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	<title>Arquivos COLETÂNEA DE MEMÓRIAS &#8226; Cultura Nordestina</title>
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	<description>Letras &#38; Artes</description>
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	<title>Arquivos COLETÂNEA DE MEMÓRIAS &#8226; Cultura Nordestina</title>
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		<title>Clarice Lispector: da Ucrânia para a literatura brasileira, via Pernambuco, por Monsenhor Assis Rocha*</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Nov 2021 16:33:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Clarice Lispector]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em julho de 1966, chegava eu a Afogados da Ingazeira, com 25 anos, para estagiar naquela sede diocesana – cerca de 400 km da Capital, no interior de Pernambuco – tendo em vista a ordenação sacerdotal. Passei a ter como superior e orientador, o próprio Bispo, Dom Francisco Austregésilo, que já fora meu Reitor e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Em julho de 1966, chegava eu a Afogados da Ingazeira, com 25 anos, para estagiar naquela sede diocesana – cerca de 400 km da Capital, no interior de Pernambuco – tendo em vista a ordenação sacerdotal.</p>
<p>Passei a ter como superior e orientador, o próprio Bispo, Dom Francisco Austregésilo, que já fora meu Reitor e professor no Seminário de Sobral, a quem eu sempre admirei e respeitei muito. Foi logo depositando confiança em mim, fazendo-me vice-diretor de um bom Colégio da Diocese, de 1º e 2º graus, até então dirigido por Religiosas Franciscanas e, a partir dali, por diretores indicados pelo Bispo. Tive a sorte de trabalhar com a super competente diretora, Dona Ione de Góes Barros, integrando a sua equipe de professores.</p>
<p>Dom Francisco me deu também a Direção Administrativa da Rádio Pajeú que já estava em seu 7º ano de existência, como pioneira em todo o sertão e me ofereceu uma casa da diocese, bem no centro da cidade, para transformá-la em um “Clube de Jovens de Afogados da Ingazeira”, o <em><u>Club JAI</u></em>, com jogos de mesa, músicas da jovem guarda, revezando com MPB, com hora marcada para iniciar e terminar, já que a energia termoelétrica faltava às 22 horas, com um rápido aviso dez minutos antes. Tempo suficiente para pararem os jogos, organizá-los e correr pra casa.</p>
<p>No início de 1967 o ano era novo para todas as atividades. A base já estava pronta para entrar em ação. Inexperiente, é claro, mas com muito gás e com muitos planos não só por conta do estágio, mas para lançar os alicerces de toda uma vida dali pra frente.</p>
<p>Apesar da importância que eu dava à preparação para ser Padre, não eram menos importantes as outras atividades que preenchiam o meu tempo e, uma delas, é claro, era o meu desempenho e interesse pela educação: no JAI, no Colégio e na Rádio Pajeú de Educação Popular.</p>
<p>À função de vice-diretor eu acumulava a de professor de certas matérias ou disciplinas importantíssimas para nossos alunos: Literatura Brasileira era uma delas. Não encontrando compêndios apropriados, sem recorrer à internet, bibliotecas ou a arquivos que me pudessem ajudar, logo em 1967 organizei um livreto, “manuscrito” por mim mesmo, pesquisado no que estivesse ao meu alcance na biblioteca do Bispo, do Pe. Antônio, Pároco da Catedral e nos meus “alfarrábios” pessoais, que eu ia formando ao longo do tempo e repassava para meus alunos. Tudo era de grande “novidade” para muitos deles.</p>
<p>Assim eu me expressei, falando-lhes sobre o Modernismo: <em>“é o movimento artístico que se caracteriza pelo desprezo às correntes anteriores (medieval e clássica) e pela busca de novos caminhos artísticos e estéticos”.</em> E acrescentava: <em>“os primeiros movimentos modernistas no Brasil se fizeram através das artes plásticas em oposição a tudo o que vinha do passado e agitava a Europa”.</em> Em seguida eu desfilei 22 escritores da Modernidade Brasileira (da 1ª à 3ª etapa) sobressaindo algumas escritoras: Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa e <strong><em><u>Clarice Lispector</u></em></strong>, mesmo tendo falado depois sobre Lília Pereira da Silva, representando a Literatura e Arte Contemporâneas, dentre 09 outros escritores mencionados.</p>
<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-9457 aligncenter" src="https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2021/11/clarice-p-monsenhor.png" alt="" width="147" height="171" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>Escritora CLARICE LISPECTOR</em></p>
<p>É aqui que quero dedicar a parte mais especial da minha reflexão, dando sequência ao desfile que estou fazendo de “pensadores que sonharam com um Brasil melhor” agora sob o Nº IX: <em><strong><u>Clarice Lispector</u></strong></em>. Como é possível ter eu elencado mais de 30 “pensadores”, “sonhadores”, “literatos” há 54 anos, nem Padre eu era, e estar vivo para apreciar esta história, até com ex-aluna minha?</p>
<p>Sob a “Organização da LETRART – Recife” tenho em mãos a II Coletânea de Memórias, intitulada de “Cartas a Clarice Lispector”, assinadas por nomes a mim familiares, por ter vivido em Pernambuco por 40 anos: <em>Quintella, Borba, Menezes, Gusmão, Japiassu, Rego</em> <em>Barros, Valença </em>e, é claro, minha ex-aluna e querida amiga <em>Fátima Brasileiro</em>. Entre eles há até um “Estadunidense de Sobral” para não fugir à regra de que “cearense está por toda parte”. Eu que o diga.</p>
<p>Entre as minhas resumidas ‘<em>anotações</em>’ que eu chamei de ‘<em>manuscritos’, </em>para as 30 biografias, eu segui o mesmo esquema: vida, obras e apreciação. Não me envergonho de mostrar a minha limitada sabedoria. <em>A Clarice nasceu aos 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia. Filha de um casal judaico. Todos tiveram que fugir do país devido a perseguições aos judeus durante a guerra civil russa. Vieram para o Brasil, entrando por Maceió, quando Clarice tinha dois meses de idade. Depois foram para o Recife onde ela aprendeu a ler e escrever e já foi mostrando sua vocação para escritora. Integrou o Modernismo Brasileiro já na sua 3ª etapa, junto a Rubem Braga, Lúcio Cardoso e Fernando Sabino.</em> Ressaltei-lhe as <em><u>Obras</u></em> até 1967, enquanto eu escrevia meus resumos: “Perto do Coração Selvagem” (1944). “O Lustre” (1946). “A Cidade Sitiada” (1949). “Alguns Contos” (1952). “Laços de Família” (1960). “A maçã no escuro” (1961). “A Paixão segundo G.H.” (1961 – sigla passível de vários significados). “A Legião estrangeira” (1964). “O Mistério do Coelho pensante” (1967).</p>
<p>Minha <em><u>apreciação</u></em> à época foi: <em>“até aqui, citei estas obras, imaginando o tanto que ela seria capaz de produzir. Conteúdo e bagagem ela tinha de sobra. Casada com um Diplomata viajava pelo mundo em sua companhia. Poliglota, tradutora e com uma carreira literária pela frente”… </em></p>
<p>Aos se aproximar do dia 10 de dezembro de 2020 e pelo ano de 2021 adentro, começou-se a falar de Clarice de uma maneira mais direcionada pela passagem dos 100 anos de seu nascimento, já que sua presença entre nós foi muito benfazeja. Cartas e mais cartas lhe foram direcionadas pelos seus mais diversos admiradores, estudiosos e escritores dos mais diversos pontos do país, sobretudo pernambucanos, que não se contiveram na ocultação de seus sentimentos, já que haviam bebido na fonte de seus conhecimentos e escritos que teriam de passá-los adiante. Eu, apesar de não ser escritor, por ter tido uma pálida passagem por sua vida, enquanto professor interiorano no sertão de Pernambuco e depois de ter visto uma ex-aluna minha – Fátima Brasileiro – tão belamente se referindo a ela, não me contive. Quis também eu usar este espaço que me é oferecido pelo meu amigo e colega, Professor Leunam, para opinar também sobre este centenário de alguém que também “pensou e agiu para tornar o Brasil melhor”.</p>
<p>Clarice morreu jovem ainda – um dia antes de completar 57 anos – aos 09 de dezembro de 1977 no Rio de Janeiro. Nos 10 anos de sua vida – entre a data que parei de escrever minhas anotações de Literatura Brasileira (1967) e a data de sua morte (1977) – ela ainda escreveu: “A Mulher que matou os Peixes” (1969). “Uma aprendizagem ou Livro dos Prazeres” (1969). “Felicidade de Clandestina” (1971). “Água Viva” (1973). “Imitação da Rosa” (1973). “A Via crucis do Corpo” (1974). “A vida íntima de Laura” (1974). “A Hora da Estrela” (1977). Com uma Bibliografia tão vasta é impossível resumi-la em poucas palavras. No entanto ouso indicar algumas frases: <em>“eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca”. “A grandeza do mundo me encolhe”. “O verdadeiro pensamento parece sem autor”. “A vida é oblíqua e muito íntima… Venho da dor de viver”. </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><strong> <em>Da série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (IX)</em></strong></p>
<p><strong>*Mons. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz, Mestre e Doutor em Comunicação Social, Articulista, Escritor</strong></p>
<p>Conheça a nossa história</p>
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		<title>Cartas a Monteiro Lobato: novos rumos para uma simples coletânea</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Oct 2019 15:25:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;A Cultura Nordestina resgata, através do seu mais novo projeto de leitura, o livro Cartas a Monteiro Lobato, esse gênero literário que, outrora, mudou, definiu, transportou, decidiu tantas vidas e tantos mundos. O diálogo entre o escritor, o autor e o leitor é algo inovador e belíssimo na leitura, uma vez que o dialogismo bakhitiniano [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span dir="ltr"><span class="_3l3x _1n4g"><em>&#8220;A Cultura Nordestina resgata, através do seu mais novo projeto de leitura, o livro Cartas a Monteiro Lobato, esse gênero literário que, outrora, mudou, definiu, transportou, decidiu tantas vidas e tantos mundos. O diálogo entre o escritor, o autor e o leitor é algo inovador e belíssimo na leitura, uma vez que o dialogismo bakhitiniano se faz comprovado, na leitura e na escrita, sem que houvesse sido combinado antes. Escritores e autor recebem comentários em forma de cartas dos leitores, imbricam-se e nos remetem a diversos mundos. Cada vez mais me apaixono pelo universo das letras e nele me encontro e me completo&#8221;</em>. Luciene Aguiar<br />
</span></span></p>
<p>O depoimento acima aponta para novos rumos que o projeto poderá tomar, se pensarmos que ele começou timidamente pretendendo, apenas, cascavilhar o passado de pessoas &#8211; não necessariamente escritores &#8211; que tiveram as suas infâncias marcadas pela obra do escritor Monteiro Lobato, tornando-se, surpreendentemente, alvo de 1.072 comentários neste blog, no período de 5 meses.</p>
<p><span dir="ltr"><span class="_3l3x">O grande mérito é dele, que se fez imortal através de sua obra, apesar de ter contrariado a ordem estabelecida, morrido pobre, e de ter sido rejeitado pela Academia Brasileira de Letras, ao lançar a sua candidatura. É dele e de mais ninguém, o mérito de ter se tornado imortal sem precisar do fardão. Nós, apenas, reconhecemos o seu valor dando vida aos seus personagens, acordando o gigante das palavras, que adormecido repousa, não na paisagem paulistana de Botucatu, mas a 361 quilômetros de distância, na cidade de Taubaté. Este gigante, que tentou despertar o povo brasileiro por várias décadas e que, agora, sacode, mais uma vez, o imaginário de crianças e adultos, através de sua obra. O Brasil precisa despertar, não pode e nem deve ficar &#8220;deitado eternamente em berço esplêndido&#8221;!!!<br />
</span></span></p>
<p>Registro, aqui, a satisfação dos que participaram, de diversas formas, desta coletânea.</p>
<p>Lançamento: dia 6 de outubro de 2019</p>
<p>Local: Plataforma de lançamentos da XII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-2476 aligncenter" src="http://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2019/10/emilia-244x300.png" alt="" width="244" height="300" /></p>
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		<title>Carta de Edna Alcântara a Monteiro Lobato</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Sep 2019 14:35:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO Recife, 18 de abril de 2019 Caríssimo Escritor Monteiro Lobato, Queria muito que pudesse ler essa carta, na verdade preferia que tivéssemos uma conversa, sim, uma conversa dessas de se por os assuntos em dia, falando sem pressa na mesa da cozinha do Sítio do Pica Pau Amarelo, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO</p>
<p>Recife, 18 de abril de 2019</p>
<p>Caríssimo Escritor Monteiro Lobato,</p>
<p>Queria muito que pudesse ler essa carta, na verdade preferia que tivéssemos uma conversa, sim, uma conversa dessas de se por os assuntos em dia, falando sem pressa na mesa da cozinha do Sítio do Pica Pau Amarelo, regada com café e tapioca feitos por tia Nastácia. Então eu lhe contaria como fui apresentada ao responsável pelos momentos mais ditosos de minha vida, aqueles em que, deitada sobre um galho de uma frondosa mangueira, deixava-me  encantar por sua narrativa cheia de magia.</p>
<p>Saiba, senhor Monteiro Lobato, fui uma criança sonhadora, mas curiosa, que não se contentava em ver uma porta trancada e não se apressasse em abri-la, que via nos livros não um montão de páginas escritas, mas um mundo esperando para ser explorado. Costumava me isolar, sentar em um vão de porta e ficar recordando esse ou aquele capítulo ou personagem de uma história lida. Ah, tantas vezes escutei meu pai alertando cuidado com essa menina que ela está muito quieta deve está tramando alguma coisa&#8230; </p>
<p>Certo dia, minha irmã chegou da escola com um livro na bolsa, não era um livro com os quais eu estivesse acostumada, a capa de couro marrom,  as pequenas letras douradas no lombo reluzindo tanto que pareciam dançar ante meus olhos sem que eu pudesse detê-las. Que livro é esse nunca o vi por aqui, lógico não é daqui, de onde ele é diz logo, ah não enche, mas eu quero ler também, quando eu terminar de ler eu deixo. Ela enfiou a cara no livro e eu fiquei rondando por ali, tentando ler o título, pois as letras ainda se confundiam em reflexos oscilantes, movidas pelo raio de sol que se infiltrava através da janela ogival que servia para iluminar o pequeno quarto onde dormíamos. Minha Irmã não tardou a se impacientar para com isso deixa de me rondar coisa mais chata.</p>
<p>Alguns dias depois, ela entregou-me o livro é da biblioteca da escola não o deixe por aí a toa e você tem que ler bem rápido que tenho prazo para entregar. E foi por essa porta que entrei em Reinações de Narizinho, outros vieram depois, Caçadas de Pedrinho, Histórias de Tia Nastácia, O Minotauro, a coleção toda. A essa altura, eu já estudava o ginasial e pude me tornar sócia da biblioteca. Não demorei a aprender a lidar com os prazos de empréstimo e renovação dos livros, com o passar do tempo, a pressa de antes foi substituída por uma imensa emoção, um querer interpretar o que havia por trás dos silêncios da narrativa, ser capaz de sentir os cheiros, os sabores, as emoções dos personagens. Quantas vezes me peguei, usando os termos pernósticos e trejeitos de Emília ou adotando o comportamento ponderado de Narizinho, sem falar que me apaixonei pelo herói de todas as reinações que era Pedrinho.  </p>
<p>A criança sonhadora que fui cresceu ao redor do mundo de faz de conta, de fadas, feitiços, poderes secretos e magias que fortaleceram a mulher que hoje sou. Sabe, Monteiro Lobato, permita que o trate sem muita cerimônia, afinal não é mais a menina que fala, hoje, percebo que o escritor que pôde mexer com o imaginário infantil de tantas gerações, permeou suas histórias com um imenso preconceito e isso se traduz na maneira com que criou Tia Nastácia, uma mulher corajosa, cheia de amor para dar, mas que se movia dentro do espaço restrito da submissão exigida ao negro pela condição de escravo. E eu me pergunto até que ponto isso contribuiu para fortalecer a intolerância racial dos adultos de hoje. Será que as crianças negras que leram suas histórias sentiram as mesmas emoções que eu?  </p>
<p>Voltando no tempo de minhas reminiscências infantis, apesar das reflexões que tanto afligem a adulta de agora, deixo aqui um grande abraço, desejando que essa carta chegue às suas mãos.</p>
<p>Edna Alcântara, Condessa de ***</p>
<p>P S. Abra o envelope sobre uma mesa, em cima de uma folha de papel para não desperdiçar o pó de pirlimpimpim, pedi a Emília para me ajudar na entrega que a carta chega lá chega posso garantir, ela me disse. Apesar de muitos resmungos, permitiu que eu usasse título nobiliárquico dela.    </p>
<p><a href="http://www.culturanordestina.com.br">Conheça a história da Cultura Nordestina</a></p>
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		<title>De Flávia Suassuna para a coletânea Cartas a Monteiro Lobato (orelhas)</title>
		<link>https://culturanordestina.com.br/orelhas-de-flavia-suassuna-para-a-coletanea-cartas-a-monteiro-lobato/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Sep 2019 14:12:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Monteiro Lobato]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>ORELHAS &#8211; COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO Nesses tempos simplificadores, falar sobre Monteiro Lobato é difícil e necessário. Para começar, é preciso levantar suas várias faces: foi não só escritor em vários gêneros (trabalhou na literatura infanto-juvenil, no conto, no ensaio e na tradução), mas também ativista, editor e empresário. A polêmica era [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>ORELHAS &#8211; COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO</p>
<p>Nesses tempos simplificadores, falar sobre Monteiro Lobato é difícil e necessário. Para começar, é preciso levantar suas várias faces: foi não só escritor em vários gêneros (trabalhou na literatura infanto-juvenil, no conto, no ensaio e na tradução), mas também ativista, editor e empresário. A polêmica era um traço forte de sua personalidade, não se pode negar: ainda criança, não quis fazer primeira comunhão, recusa que foi apenas o ensaio de sua vida. De forma geral, pode-se dizer que ele não se eximiu de opinar sobre nenhuma das grandes polêmicas de seu tempo, externando opiniões contundentes. A polêmica fica por conta do fato inescapável de que bom conteúdo desagrada alguns. Ponto.</p>
<p>Usando a expressão de Antônio Cândido, Lobato tem uma obra empenhada, como é a de seus contemporâneos Euclides da Cunha e Lima Barreto, companheiros de Pré-modernismo, período localizado entre 1902 e 1922: nela, Lobato criticou Anita Malfatti (o que desencadeou a Semana de Arte Moderna e o Modernismo no Brasil), defendeu ideais nacionalistas, lutou pela nacionalização de nosso petróleo, opinou sobre caminhos para o progresso do país, denunciou a existência de excluídos no interior, chegou a acusar o latifúndio&#8230; Ou seja: sua pena estava presente em todas as questões importantes de seu tempo. Por isso desentendeu-se com os modernistas, com dois governos (o de Getúlio Vargas e o de Eurico Gaspar Dutra), com a Igreja Católica e, finalmente, foi acusado de comunista e racista, apesar de ter escrito o conto “Negrinha”. Tudo isso, graças ao que já se chamou ditadura da simplificação.</p>
<p>Vamos aos fatos: Lobato viveu entre o final do século XIX e o começo do XX, tempo em que também se moveram Charles Darwin, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Aluísio de Azevedo e Joseph Conrad&#8230; e em que o Determinismo obscurecia a forma de pensar tanto da Europa quanto do Brasil. O que se quer dizer é que eles eram homens do seu tempo e pensavam influenciados pelas ideias de seu tempo – não pelas ideias de nosso tempo. Conrad, por exemplo, embora tenha tentado defender os africanos em sua obra “Coração das trevas”, foi acusado de racista justo por eles. É que as ambivalências humanas são uma camisa de varas para a estreiteza do cientificismo do período, e os autores escreveram suas obras e expunham pontos de vista num pântano perigoso: na verdade, só um fio de faca separa a denúncia do preconceito, essa é a questão.</p>
<p>Num outro contexto, depois das ideias de Freud e de tantos outros, precisamos escutar suas ideias, sem desqualificá-las por completo com simplismos, pois a África ainda é um coração cheio de trevas e Jeca Tatu ainda vive no Brasil. Infelizmente.</p>
<p>Flávia Suassuna</p>
<p><a href="http://www.culturanordestina.com.br">Conheça a história da Cultura Nordestina</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Carta de Paulino Fernandes a Monteiro Lobato</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Sep 2019 13:03:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Monteiro Lobato]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO Carta a Monteiro Lobato, de Taubaté, São Paulo Caro Lobato, Quando me vi ali sozinho na biblioteca, naquele silêncio, cheiro e cor próprios do ambiente, pensei: bom se tu estivesses aqui para conversarmos, pessoalmente! Para ser mais franco, imaginei que aparecerias ali de repente. Correrias de forma decidida [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO</p>
<p>Carta a Monteiro Lobato, de Taubaté, São Paulo</p>
<p>Caro Lobato,</p>
<p>Quando me vi ali sozinho na biblioteca, naquele silêncio, cheiro e cor próprios do ambiente, pensei: bom se tu estivesses aqui para conversarmos, pessoalmente! Para ser mais franco, imaginei que aparecerias ali de repente. Correrias de forma decidida por entre as estantes, como se quisesse garantir que tudo o que deixaste ainda estivesse ali, da mesma forma, mesmo que em outro tempo e lugar. O pensamento voou assim como os meus olhos que, involuntariamente me convidaram a andar por entre o acervo. Sinto que tremi, ao me deparar com tua foto na parede próxima ao espaço reservado para tuas obras. Teu olhar parecia interrogar-me, só com o franzir de tuas marcantes sobrancelhas. Confesso que hesitei em seguir com a empreitada, desafiante, de percorrer um pouco mais o local. Tremi. Quis recuar. Uma claridade produzida pelo sol, de repente invadiu o espaço, através de uma alegre fresta vinda do alto. As luzes produziram uma ilusão de ótica que me pareceram ter o parado de teu rosto mudado, para um movimento dos olhos, que antes só me espreitavam. E o franzir frontal de outrora se juntava agora a um sorriso convidativo a ir adiante. Quando retornei o olhar, deparei-me com a capa ilustrativa da turma do Sítio. Estranho, mas verdadeiro. Estavam todos a rir de minha reação ante o retrato. E não sei como cabia todo mundo ali, com seus largos sorrisos, até o pobre Marquês nos braços daquele enorme polvo que tu descrevera entre as tantas reinações de Narizinho. A situação me levou a rir também, mas antes que eu me recompusesse, zás-trás fui arrastado para dentro do livro, e senti meu corpo viajar por todos eles, como um convite do tipo “Decifra-me ou te devoro”. Vi de Saci a Emília; de Visconde a Dona Benta, mas no trajeto me pareceu que alguém tentou me puxar pelo braço, como a querer me dizer algo. Por estar embalado na viagem e maravilhado ante tudo o que via, não consegui demorar, a ponto de escutá-la. Ainda recuei a cabeça e apurei um pouco o olhar. Espere. Só agora descrevendo essa fantástica aventura, consegui lembrar. Era Tia Anastácia! Sim, era ela! Como pude esquecer?! Só lembro que ela fazia um gesto de indignação. Espero que um dia tudo fique em paz. Não só com ela, mas com aquele pessoal dos Urupês, sabe? Ah, tenho de te contar! Jeca acabou sendo reconhecido com o emplastro. Não o do Brás Cubas, mas o famoso “Biotônico Fontoura”. É verdade, ficou forte, assim como todas as tuas criações. Quanto a isso, podes ficar tranquilo. Já se passaram  que não te vemos, mas ficaram todos guardados aqui. E foram replicados, reproduzidos; lembrados e relembrados em peças e exposições. Até tua célebre frase “um país de faz com homens e livros” se tornou tão famosa, que é possível encontrá-la facilmente por aí.  Claro que nem tudo continua com a garantia de preservação. Aqui para nós, sabe aqueloutra sentença conhecida que proferiste “o petróleo é nosso”? Preciso dizer que não é mais bem assim. É que alguém nos contrariou. Sinto por ter te falado isso, mas nem tudo são flores por aqui. Não conta para o Mário, viu? Se não ele vai chamar isso aqui de Brasiléia desvairada, como fizera lá em Sampa, quando os modernistas chegaram. A propósito, na maioria dos livros didáticos de Literatura, Amigo, tu não és considerado como pertencente à Estética modernista de 1922. Referem-se a ti como um “Pré-modernista”. Esquecem que praticamente foste tu quem fundou a produção de livros no País. Não pense que esquecemos daquele manifesto, tão bem escrito para o Jornal “O Estado”, que fez com que reconhecessem teu dom nas letras. Não foi a partir dali que começou? Quanto a esse enquadramento em determinada Escola literária, não vá ligar para isso, não. Nessa mesma corrente de escritores em que te situam, está aquele teu amigo que só cruzara teu caminho, quando ele já estava esquecido e internado no hospital. Lembra do Autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma”? Sei que lamentaste muito a sua morte tão precoce, mas hoje sabemos que o nome dele figura, assim como o teu, como um dos mais importantes da literatura brasileira, acredita? Que angústia ficarmos sabendo que o nosso Lima Barreto foi tão discriminado pela cor da pele! Não vou dizer que em nosso País não haja mais preconceito de cor, porque até Lei específica para coibir essa praga de sentimento já existe. E ainda bem que não é só para punir o preconceito de cor, mas o de raça, o de sexo; o de religião. Sim, eu sei vais dizer que ainda é pouco, ou talvez só um começo. Sei que dirá que precisaríamos de mais proteção, não só para as pessoas, mas para o nosso Meio ambiente. Dia desses, até lembrei tanto de ti. Foi por ocasião de notícias que correram aqui e mundo afora, sobre o aumento de queimadas em nossa Amazônia. A lembrança daquele episódio dos “Urupês” foi fatal. Queria que estivesse aqui para escrever algo a respeito. Ninguém como tu para se manifestar melhor na defesa do que é nosso.</p>
<p>Bem, eu queria verdadeiramente poder te falar mais, mas é que a velocidade das coisas e da vida agora são tão diferentes, sabe? Tão maiores, que parece estarmos vivendo numa nova engrenagem, em que o destino é feito todo dia e refeito ao amanhecer. Saudade daquele tempo em que o verde predominava sobre as edificações; o impresso sobre o digital. As histórias eram mais contadas e cantadas. Reuníamo-nos no Sítio e ouvíamos teus contos. Tantos olhinhos que se punham ao redor dos tipos que tu criaste, às vezes com sobressalto de admiração ou paixão; outras vezes, espantados, como os meus, ao ouvir o nome da Cuca. Mas de uma forma ou de outra, tudo estava no seu lugar e era tudo tão certo.</p>
<p>Vou ter de encerrar essa conversa camarada, meu amigo, mas prometo que falarei com o pessoal que, assim como eu, prezou do teu legado, para preservar o máximo possível as tantas maravilhas que tua força criativa fez brotar. </p>
<p>Um fraterno e saudoso abraço!</p>
<p>Paulino </p>
<p>Recife, 8 de setembro de 2019</p>
<p><a href="http://www.culturanordestina.com.br">Conheça a história da Cultura Nordestina</a></p>
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		<title>Carta de Bernadete Bruto a Monteiro Lobato</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Sep 2019 12:51:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Monteiro Lobato]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO Querido Monteiro Lobato Gostaria que conhecesse a história de como você entrou na vida de uma menina por volta dos anos sessenta, e das mudanças que provocou em sua visão de mundo. Não sei o que foi fazer naquele dia por lá. Aquele cômodo, no final de uma [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO</p>
<p>Querido Monteiro Lobato</p>
<p>Gostaria que conhecesse a história de como você entrou na vida de uma menina por volta dos anos sessenta, e das mudanças que provocou em sua visão de mundo.</p>
<p>Não sei o que foi fazer naquele dia por lá. Aquele cômodo, no final de uma fileira de quartos da imensa casa, era uma espécie de guarda tralhas. E um lugar cheio de cacarecos sempre tem algo interessante para uma criança. Na parede do lado direito da entrada do quarto havia duas estantes formando um L na quina. Nelas, um amontoado de livros de estudo, romances, um dicionário de latim, cadernos escolares, coleções e revistas, guardados de forma desordenada. Foi lá que ela achou aquele livro grosso. Chamou sua atenção porque era de capa amarela com um rosto grande de uma menina, cabelos divididos de cada lado amarrados com lacinhos vermelhos. O rosto desenhado de preto ocupava metade dela e parte da contracapa formando um quadro quando aberto. Um pequeno peixe vestido de fraque na beirada estava perto da menina quase caindo para trás. Outro ser minúsculo, no alto da contracapa, correndo assustado.</p>
<p>Folheou o livro, muito mais grosso dos que ela costumava ler, ele ainda vinha com alguns desenhos interessantes. O título logo aguçou a curiosidade da menina: Reinações de Narizinho. Que nome estranho! Ela perguntou a um dos mais velhos, que explicou seu significado: brincadeiras! Pronto. Não precisava de mais nada para se interessar por sua leitura. De quem era o livro? Ela nunca soube&#8230; Em casa convivendo com muitos irmãos, não se pedia licença. Se estava ali, no quarto das tranqueiras, era de uso comum. Não precisava pedir autorização. Pegou o livro e, ali mesmo, começou a leitura. A história se passava num sítio, onde uma menina, de nariz arrebitado, chamada Lúcia, apelidada de Narizinho, morava com sua avó Dona Benta, uma velha de mais de sessenta anos, carinhosa e contadora de histórias. Com elas morava Tia Nastácia, preta velha que preparava deliciosos quitutes, criadora da boneca de pano Emília e do Visconde Sabugosa, feito de espiga de milho. Também chegou ao Sítio, vindo da cidade para passar as férias, outro neto de Dona Benta, Pedrinho, primo de Narizinho. Juntos entrariam em muitas aventuras.</p>
<p> Com a leitura surgiram muitas histórias, outros personagens vindos a integrar ou visitar o Sitio do Pica-Pau Amarelo, fora os já citados. O porquinho Rabicó, o príncipe escamado, Dona Aranha, a costureira das fadas, a Cuca. A menina achou graça na boneca Emília, que depois de tomar a pílula de Doutor Caramujo, passa a dizer tudo que lhe vem à cabeça. Sobre o Visconde de Sabugosa, nota que ele parece um professor, pois explica tudo bem detalhadamente. O porquinho Rabicó, Pedrinho e Narizinho o transformaram em Marquês e ainda o casaram com Emília que recebeu o titulo de Marquesa de Rabicó!</p>
<p>Algumas das histórias, a menina nunca tinha lido. Foram as que mais gostou! Outras, já conhecidas, descobriu quem escreveu. Dois homens de nomes diferentes chamados Esopo e La Fontaine. Os personagens conhecidos que visitaram o sítio foram: Dona Carochinha, Cinderela, Branca de Neve, Pequeno Polegar, Gato de Botas, Gato Félix, Peter Pan. Somente o Burro Falante passou a morar no Sítio.</p>
<p>Assim como Pedrinho, a menina estava em férias naquele momento, com todo tempo do mundo para a leitura. Ele era muito melhor que os de conto de fadas! Não o largou mais. Como a menina era somente um pouco mais velha que Narizinho, parece que tinha de oito para nove anos, talvez por isso, uma identificação foi logo estabelecida.</p>
<p>Assim, toda vez que o livro era aberto, aquele quarto eclético transformava-se, instantaneamente, no próprio Sítio do Pica-Pau Amarelo! Bastava a leitura das histórias contadas por você, para o cômodo ganhar cor e vida aos olhos da menina. Parecia que os personagens saltavam do livro e pairavam ao seu redor. Tudo por sua causa, Monteiro Lobato!<br />
Você lançou um encantamento especial naquelas férias. A cada capítulo ela foi entrando mais e mais na narrativa, sentindo-se a própria Narizinho. Até achava romântico seu casamento com o peixe! Um príncipe no Reino das Águas Claras! Ao mesmo tempo, sentia os empecilhos, por serem de mundos diferentes. Também percebeu como certo o divórcio de Emília do Marquês de Rabicó, Emília era uma Boneca Livre! Mas a parte que ela mais gostou foi a da explicação do Visconde de Sabugosa sobre a formação do petróleo. Tomou conhecimento de como se formava aquela riqueza natural, abundante em nossa terra, e que os americanos não queriam que nos tornássemos independentes financeiramente&#8230; Talvez, a partir daquela explicação, iniciasse certo desprezo pelos gringos, chegando até a fase adulta&#8230; Igualmente, por sua influência, surgiu o gosto de ler outras histórias, de aprofundar estudos sobre assuntos que lhe interessassem e leitura de livros mais grossos.</p>
<p>Foi com um pouco de tristeza, de saudade, que a menina terminou a leitura, ao mesmo tempo em que também acabavam suas férias. Igualmente ao final do livro, quando Pedrinho, meio choroso, foi embora do Sítio para retornar as aulas na cidade.</p>
<p>Não bastasse guardar suas histórias no coração, a menina (que também tinha um nariz arrebitado), hoje uma senhora, tão velha quanto a Dona Benta, fantasiou-se de Narizinho para viver um evento na Cultura Nordestina. O motivo era uma contação de histórias para alegrar outras crianças, relembrando a magia da sua narrativa, uma ideia de outra visionária como você, a Salete, no evento intitulado Abril de Monteiro Lobato.</p>
<p>Encarnando a Narizinho, ela reviveu o Sítio sob coordenação de Verinha (Emília), juntamente com Taciana (Tia Nastácia), Colly (Dona Benta), Adriano (Cuca) e Tio Ed (Visconde de Sabugosa), além das participações especiais de Dulce, Eugênia, Joyce, Rosita e João Natureza. Assim travestida, a senhora já se divertiu muito nos três últimos anos.</p>
<p>Por tudo isso, Monteiro Lobato, ela agradece. Você trouxe alegria e diversão no passado, no presente. Não importa o que a vida fez com você e se alguns não lhe valorizaram tanto! Acreditamos que um pouco de você continua vivo, cada vez que alguém lê ou ouve suas histórias. Aqui, na Cultura Nordestina, você tem um espaço muito especial, um mês inteiro! Para todos nós você é um eterno Destaque Literário!</p>
<p>Com imensa gratidão </p>
<p>Bernadete Bruto</p>
<p><img decoding="async" src="http://blog.culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2019/09/berna-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" class="alignnone size-medium wp-image-2221" /></p>
<p><a href="http://www.culturanordestina.com.br">Conheça a história da Cultura Nordestina</a></p>
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		<title>Carta de Eloisa Basto Amorim de Moraes a Monteiro Lobato</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Sep 2019 12:35:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Monteiro Lobato]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Recife, 03 de Setembro de 2019 Olá meu amigo Monteiro Lobato, Quanto tempo não nos falamos, por absoluta culpa minha! Esqueci de brincar com Emília, apesar dela não parar de falar em meus ouvidos. O Visconde está lá na biblioteca, creio que lendo um livro novo, daqui a pouco vou ver do que se trata. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Recife, 03 de Setembro de 2019</p>
<p>Olá meu amigo Monteiro Lobato,</p>
<p>Quanto tempo não nos falamos, por absoluta culpa minha!</p>
<p>Esqueci de brincar com Emília, apesar dela não parar de falar em meus ouvidos. O Visconde está lá na biblioteca, creio que lendo um livro novo, daqui a pouco vou ver do que se trata. Pedi a D. Benta para consertar um vestidinho que rasguei na cerca, quando entrei correndo no Sítio para roubar uns biscoitinhos de tia Nastácia.</p>
<p>Como você pode ver, tudo permanece do jeitinho que você criou, nosso sítio está cada vez mais lindo! Os perigos estão por toda parte, a Cuca sempre querendo me assustar, e o Saci me pregando peças e mais peças, mas, o porto seguro que nos ensinou faz com que tudo isso passe de forma leve e descontraída. </p>
<p>Hoje tem uma tal de internet, que o Visconde já vasculhou todinha, e para nosso espanto já domina toda a tecnologia, sem, no entanto, esquecer de pegar aquele livro, lá no alto da estante, todo empoeirado, que contém exatamente aquilo que falta, nesta vida digital: O cheiro do conhecimento, que nos leva a abri-lo exatamente no ponto certo, onde achamos aquela citação, que procuramos neste momento.</p>
<p>A importância da sua obra permanece viva e atual, a convivência com o real e o imaginário, estimula nossa criatividade e permite uma melhor percepção dos problemas. Os valores que aprendi com a sua obra e que tento nortear a minha vida, são o carinho, a coletividade, a colaboração, a escuta dos conselhos e aprendizado com quem detém o conhecimento, sejam eles intelectuais ou empíricos. Creio que a convivência com todos os seus personagens, ou devo dizer: amigos, foram marcantes, e hoje vejo traços deles em meus amigos reais. </p>
<p>Tenho a minha D. Benta, meu Visconde, minha Emília, minha Tia Anastácia, meu Marquês e até meu Saci e minha Cuca, por que não? </p>
<p>Todos estão nos meus livros, que são de sua autoria, e na minha vida real.</p>
<p>Obrigada meu amigo Monteiro Lobato! </p>
<p>Até outro dia. </p>
<p>Eloisa Basto Amorim de Moraes<br />
Engenheira Civil</p>
<p><a href="http://www.culturanordestina.com.br">Conheça a história da Cultura Nordestina</a></p>
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		<title>Carta de Josete Cavalcanti a Monteiro Lobato</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Sep 2019 14:21:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Monteiro Lobato]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>CARTAS A MONTEIRO LOBATO &#8211; COLETÂNEA DE MEMÓRIAS Monteiro Lobato Os pensamentos de criança eram muitos, e a criatividade caminhava junto. Em meus devaneios sempre esteve presente o sonho de construir um mundo melhor, sem discriminações e preconceitos. Como a leitura me estimulava, através dela descobria que teria o mundo aos meus pés. Aos poucos, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[		<div data-elementor-type="wp-post" data-elementor-id="2017" class="elementor elementor-2017" data-elementor-post-type="post">
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									<p>CARTAS A MONTEIRO LOBATO &#8211; COLETÂNEA DE MEMÓRIAS</p><p>Monteiro Lobato</p><p>Os pensamentos de criança eram muitos, e a criatividade caminhava junto. Em meus devaneios sempre esteve presente o sonho de construir um mundo melhor, sem discriminações e preconceitos.</p><p>Como a leitura me estimulava, através dela descobria que teria o mundo aos meus pés. Aos poucos, meus devaneios passaram a ser mais reais, e assim fui me tornando uma criança com imensa vontade de conhecer novos horizontes. A geografia me encantava, porque, através dela, tomei conhecimento que existiam florestas, montanhas, cachoeiras e tantas outras belezas que faziam meu coração acelerar só em pensar.</p><p>Ao viajar para o Rio de Janeiro de carro com meus pais, minha felicidade era imensa ao deslumbrar a natureza, pois ela não existia mais somente na imaginação, era tudo real  aquilo que enchia a minha visão de alegria e paz!</p><p>Ao ler o livro do Sítio do Pica Pau Amarelo, livro encontrado na biblioteca do colégio, me apaixonei pela riqueza de personagens. A minha imaginação era fértil e logo fui pesquisar sobre o Saci Pererê, a Cuca, o Visconde de Sabugosa, a boneca Emília, todos muito estranhos, mas alegres e cheios de lições para dar.</p><p>Pedrinho e Narizinho tinham uma avó igual a minha, companheira e sábia. Pena que muitas crianças não aproveitaram esses momentos.</p><p>Dona Benta e Tia Nastácia, conselheiras, no momento lúdico e prazeroso do lanche, através de suas histórias, ensinavam a todos.</p><p>Quero lhe dizer, Monteiro Lobato, que a sua versão imaginária e bastante criativa marcou a minha infância de forma singela, e fizeram com que eu vencesse o medo de alguns personagens aparentemente tenebrosos, mas que traziam toda a sabedoria de suas vivências.</p><p>Toda a sua sabedoria ao abordar temas complexos com tanta simplicidade, como o preconceito contra a raça negra, o dar vida às nossas lendas de maneira lírica, tornando presente a história preservada pelos nossos antepassados, perpetuados através de seus ensinamentos e de nosso folclore, foi fundamental na formação de várias gerações.<br />Pena que você foi esquecido, ou melhor, pouco lembrado!</p><p>A Emília ficou no fundo do baú dos brinquedos de algumas crianças ou nem existe mais, muitas vezes, somente nas fotos.</p><p>Os heróis passaram a ser virtuais, porém com muita veracidade, emoção e agressividade, o mundo deixou de ser mágico e virou palco de uma luta desenfreada pelo poder, pelos seres imortais.</p><p>O livro passou a ser objeto obsoleto para muitos, alguns dizem para justificar que eles têm um preço muito alto. No entanto, jamais serão ultrapassados pelo valor de bonecos feitos em série.</p><p>Agradeço ao Criador por você ter existido, não somente em minha vida, mas na de todas as crianças que aprenderam a sonhar com você.</p><p>Quando olho para o infinito com o céu azul ou pontuado de estrelas, penso: &#8211; onde estarás contando histórias, agora?</p><p>Josete Cavalcanti, 30/08/2019</p><p><a href="http://www.culturanordestina.com.br">Conheça a história da Cultura Nordestina</a></p><p> </p>								</div>
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		<title>Carta de Margarete Cavalcanti a Monteiro Lobato</title>
		<link>https://culturanordestina.com.br/carta-de-margarete-cavalcanti-a-monteiro-lobato/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Sep 2019 14:04:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Monteiro Lobato]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>CARTAS A MONTEIRO LOBATO &#8211; COLETÂNEA DE MEMÓRIAS SAUDADES, CARO MONTEIRO LOBATO Querido José Bento (Renato) Monteiro Lobato Tenho tantas coisas para contar, mas vou tentar ser o mais breve possível, prometo. Sei que escrevestes muitas histórias para alimentar os sonhos de nossas crianças, onde a tecnologia vem ocupando, cada vez mais, o espaço literário. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>CARTAS A MONTEIRO LOBATO &#8211; COLETÂNEA DE MEMÓRIAS</p>
<p>SAUDADES, CARO MONTEIRO LOBATO</p>
<p>Querido José Bento (Renato) Monteiro Lobato</p>
<p>Tenho tantas coisas para contar, mas vou tentar ser o mais breve possível, prometo. Sei que escrevestes muitas histórias para alimentar os sonhos de nossas crianças, onde a tecnologia vem ocupando, cada vez mais, o espaço literário. </p>
<p>Lobato, você continua sendo uma história viva entre o público infantil, juvenil e adulto. Suas obras se eternizaram, e serão sempre ponte que liga o mundo mágico e imaginário ao mundo real. </p>
<p>Lembrar de Monteiro Lobato é reativar a infância adormecida em nossa memória. Lembro-me de quantas vezes ouvi e li suas histórias para adormecer. Outras vezes, em momentos de desobediência e traquinagem, ouvia uma voz braba como alerta: “Cuidado com a Cuca, que a Cuca te pega, te pega daqui, te pega de lá”. O Saci Pererê e a Mula sem cabeça deixavam-me paralisada. </p>
<p>Crescemos e tivemos a sorte de conhecer esse lado bom da infância. Das suas histórias tirei bons ensinamentos. Me entristece ver que hoje a realidade é outra, as crianças estão querendo pular a melhor fase da vida (a fase da inocência, a época de ser criança). </p>
<p>Hoje, Lobato, você está em outra dimensão. Mas tenho certeza que está feliz por saber que suas histórias fantásticas estão lutando para harmonizar o mundo virtual e tecnológico com o imaginário literário. </p>
<p>Criança que cresce com a imaginação voltada para um mundo de coisas boas, tem mais chance de ser um adulto feliz.</p>
<p>Agora, vou finalizando com a certeza de que você fez crescer na minha imaginação a semente do universo infantil. Que o seu livro Viagem ao Céu (1932), possa ser lido hoje por seus admiradores como forma de cartas ao céu para Monteiro Lobato.</p>
<p>Com carinho</p>
<p>Margarete Cavalcanti<br />
Crônicas e poesias</p>
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		<title>Carta de Taciana Valença a Monteiro Lobato</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Salete Rêgo Barros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Aug 2019 12:11:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COLETÂNEA DE MEMÓRIAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas a Monteiro Lobato]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>I COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO Lobato, Gosto da palavra Lobato, lembra lobo, que me dá medo, mas eu enfrento o medo, viu!? Por isso, corri aqui para escrever esta carta. Coração acelerado de tanta carreira! A culpa é toda sua! O quintal da minha casa virou o capoeirão dos Taquarucus, aquele cerrado [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>I COLETÂNEA DE MEMÓRIAS CARTAS A MONTEIRO LOBATO</p>
<p>Lobato,  </p>
<p>Gosto da palavra Lobato, lembra lobo, que me dá medo, mas eu enfrento o medo, viu!?  Por isso, corri aqui para escrever esta carta. Coração acelerado de tanta carreira! A culpa é toda sua! </p>
<p>O quintal da minha casa virou o capoeirão dos Taquarucus, aquele cerrado que Dona Benta não deixava que ninguém fosse. Pois é, a plantação de canas do quintal virou o cerrado fechado e proibido. Como sempre tive nariz um pouco arrebitado, me faço de Narizinho. O Marquês de Rabicó é um amigo, sempre obediente, levando todo pedido como uma ordem, facilitando a brincadeira. Pior é a amiga Renata, nunca quer ser o personagem que a gente diz. Pois então, estava justamente embrenhada na mata procurando a onça, ou gato grande de miado forte. Ah! Esse Marquês! Chegou esbaforido, mal conseguia falar. </p>
<p>Assim, quando Pedrinho (minha amiga mais alta) me contou  sobre a onça, quase digo a Vó Benta e Tia Nastácia, mas ele não deixou, porque iria organizar a caçada e, se elas soubessem, é claro, o plano não se realizaria.</p>
<p>Foi preciso chamar o Visconde de Sabugosa (minha irmã) e a Emília (uma amiga mais velha) para seguirmos o plano de caçada. Desenhamos os rastros no chão e entramos por dentro dos pés de cana. Senti medo, realmente senti. Mas a onça era simplesmente o Cágado que rodeava a casa. Simulamos um facão e a morte do felino. Inclusive,  o espanto de Dona Benta e Nastácia quando souberam da existência da onça.</p>
<p>E a vingança dos animais? Afff! Quando os amigos besouros contaram para a Emília o plano dos bichos, eu gelei, de verdade. Seria guerra! O rinoceronte que fugira do circo se tornou amigo e ajudou muito a resolver a questão com os animais.    </p>
<p>Eita, minha mãe está chamando. Deve ser por causa da bagunça que fizemos lá trás.<br />
Espera aí, Lobato, volto já!</p>
<p>Veja, esta poderia ter sido a carta por mim escrita aos nove anos de idade, quando saboreava cada personagem seu. Inventava e incrementava as histórias, queimava bolos feitos num forninho elétrico que  tinha ganho, fazendo de conta que era a cozinha da Tia Nastácia, entre tantas outras coisinhas, típicas de criança. E tem um segredinho: era apaixonada pelo Pedrinho. </p>
<p>Bem, agora posso contar&#8230;</p>
<p>Então, a adulta, hoje escreve a felicidade que teve de brincar, ter lido seus livros e alimentado a criatividade, a imaginação, sentindo todas as emoções que uma criança poderia sentir. </p>
<p>Porém, algumas coisas também ficaram no subconsciente, por exemplo, Tia Nastácia, a velha empregada negra. Duas coisas me marcaram: uma, o fato dela ser negra, e por que não Dona Benta ou um dos seus netos? Por que alimentar que a pessoa negra deve fazer o trabalho pesado ou ser responsável pelas atividades da casa do branco?</p>
<p>Tanto tempo já havia passado desde a abolição. Essa é uma das importâncias da  literatura, ela influencia, neste caso, e em tantos outros, acrescentando valores morais ou aprofundando o abismo que existe entre os humanos. Então, talvez, não só para mim, mas para tantas outras crianças, a ficção registrou no nosso sentimento uma realidade, um preconceito histórico que carregamos até hoje. É tanto que, após tantos anos, sua obra foi levada à Justiça, estando em debate sobre a sua importância literária nos tempos atuais, podendo, inclusive, ser retirada do programa nacional educação.</p>
<p>Entendo, querido Lobato, que, apesar da imensa criatividade de sua literatura, que tanto marcou minha infância, o escritor tem que levar em consideração o respeito pelo próximo e suas diferenças. Principalmente o escritor infantil, pois influenciará de forma decisiva na construção do caráter das crianças e dos seus valores. </p>
<p>Parece modismo falar de Direitos Humanos, mas não é, tivemos muitos avanços, porém, estamos longe do ideal. E é até esquisito falar de avanço quando o assunto é o respeito à dignidade do outro, aos direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de quaisquer diferenças, sejam de cor, raça, etnia, idioma, religião, etc..</p>
<p>Então, na frase do livro Caçadas de Pedrinho que diz: </p>
<p>“É guerra das boas, não vai escapar ninguém, nem tia Anastácia, que tem cara preta”. </p>
<p>Entendo que seria dispensável destacar a cor da pele dela, como também é dispensável dizer que Dona Benta tem a cara branca.</p>
<p>E outra ainda, </p>
<p>“Sim, era o único jeito – e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros. ”</p>
<p>Fica, então, a pergunta: por que a “macaca de carvão”?</p>
<p>Ora, não entendo essa atitude como politicamente correta. É que, sinceramente, desde cedo as crianças têm que entender que todo ser humano deve ser respeitado em todas as suas diferenças, porque somos todos humanamente iguais.</p>
<p>No mais, Lobato, deixo minha eterna admiração, dizendo que, nos últimos três anos participei, no dia do seu aniversário, 18 de abril, de uma peça teatral onde, coincidentemente, fiz papel de Tia Nastácia. Para isso, pintei o rosto de preto. Confesso, não acho que precise manter tal personagem, responsável pela cozinha, necessariamente negra.</p>
<p>Por isso, no seu próximo aniversário, apresentaremos, com sua licença, Nastácia branca. Precisamos passar para as crianças que esta personagem pode ser de qualquer outra raça. Não endossarei uma concepção da qual discordo. Não acho que devemos contribuir, seja de que forma for, para aumentar preconceitos. E não acho que estou sendo chata, estou lutando por um mundo mais justo e humano.</p>
<p>O mundo, querido Lobato, precisa de mudança. Temos que evoluir na caminhada pelo humano.  Basta de abismos entre as pessoas que necessitam caminhar em busca do desenvolvimento, crescimento e justiça social.</p>
<p>Deixo aqui, o meu mais sincero agradecimento pela grande obra que deixou e que jamais será esquecida.</p>
<p>    Com meu afetuoso abraço.<br />
                                                          Taciana</p>
<p>Recife, 26 de agosto de 2019.</p>
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