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	<title>Arquivos Flávio Brayner &#8226; Cultura Nordestina</title>
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	<description>Letras &#38; Artes</description>
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	<title>Arquivos Flávio Brayner &#8226; Cultura Nordestina</title>
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		<title>Por uma ecopedagogia, por Flávio Brayner*</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Nov 2024 19:12:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coletânea Gaia: a deusa-mãe]]></category>
		<category><![CDATA[Coletâneas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O filósofo alemão Immanuel Kant afirmou certa vez, num ensaio sobre a origem da cultura, que tal início se situava simbolicamente no Livro do Gênesis, no momento em que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso e obrigados a “ganhar o pão com o suor do próprio rosto!”. Isso significava que, a partir daquele momento, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O filósofo alemão Immanuel Kant afirmou certa vez, num ensaio sobre a origem da cultura, que tal início se situava simbolicamente no Livro do Gênesis, no momento em que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso e obrigados a “ganhar o pão com o suor do próprio rosto!”. Isso significava que, a partir daquele momento, a Criatura não apenas se tornava responsável pela própria sobrevivência, retirando da Natureza (que fora criada por Deus) seu sustento, mas que estava, de certa maneira, “autorizado” a modificar e transformar aquela mesma Natureza que representava nossa “casa”: a Criação divina poderia, a partir dali, ser modificada pela mão do homem, a mesma mão que se prolongará na técnica.</p>
<p>No mito de Prometeu (Ésquilo), esse Titã rouba o fogo do Olympo para doar aos homens, mesmo sofrendo um terrível castigo: acorrentado ao Cáucaso e tendo seu fígado comido (e se regenerando!) todos os dias por um abutre! O FOGO é, aqui, a representação da técnica com a qual os homens poderão transformar a Natureza, seja para atender às suas necessidades, seja para adaptá-la aos seus interesses.</p>
<p>Muito mais tarde, no século XVI, Francis Bacon (<em>Novum Organum</em>) afirma nessa sua obra que “precisamos torturar a Natureza até que ela revele todos os seus segredos”. A frase supõe que Deus escondeu algo no seu interior e que pode ser desvendado pela Ciência (saber) e pela Técnica (poder), transformando-a em algo a ser explorado e conhecido pela razão humana.</p>
<p>A história do homem é também a história de sua relação com a Natureza, de onde ele retira sua sobrevivência, e até a Modernidade supúnhamos que “dentro dela” habitavam espíritos, seres animados e vivos que davam à própria Natureza uma essência e uma alma que deveriam ser resguardadas e invocadas, para o Bem ou para o Mal. A Modernidade destrói esse “encantamento” (Max Weber), vendo a Natureza, agora, como um OBJETO a nosso serviço e interesse. A “tortura” baconiana, típica da tradição inquisitorial europeia, também serviria para que a “verdade”, contida numa Natureza imprevisível e até então indomada, fosse revelada! Foi o que Weber chamou de “desencantamento do Mundo”. Quinhentos anos depois, Theodor Adorno (Dialética do Esclarecimento) afirmou: “Se a Natureza pudesse falar, ela emitiria apenas um longo grito de dor!”.</p>
<p>Aliás, o próprio Marx achava que o desenvolvimento das forças produtivas (técnica) levaria à libertação do fardo do trabalho e a instauração de uma nova sociedade: herdeiro da tradição iluminista do PROGRESSO, depositou na técnica como Poder e na ciência como Saber, os avatares de nossa libertação. O que não esperávamos era que chegaríamos a um limiar perigoso, uma época delicada (o ANTROPOCENO, marcada pelo impacto do homem sobre a Natureza) em que é a própria vida humana sobre a Terra que se encontra ameaçada.</p>
<p>Foi com a bomba atômica e a destruição de Hiroshima a Nagazaki (1945) que entramos numa nova era, em que o Homem agora dispunha da possibilidade do extermínio completo de toda a humanidade pela Técnica! O problema que se colocou, naquele momento (ver a peça de Brecht “A Vida de Galileu”), foi o de saber se o progresso técnico com suas imprevisíveis consequências, exigia uma nova Ética, se todas as portas da cultura poderiam ser abertas, e se o “progresso” técnico caminharia, agora, com uma inusitada autonomia em que, como dizia Arendt “Não é porque <strong><em>pode</em></strong> ser feito que <strong><em>tem</em></strong> que ser feito!”. Isso significa que, a Modernidade fez migrar nossa Razão Substantiva (que avalia fins e valores de nossas ações) para uma Razão Instrumental (preocupada  com os “meios” e sem se interrogar sobre os “fins”).</p>
<p>Em 1979, o filósofo Hans Jonas publica o seu “<em>Princípio responsabilidade</em>” em que propõe uma ética prospectiva: não se trata mais de definir um código de conduta, nem uma moral normativa para guiar a relação com nossos contemporâneos, nem de estabelecer “imperativos categóricos “universais. Trata-se de uma ÉTICA PARA OS PÓSTEROS, para os que ainda vão chegar no Mundo: seremos capazes de agir, no PRESENTE, de tal forma que, aqueles que vão chegar, possam herdar um MUNDO com ROSTO HUMANO? Isso, certamente, exigiria uma forma qualquer de educação que fosse além do contato com a tradição ou a preparação para a cidadania ou o trabalho, mas uma consciência socioambiental: temos o direito de queimar ou destruir a própria casa que nos abriga desde que Adão foi expulso do Paraíso, ou desde que o <em>Homo Faber</em> inventou seu primeiro machado-de-pedra, para usar uma simples metáfora?</p>
<p>A grande amiga de Jonas, Hannah Arendt, dizia que “<strong><em>A educação é aquele ponto em que decidimos se amamos o Mundo suficientemente para permitir sua continuidade!</em></strong>”. Assim, o que está em jogo em qualquer processo educacional é, não exatamente a “transmissão” de um conteúdo, ou o acesso à cultura herdada, ou a aquisição de habilidades profissionais: aqui, na educação, o que se transmite é o Mundo, entendido como o lugar onde a pluralidade de opiniões pode se manifestar, e que precisamos apresentar aos que estão chegando, sem o quê, os recém chegados podem destruí-lo, ou o próprio mundo pode destruí-los (se eles acharem que tudo “começa com eles”!).</p>
<p>Precisamos, de certa forma, nos desvencilhar das perspectivas Iluministas e Humanistas de uma certa modernidade que viu no Progresso a realização, num tempo futuro, de nossa mais completa Humanidade (o conjunto de nossos predicados subjetivos), e precisamos tomar seriamente em conta aquela Tese de Walter Benjamin (1892-1940), nas suas <em>Teses sobre a Filosofia da História</em>, em que o Anjo do Progresso vê atrás de si um monte de ruínas!</p>
<p>Uma educação preocupada com o meio ambiente não é uma educação conteudística em que se transmite lições a serem “cobradas” numa avaliação; nem tão pouco excursões com os alunos para conhecerem a Mata Atlântica ou exibir filmes sobre a extinção de animais em função da degradação de seu meio natural. Penso que uma educação ambiental, uma <strong><u>ECOPEDAGOGIA</u></strong> é sobretudo a aquisição de hábitos de relacionamento com o meio em que vivemos; é, no fundo, uma educação moral em que não é o Outro (pessoa humana) que respeitamos numa relação intersubjetiva. O OUTRO, aqui, é toda a vida que nos cerca, não importa onde ela esteja situada (na água, na terra, no ar): hábitos e ações que façam com que eu me sinta “responsável” não apenas pelos que ainda vão chegar, mas em que condições eles vão chegar. Essa tarefa não é só da escola: para que possa funcionar, ela precisa estar presente em todas as instituições que frequentamos e que exige um uso racional e equilibrado de energia, de água, de materiais descartáveis, de emissões tóxicas, de reciclagens&#8230;</p>
<p>O homem talvez seja o único animal com vocação suicidaria: aquele que não apenas mata seu semelhante, mas também mata o ambiente em que seu semelhante vive! E com o advento de novas tecnologias em que já se fala de um “pós-humano” e “transhumano”, os riscos de um suicídio coletivo são ainda maiores. Eis a preocupação e o sentido de uma nova educação ética voltada para a preservação do que ainda há de “humano” em nós e de “natural” no meio em que vivemos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p><em><strong>*Flávio Brayner</strong> é professor titular e emérito da UFPE, doutor e pós-doutor em Filosofia da Educação pela Sorbone (Paris V), professor titular visitante da UFRPE.<br />
</em></p>
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		<title>Pequena nota sobre a coragem política &#8211; Flávio Brayner</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jun 2021 20:03:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p> Quando George Politzer (1903-1942), filósofo, membro da Resistência Francesa e fundador da Universidade Popular nos anos 30, estava diante do pelotão de fuzilamento nazista que o executou, suas últimas palavras foram “- Idiotas, eu estou morrendo por vocês!”. Independentemente do sacrifício “salvacionista” que aquela época inspirava e produzia, o que estava subjazendo àquela frase era [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong>Quando George Politzer (1903-1942), filósofo, membro da Resistência Francesa e fundador da Universidade Popular nos anos 30, estava diante do pelotão de fuzilamento nazista que o executou, suas últimas palavras foram “- Idiotas, eu estou morrendo por vocês!”. Independentemente do sacrifício “salvacionista” que aquela época inspirava e produzia, o que estava subjazendo àquela frase era “o que é a CORAGEM POLÍTICA?”.</p>
<p>Quando aquele rapaz, na Praça Tiananmen (Pequim, 1989) se postou diante de tanques de guerra que iriam massacrar as multidões que exigiam instituições mais abertas e oxigênio democrático, ele passou para a História como símbolo de um tipo de “coragem”, a política!</p>
<p>Quando Louise Michel (1830-1905), professora e poetisa que participou da Comuna de Paris, empunhou a Bandeira Negra do libertarismo popular, escreveu poemas dedicados à luta por direitos (inclusive das mulheres) e terminou condenada ao exílio na Nova Caledônia, ela estava praticando um tipo de “coragem”, a política!</p>
<p>Quando a vereadora recifense Liana Cirne, minha colega de UFPE, se dirigiu sozinha e armada apenas com a consciência de seu direito à resistência, a uma viatura de polícia no meio de uma manifestação pacífica, ela reencarnava ali, na ponte Princesa Isabel, a dois passos do Palácio do Governo, os homens e mulheres que, através da História, disseram que nós não queríamos ser governados assim: não por estes homens, não com estes métodos, não com estes fins! A CORAGEM POLÍTICA não é sinônimo de heroísmo, não é necessariamente sacrifício da própria vida em função de uma causa: é um alerta. No gesto “politicamente corajoso” (nada a ver com o “politicamente correto”), o ATOR que o pratica nos chama a atenção para a indissociável relação entre Moral e Política, nos mostra que aquele que assume a responsabilidade de dirigir o destino dos cidadãos não precisa abrir mão da própria vida, mas precisa assumir o imperativo categórico de ser DIGNO DA CIDADE (que não é o conjunto das praças, ruas e casas, mas um passado e um destino comum e ao mesmo tempo plural) e, assim, inscrever seu nome na memória dos homens. Foi isto o que Liana Cirne fez naquele gesto, um gesto do qual nos lembraremos. É isto a “CORAGEM POLÍTICA”: o alerta que homens e mulheres &#8211; em tempos sombrios- nos fazem para que não esqueçamos os predicados que nos tornam Homens e sem os quais não passamos de ratos!</p>
<p><strong>Flávio Brayner </strong><strong>é Professor Titular da UFPE</strong></p>
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		<title>O americano tranquilo &#8211; Flávio Brayner</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 11:34:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>No romance de Graham Greene de 1952, com o mesmo título acima, o agente da CIA, Alden Pyle, chega a Saigon para conspirar contra os franceses que dominavam a Indochina. Envolveu-se numa grande confusão (amorosa e política!). Na segunda metade dos anos 70 (em plena luta contra a ditadura), quando nossas universidades estavam apinhadas de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>No romance de Graham Greene de 1952, com o mesmo título acima, o agente da CIA, Alden Pyle, chega a Saigon para conspirar contra os franceses que dominavam a Indochina. Envolveu-se numa grande confusão (amorosa e política!). Na segunda metade dos anos 70 (em plena luta contra a ditadura), quando nossas universidades estavam apinhadas de agentes de&#8230; -taokey!- “inteligência”, a presença de um americano no curso de História da UFPE (um Departamento vivendo a transição entre uma historiografia “positivista” e uma visão que nós chamávamos de “crítica”, de inspiração marxista), a presença de um professor americano entre nós levantava fortes suspeitas: era o professor Marc Jay Hoffnagel, que acaba de falecer aos 77 anos de idade vítima de grave acidente vascular. Marc era novaiorquino, descente de família judia e veio pela primeira vez ao Brasil no fim dos anos 60 para fazer pesquisa sobre a economia açucareira (fez pesquisa na Usina Coruripe em Alagoas) auxiliando o “brasilianista” Peter Eisenberg (autor de “Modernização sem mudança”). Depois voltou para integrar<br />
os quadros do Departamento de História.</p>
<p>Foi o único professor que tentou me reprovar (por falta!). Mas não conseguiu! O Departamento não deixou. Ficamos mais próximos na Pós-graduação. Foi ali onde pude conhecer a figura afável e bem humorada (um humor ácido e irônico que derramava sobre nossa vida cultural) e decidiu, diferentemente de Alden Pyle, ficar definitivamente no Brasil (dizia que quando voltava ao EUA era visto com alguma desconfiança: falava inglês com certo sotaque brasileiro!). Quando o convidei para ser membro de minha banca de Mestrado &#8211; uma dissertação sobre o Partido Comunista Brasileiroele não gostou do fato de eu ter afirmado que “os americanos invadiram a Baía dos Porcos, em Cuba!”. –“Nunca!, disse-me, prepararam e financiaram os contra revolucionários, mas não invadiram!”. “- Tudo bem Marc, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim”&#8230; respondi! Ele riu! A última vez que o encontrei, ele estava num bar, com um broche de Obama, então candidato.</p>
<p>Não entendo como alguém pode querer ser brasileiro tendo nascido num país como os EUA. Reconheço que havia, naqueles meus anos de estudante, um charme em nosso modo de ser e viver que atraía os estrangeiros: estamos perdendo tudo isto, o Brasil está, na verdade, “desaparecendo”. Marc, o “americano tranquilo”, que amava este país, preferiu não ficar para ver no que ia dar! Queria ser enterrado aqui, num gesto final de amor inexplicável. Como todo amor&#8230;</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Flávio Brayner (UFPE)</strong></p>
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		<title>O escritor, as palavras e os dias &#8211; Flávio Brayner</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Oct 2020 11:33:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Passou o Dia do Escritor e algumas pessoas me deram “Parabéns pelo meu Dia”! Mas acho que elas se enganaram: sem falsa modéstia, sou apenas um professor que escreve. Penso que ser escritor não é uma profissão, embora se possa ganhar a vida escrevendo. Quero dizer que não é fazendo um curso técnico de escrita [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q">
<div dir="auto">Passou o Dia do Escritor e algumas pessoas me deram “Parabéns pelo meu Dia”! Mas acho que elas se enganaram: sem falsa modéstia, sou apenas um professor que escreve.</div>
<div dir="auto"></div>
</div>
<div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q">
<div dir="auto">Penso que ser escritor não é uma profissão, embora se possa ganhar a vida escrevendo. Quero dizer que não é fazendo um curso técnico de escrita que alguém se torna um escritor: pode até dominar ferramentas narrativas, as estratégias da composição, saber como se monta uma cena ou um cenário, como compor a psicologia de uma personagem, mas adquirir a condição é diferente. Porque ser escritor é um MODO DE VIDA. Não um modo de ganhar a vida, mas de vivê-la: significa acreditar que tudo ao meu redor pode ser transformado em escrita e a página em branco (o “terror” de todo escritor) é apenas o lugar para onde este mundo irá se instalar e adquirir um possível lugar no reino das significações. Ele, o escritor, vê o mundo diferentemente de qualquer suposto olhar objetivo e mesmo além de qualquer subjetividade abstrata e autocentrada. O mundo e seus dias serão obrigados a passar pelas palavras, não qualquer palavra, mas aquela que Flaubert chamava “Le mot juste” (a “palavra exata”). Supor que há uma “palavra exata” que designa algo no Mundo em sua mais absoluta precisão e inteireza é supor que as coisas têm uma alma, uma essência e que ela só pode ser expressa por aquela palavra, a palavra que faz com que aquela coisa seja o que ela é não uma outra coisa!</div>
<div dir="auto"></div>
</div>
<div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q">
<div dir="auto">Northrop Frye (A imaginação educada) achava que a leitura do Antigo Testamento era a primeira tarefa de quem queria escrever e precisava compreender “o que era a Literatura”: ali, nos livros do Pentateuco, estavam todas as histórias que poderiam ser contadas e também o mistério de toda escrita, mistério fundado num mito: o da palavra inaugural, aquela que faz com que o Mundo exista, o FIAT original. É esta palavra matinal, ali na aurora de todas as coisas, que oferece a alma dos entes, daquilo que “existe” e a que eles devem corresponder: “Le mot juste” de Flaubert! O escritor é aquele que procura a PALAVRA no Mundo dos entes, não sabe nunca se vai encontrá-la, aquela palavra que uma vez pronunciada desvela a alma das coisas existentes, e toda sua vida de escritor é passada neste estranho exercício de contar uma história já muitas vezes contada, tentando, novamente, encontrar aquela língua original que ofereceu ao que existe sua razão de ser. Não é obra de uma conversão paulina: é uma busca sem fim. Parabéns a quem se dedica a esta estranha e fundamental tarefa!</div>
</div>
<div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q">
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: left;"><strong>Flávio Brayner, repito,</strong></div>
<div dir="auto" style="text-align: left;"><strong>é apenas professor!</strong></div>
</div>
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		<title>Literatura e educação &#8211; Flávio Brayner</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Sep 2020 11:34:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A tese de Nadir Skeete sobre Literatura e Formação (Letras-UFPE), orientada pelo meu querido amigo Oussama Naouar (atual Pró-Reitor de Extensão), se refere com frequência a um artigo que publiquei na “Revue Française de Pédagogie” (2001) em que comentava as idéias pedagógicas de Philippe Meirieu (Universidade de Lyon), então Vice-Ministro de Educação da França, e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>A tese de Nadir Skeete sobre Literatura e Formação (Letras-UFPE), orientada pelo meu querido amigo Oussama Naouar (atual Pró-Reitor de Extensão), se refere com frequência a um artigo que publiquei na “Revue Française de Pédagogie” (2001) em que comentava as idéias pedagógicas de Philippe Meirieu (Universidade de Lyon), então Vice-Ministro de Educação da França, e Jorge Larrosa (Universidade de Barcelona): o artigo tratava da relação entre Literatura e Educação. Em Meirieu eu criticava sua “pedagogização” da literatura (fazendo dela coadjuvante da formação); em Larrosa, critiquei a “literaturização” do pedagógico: a tentativa de promover uma estetização da existência (uma “salvação” pelo estético!). Meirieu danou-se comigo, mas não deu continuidade à trilogia que prometera sobre o assunto, e Larrosa me deu uma longa (e ótima!) resposta no seu livro “Educação e linguagem depois de Babel”.</p>
<p>Todorov achava que a forma mais eficaz de acabar com a Literatura era&#8230; didatizando-a, obrigando nossos alunos a fazer “fichas de leitura”, decorar estilos de época e suas obras respectivas, ler versões condensadas dos clássicos&#8230;, retirando dela aquilo que mais importa: o gozo estético, o prazer de ser conduzido “para fora”, de viver outras vidas, freqüentar outras épocas, contrair amizades imaginárias! Meirieu fazia aquilo que Todorov mais condenava: lia e resumia obras literárias – com suposto conteúdo “pedagógico”!- e as passava para seus alunos para que eles dali retirassem lições edificantes. Larrosa vai mais longe: como não conseguimos resolver nosso (mal) “estar-nomundo” nem pela política, nem pela religião, nem pelo “uso da razão” ou da ciência, e a Educação que nos prometia isso sucumbiu em linguagens emprestadas ou em clichês inconseqüentes, Larrosa espera que a “experiência” estética nos permita construir a<br />
vida “como uma obra de arte”, tema caro às filosofias decadentistas do Mundo Antigo (Epicurismo, Hedonismo, Eudemonismo) em que, terminada a experiência da Cidade política, os filósofos se voltaram para a felicidade individual na tentativa de reunir Ética e Estética numa improvável “estetização da existência”: tornar-se o artista de si mesmo!</p>
<p>Penso que as linguagens “pastorais” da educação (“conscientização”, “libertação”, “denúncia-anúncio”, “caminhada”, “travessia”&#8230;) estão se esgotando, e talvez a Literatura possa nos ajudar em sua eventual reconstrução. Mas, antes, precisamos levantar uma questão: “A que tipo de pergunta a Literatura responde e por que só ela pode responder?”.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Flávio Brayner</strong><br />
<strong>é Professor da UFPE</strong></p>
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