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	<title>Arquivos Valter da Rosa Borges &#8226; Cultura Nordestina</title>
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	<description>Letras &#38; Artes</description>
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		<title>Ciência &#038; Sociedade &#8211; Valter da Rosa Borges (*)</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jun 2021 20:02:45 +0000</pubDate>
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<div dir="auto">Conhecer o futuro para controlar o próprio destino sempre foi, é e continuará sendo uma das grandes aspirações do gênero humano. Elas resultam das expectativas de um mundo melhor ou de um outro radicalmente diferente do atual, seja porque acreditamos num progresso interminável, seja porque o sistema atual do mundo é indesejável e deve ser modificado ou completamente destruído. Por isso, o homem se fez profeta para inventar o seu próprio futuro.</div>
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<div dir="auto">A ciência tem transformado o que antes parecia especulações visionárias em realizações ou probabilidades concretas. Assim, o cientista é um profeta singular que, ao invés de procurar entender os planos de Deus, cria os seus próprios projetos e tenta viabilizá-los. Diferentemente das pitonisas do passado, ele não aspira os gases oriundos da terra para augurar o futuro, mas se inspira nas ideias oriundas das profundezas do seu inconsciente, buscando construir para a humanidade, não apenas futuros possíveis, mas, principalmente, desejáveis. O seu otimismo em relação ao futuro se direciona no sentido de uma melhoria tecnológica da vida para o homem, embora nem sempre resulte em melhoria da qualidade de vida. Entre essas visões progressistas do futuro a ciência se propõe à construção de cidades autossuficientes nos oceanos e no espaço; à instalação estratégica de defesas bélicas contra possíveis choques do nosso planeta com asteroides; às teleportações de coisas e pessoas, minimizando o obstáculo do espaço; às viagens no tempo; à conquista do espaço exterior com a colonização de planetas do sistema solar e também de outros sistemas dentro da nossa galáxia e até fora dela; à extinção de todas as doenças e ao aumento indefinido da longevidade, com a manutenção da saúde e o retardamento ou mesmo a abolição do envelhecimento; à instalação de próteses ampliadoras das funções do corpo; à utilização de memória suplementar em chips implantados no cérebro; à ampliação funcional do vestuário à condição de nicho ecológico individual; à alimentação sintética, reduzindo a dependência do homem aos alimentos naturais, o que poderá resultar em alterações da fisiologia humana; à expansão, em nível inimaginável, da inteligência artificial, substituindo as atividades rotineiras do ser humano; à reconstrução genética, visando a melhoria biológica da espécie humana; à clonagem de órgãos, abolindo a necessidade de transplantes e próteses; à felicidade química e à abolição da dor física; à realidade virtual como sucedâneo, em certas situações, da realidade física.</div>
<div dir="auto"></div>
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<div dir="auto">Porém, a ciência sem consciência, poderá reverter toda essa perspectiva otimista, ensejando a desilusão e o desespero, decorrentes dos conflitos sociais resultante da mudança de normas e valores, a dissolução dos costumes, com o incremento da licenciosidade, da corrupção do poder, da escalada da desonestidade, do arrefecimento do sentimento religioso, da busca exacerbada dos bens materiais, do agravamento da pobreza, da fome, e do aumento insuportável da violência, desencadeando o aumento da criminalidade, dos conflitos sociais e das guerras.</div>
<div dir="auto"></div>
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<div dir="auto">O futuro da humanidade é, de certo modo, um constructo do psiquismo humano. Os futuros temíveis ou desejáveis podem se tornar prováveis, pois o homem, por sua capacidade de pensar as possibilidades do acontecer, é suscetível de ser vítima ou beneficiário do conhecimento científico e de suas aplicações tecnológicas.</div>
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<div dir="auto">O cientista não deve ser um gênio solitário, embora faça da sua solidão o cadinho de suas descobertas e inventos. O laboratório jamais deve ser um eremitério, mas uma sementeira para o cultivo de ideias oriundas das mais diversas áreas do conhecimento humano. A ciência não pode ser um sistema fechado, uma espécie de feudo epistemológico, mas um espaço tão amplo e limitado como o universo exterior, a fim de evitar o engessamento e a estratificação do paradigma da realidade. A natureza intrínseca da ciência é a provisoriedade do seu próprio conhecimento, em permanente compasso com a mutabilidade de todas as coisas. A fé na ciência é a consciência de sua própria inciência, pois como dizia Karl Popper, &#8220;o conhecimento é limitado, mas a ignorância é infinita&#8221;. Na verdade, quanto mais pensamos saber, mas nos conscientizamos das nossas limitações e do tamanho, cada vez maior, da nossa ignorância. Quanto mais adentramos a pesquisa da matéria, mais nos deparamos com a sua fundamental insubstancialidade. Quanto mais questionamos sobre a vida, mais nos apercebemos da insuficiência do seu paradigma biológico. E quanto mais ampliamos os nossos conhecimentos sobre a bioquímica e a anatomia cerebral mais nos conscientizamos do mistério da nossa consciência.</div>
<div dir="auto"></div>
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<div dir="auto">O conhecimento científico não deve ficar adstrito e restrito à privacidade dos laboratórios e às discussões entre cientistas, em sessões privadas, mas que deve ser levado à comunidade para que dele também se beneficie, melhorando a própria qualidade de vida. Assim como a ciência ainda não encontrou o átomo no seu verdadeiro sentido etimológico, também ainda não se descobriu o homem em si, pois ele não é apenas a sua circunstância, como dizia Ortega y Gasset, mas também a sua relação. Assim, a nossa individualidade é a nossa relação com, o que resulta na constatação de que a solidão não faz parte da essencialidade do ser. Na verdade, fundamentalmente nenhum homem vive exclusivamente para si, enfeudado em sua privacidade inexpugnável, mas também para os outros, apesar dos outros e até contra os outros. Por mais que não nos queiramos resignar, o mundo é necessariamente o nosso anverso, a nossa contraparte. Aliás, hoje se postula que o universo é uma rede de interconexões de todas as coisas, onde tudo interage com tudo, o que importa na inadmissibilidade de ter o homem o privilégio de ser a única exceção.</div>
<div dir="auto"></div>
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<div dir="auto">Não se pode fugir ao truísmo denunciatório de uma sociedade em acelerada transição que mais se assemelha, notadamente no ocidente, ao processo entrópico de uma civilização em rumo equivocado, embevecida, no entanto, pelo brilho hipnótico das lantejoulas tecnológicas. A bem da verdade, de tanto cotejar a filosofia consumista, na orgia aquisitiva de bens e de valores transitórios, o homem perdeu o seu próprio endereço existencial, acometido de colapso amnésico de sua identidade transcendental.</div>
<div dir="auto"></div>
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<div dir="auto">Se, de um lado, o progresso científico e as comodidades tecnológicas aceleram, cada vez mais, o processo de irreversível planetarização, denominado por McLuhan de “aldeia global”, numa interação perigosamente homogeneizante das culturas mais díspares, por outro lado o espírito humano vem sofrendo um persistente abastardamento de seu ideário humanístico pelas facécias e falácias da mídia enlouquecida, na promoção da vulgaridade, do deboche, do estímulo à criminalidade, onde o filão do escândalo constitui a ratio essendi do marronismo jornalístico.</div>
<div dir="auto"></div>
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<div dir="auto">(*) REVISTA DFATO. Associação do Ministério Público de Pernambuco. n° 1, abril/2006</div>
<div dir="auto">
<div dir="auto">Valter da Rosa Borges é fundador da Academia Pernambucana de Ciências (APC) e do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas &#8211; IPPP.</div>
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