso importava, porque o lucro dos senhores só estaria garantido graças ao trabalho escravo.</p>
<p>De frente para o Santíssimo e de costas para os fiéis, o sacerdote celebrava em latim. Havia recebido uma procuração para ser o representante do (in)visível na Terra. Adquiriu autoridade para julgar, perdoar e castigar o pecador em confissão, além de mandar os desobedientes para o fogo eterno. Bebe o vinho e engole a hóstia consagrada – o sangue e o corpo vivo do Cristo –, enquanto do lado de fora os (des)convidados da ceia do Senhor se amontoam nas calçadas implorando por agasalho, um pedaço de pão dormido e uma xícara de café quente.</p>
<p>Essa história fez parte do cotidiano de inúmeras famílias no século passado, época em que a Igreja Católica exercia forte influência sobre a sociedade, sobretudo nas cidades interioranas sob o domínio de senhores de engenho e sua descendência. Eram cenas de causar arrepios e desassossego aos olhares mais atentos que conseguem enxergar na lógica senhorial a figura do opressor e a do oprimido.</p>
<p>Propagar pobreza, sofrimento e conformismo como passaportes para a entrada no reino dos céus é prerrogativa de religiões ocidentais. A partir de 1521, quando o monge alemão Martinho Lutero foi excomungado pelo papa Leão X por ter se rebelado contra a prática das indulgências, que ofereciam o perdão da Igreja Católica em troca de doações em dinheiro e bens, ações beneficentes e jejum, para que os fieis alcançassem a salvação, houve o racha no catolicismo, que deu origem ao protestantismo. No entanto, o expediente das indulgências foi atualizado e a sua essência mantida: ludibriar a boa-fé das pessoas transformando igrejas em mercadões da fé.</p>
<p>Não há como (des)vincular a desigualdade social, causadora dos males da fome, que incluem a (des)nutrição e a fata de moradia, saúde, educação, lazer e trabalho digno, das instituições Estado e Igreja que se retroalimentam de interesses que andam na contramão do desenvolvimento e da emancipação do ser humano, contidos na simbologia da comunhão. Ao que tudo indica, a mensagem cristã ainda não foi suficientemente compreendida para ser vivenciada em toda a sua plenitude no cotidiano.</p>
<p>As necessidades básicas representadas pelo pão (alimento do corpo) e pelo vinho (alimento do espírito simbolizado por conhecimento, liberdade, justiça, afeto, solidariedade, etc.) se fazem presentes no ritual católico para que as palavras do Mestre sejam lembradas. E para que tenham vida em abundância, todos deveriam participar do banquete.</p>
<p>No primeiro quarto do século 21, o ser humano ainda se vê condicionado ao discurso que dá sustentação à escravidão moderna, mantenedora do sistema de exploração dos recursos naturais de forma irresponsável e que, fatalmente, levará o planeta à extinção total até o final do século, afirma a ciência. Desastres climáticos, fome e guerra já atingem um grande percentual da população mundial, e apenas 1% detém toda a riqueza produzida pelos 99% restantes.</p>
<p>O que antes era uma possibilidade já é realidade, e a construção da consciência humanizada virá como resposta à crise radical que ameaça a sobrevivência de todas as espécies que habitam o planeta Terra, independentemente de credo ou ideologia política. O ônus e o bônus, advindos da postura de cada humano, atingirão a todos, sem exceção.</p>
<p>Fome de quê? Questionamento inquietante a ser feito para que os ensinamentos deixados por mensageiros do Ocidente ao Oriente sejam compreendidos e incorporados à construção de uma nova consciência humanizada, criadora de valores que estejam em consonância com o Humano, a Vida, a mãe Terra e o Universo, como oportunidade única de revisão dos dogmas e crenças criados para a perpetuação da servidão humana e do egocentrismo. Fiat lux!</p>
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<hr />
<h3><em>Salete Rêgo Barros</em></h3>
<p>É co-organizadora da coletânea Fome de quê?, arquiteta, editora-fundadora da Novoestilo Edições do Autor e produtora cultural executiva do Ponto de Cultura &#8211; Cultura Nordestina Letras &amp; Artes. Preside a Rede de Associados Letras &amp; Artes &#8211; LETRART. Livros publicados: Interações mente-organismos-ambiente (1996 – esgotado); Guia do Escritor passo-a-passo (2003 – esgotado); Na ponta da língua (em co-autoria) (2007 – esgotado); Tempo de Memórias (2007); A intuição de Pandora (2009, 1ª edição; 2011, 2ª edição); Lá sou eu entre a imensidão e a eternidade (2019); Fiat lux (2020); Gena, a menina que amava livros &#8211; a história que Lobato não contou (2021); Odara (2022); Roteiro (2022).</p>
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