<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos Flávia Suassuna &#8226; Cultura Nordestina</title>
	<atom:link href="https://culturanordestina.com.br/autoria/flavia-suassuna/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://culturanordestina.com.br/autoria/flavia-suassuna/</link>
	<description>Letras &#38; Artes</description>
	<lastBuildDate>Wed, 14 Jul 2021 14:20:41 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://culturanordestina.com.br/wp-content/uploads/2020/09/cropped-Cultura-Nordestina-favicon-1-32x32.png</url>
	<title>Arquivos Flávia Suassuna &#8226; Cultura Nordestina</title>
	<link>https://culturanordestina.com.br/autoria/flavia-suassuna/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>O nome disso &#8211; Flávia Suassuna</title>
		<link>https://culturanordestina.com.br/artigo/o-nome-disso-flavia-suassuna/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-nome-disso-flavia-suassuna</link>
					<comments>https://culturanordestina.com.br/artigo/o-nome-disso-flavia-suassuna/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Suporte Recify]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Jul 2021 14:20:41 +0000</pubDate>
				<guid isPermaLink="false">https://culturanordestina.com.br/?post_type=artigo&#038;p=8281</guid>

					<description><![CDATA[<p>Um dos temas a que recorrentemente voltei nas minhas reflexões neste tempo difícil de isolamento que não começa, nem termina foi o da comunicação através de nossos vigorosos meios de comunicação – a televisão, o celular, a internet e, portanto, as redes sociais. Neles, há agora bilhões de produtores de conteúdo, possíveis graças à facilidade [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://culturanordestina.com.br/artigo/o-nome-disso-flavia-suassuna/">O nome disso &#8211; Flávia Suassuna</a> apareceu primeiro em <a href="https://culturanordestina.com.br">Cultura Nordestina</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um dos temas a que recorrentemente voltei nas minhas reflexões neste tempo difícil de isolamento que não começa, nem termina foi o da comunicação através de nossos vigorosos meios de comunicação – a televisão, o celular, a internet e, portanto, as redes sociais. Neles, há agora bilhões de produtores de conteúdo, possíveis graças à facilidade e ao baixo custo da comunicação. Porém constato também que estamos morando na Babel mais absurda de todos os tempos: aquela resultante de um mundo cheio de gente com meios de comunicação virtual inimagináveis há 10 anos nas mãos, mas onde faltam pessoas que consigam dialogar.</p>
<p>Cada um de nós carrega um pouco de culpa dessa situação esdrúxula: alguns jornalistas e professores, infantilmente, abriram mão de suas importantes funções sociais e passaram a dizer o que todos dizem ou o que todos querem ouvir ou pior: o que dizem os que se localizam no mesmo ponto extremo polarizado. O senso comum triunfa, com suas simplificações, com suas frases feitas, com suas receitas prontas que, evidentemente, não dão conta de nossas complexidades. O governo acha que tudo isso se resolve com uma suposta escola sem partido ou com cerceamento e não com informação mais plural e mais pluridirecional.</p>
<p>Também somos culpados quando não buscamos canais alternativos ou quando nem sequer escutamos quem pensa diferente: presos nas bolhas das redes sociais, não só falamos numa absurda caixa de eco e só acatamos o pensamento de quem pensa exatamente como nós (se é que isso existe), mas também, por alguma razão que<br />
desconheço, estamos exigindo de nós mesmos dizer de novo o que já foi dito.</p>
<p>Não só: usando o poder dessas bolhas e seus mecanismos rápidos de compartilhamento, estamos, com muita violência, prejudicando carreiras, criando constrangimentos, humilhando e exigindo autoflagelações públicas espetaculosas. À proporção que desqualificamos o outro, realizamos uma cega, interesseira e, aparentemente, feliz autopurificação, num jogo parecido demais com o do Nazismo para ser aceitável. O resultado disso tudo é apenas embate de particularismos narcísicos que deságuam numa sociedade fraturada e incapaz de construir utopias coletivas, necessárias ao norteamento das ações cotidianas possíveis de todos.</p>
<p>Ao contrário do que poderia ser, nessas famosas redes sociais, continuamos violentos, preconceituosos, intransigentes, ou seja, nesses canais virtuais, escorre nosso ódio de cada dia em tal volume que alguns chegam a pensar que estamos piores do que sempre estivemos.</p>
<p>Além disso, estamos lendo nada ou quase nada; rotulando a tevê com mil defeitos, também não estamos assistindo a ela. Presos a outra tevê que cabe nas nossas mãos e pode ser portada em todo lugar, estamos subordinados à ditadura da futilidade mais avassaladora de toda a nossa história: publicidades, coreografias,<br />
piadas, músicas de baixa qualidade, correntes de oração ameaçadoras, ou mesmo rápidas e curtas frases sem autores ou com errada autoria e, principalmente, as já famosas “fake news” circulam tão rapidamente que nossa memória não retém; chegam em tal quantidade, que enchem nossos celulares a ponto de os travar e inutilizar. E, então, descartamos&#8230; Nada fica, nada permanece&#8230; Os meios de pagamento são também espetaculares – um click em “limpeza rápida” e tudo se apaga. Nada fica, nada permanece. Tudo parece fácil, rápido, certo e possível: apagar, cancelar, prejudicar, excluir, agredir, calar&#8230; o outro é higiênico e cirúrgico; sem o outro, o mundo fica melhor e cada um de nós é dono da certeza única que está na raiz desses comportamentos.</p>
<p>Na verdade, isso tem vários nomes – superficialidade, violência, “demissão subjetiva” (segundo Lacan) e falta de tolerância com o outro. Sem olhar nos olhos uns dos outros, sem dizer o que o outro precisa escutar e sem nos dispor a ouvir, estamos nos afastando&#8230; Zapeando de uma guerra a um concurso de beleza, de uma criança<br />
ferida a uma baleia encalhada, somos capazes de nos apiedar da baleia&#8230; E de acharmos que as guerras virtuais do mundo de hoje são uma boa prevenção contra a imigração ou a diferença que nos ameaça&#8230;</p>
<p>Seguimos sem pensar, escolhemos atalhos, o canal que todos veem, quem tem mais seguidores, quem vende mais&#8230; Sem atentar para o fato de que escolhemos. E, quando analisamos, apenas dizemos: está tudo errado&#8230; Nunca conseguimos ver as nossas próprias ações que fortalecem esse estado das coisas&#8230; Estamos uma sociedade<br />
cheia de discursos e slogans, não de diálogos. Dizer que a tevê ou os jornais só mentem; adorar o professor ou o jornalista que diz apenas o que queremos ouvir; escolher o mesmo que a maioria escolhe; obrigar-se a dizer o que já foi dito é fugir – fugir da responsabilidade de ouvir, de pensar, de retrucar, de concordar, de discordar, de ser humano. Tudo isso está nos jogando num trajeto sem sentido que afogamos em bebida, drogas e outros desastres. E está nos colocando uns contra os outros.</p>
<p>O nome disso não é democracia. É tirania. O nome disso não é comunicação. É barulho. O nome disso não é felicidade, é depressão mascarada de bem-estar. O nome disso é hipocrisia.</p>
<p>É preciso pensar as palavras “responsabilidade” e “respeito”: alertar, resistir, pensar e agir de modo mais crítico e humano, de modo mais profundo e atento. Dessa riquíssima indústria cultural também faz parte uma herança que nos ensina o que já fomos. E todos nós temos responsabilidade em relação a esse legado: não iremos repeti-lo, é claro. Mas é necessário conhecê-lo para modificá-lo e tirar frutos dele; ter coragem para transmiti-lo. Esse insaciável apetite pelo novo está apenas nos fazendo consumir o que não tem qualidade. Enfim, é urgente pôr um fim nessa autoindulgência que está nos transformando em promotores diabólicos, sem limites e narcísicos. E não<br />
nos anjos reformadores e aperfeiçoadores do mundo que pensamos ser.</p>
<p>O post <a href="https://culturanordestina.com.br/artigo/o-nome-disso-flavia-suassuna/">O nome disso &#8211; Flávia Suassuna</a> apareceu primeiro em <a href="https://culturanordestina.com.br">Cultura Nordestina</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://culturanordestina.com.br/artigo/o-nome-disso-flavia-suassuna/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Para que servem nossas ficções &#8211; Flávia Suassuna</title>
		<link>https://culturanordestina.com.br/artigo/para-que-servem-nossas-ficcoes-flavia-suassuna/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=para-que-servem-nossas-ficcoes-flavia-suassuna</link>
					<comments>https://culturanordestina.com.br/artigo/para-que-servem-nossas-ficcoes-flavia-suassuna/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Suporte Recify]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2021 11:26:18 +0000</pubDate>
				<guid isPermaLink="false">https://culturanordestina.com.br/?post_type=artigo&#038;p=7729</guid>

					<description><![CDATA[<p>Recentemente, tenho ouvido argumentações simplistas acerca das ficções e suas funções; tenho até falado em aula e em palestras sobre as funções da arte e da literatura para esclarecer&#8230; Porém, às vezes, é um texto escrito que, de verdade, me salva. E salva (e organiza) as minhas ideias. Penso que, talvez, seja essa ignorância uma [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://culturanordestina.com.br/artigo/para-que-servem-nossas-ficcoes-flavia-suassuna/">Para que servem nossas ficções &#8211; Flávia Suassuna</a> apareceu primeiro em <a href="https://culturanordestina.com.br">Cultura Nordestina</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Recentemente, tenho ouvido argumentações simplistas acerca das ficções e suas funções; tenho até falado em aula e em palestras sobre as funções da arte e da literatura para esclarecer&#8230; Porém, às vezes, é um texto escrito que, de verdade, me salva. E salva (e organiza) as minhas ideias.</p>
<p>Penso que, talvez, seja essa ignorância uma consequência da falta de discussão na escola e nas universidades e faculdades sobre o papel das ficções nas nossas vidas – no fim, o que estamos fazendo é reduzindo o currículo escolar a aprendizados técnicocientíficos (que são valiosos, é claro), mas que diminuem nossas percepções de outros campos os quais ampliariam nossas visões e nos fariam mais completos.</p>
<p>Diferentemente dos animais, que vivem em apenas um lugar – o peixe vive na água e a girafa, na savana –, nós, seres humanos, vivemos em dois ambíguos “habitats”, o concreto e o abstrato; somos seres biológicos e sociais, se é que essa última palavra nomeia a questão. Recentemente, alguém me disse que um ser humano é feito de células, e eu retruquei:</p>
<p>– Eu pensei que fosse de histórias&#8230;</p>
<p>Pois é assim que penso: nossa vida se faz de histórias: as que vivemos, as que contamos e as que nos contam e que se entrelaçam com as nossas e viram nossas, porque nos ajudam a contar as nossas, as que inventamos&#8230; Tudo junto nos precipita num processo de produção de pensamentos, saídas, soluções, fugas, reflexões, que transformam essa habilidade num ato final de triunfo da espécie.<br />
Sei que estamos passando por uma crise muito forte e, nesse contexto, tendemos a transformar tudo num túnel sem saída. Porém nossas histórias são um acervo que nos move na direção de soluções e respostas. Desconsiderá-las, portanto, é desconhecer seu potencial de cura.</p>
<p>Sei também que passamos, às vezes, anos em labirintos&#8230; Entretanto é exatamente nesses tempos escuros que devemos reobservá-las, reexaminá-las para que, de novo, enxerguemos por onde ir&#8230;</p>
<p>Nossas histórias, desde que somos crianças, nos ensinam a lidar com a ansiedade; a suportar obstáculos, enquanto não os anulamos; a pensar os conflitos; a realizar desejos; a sobreviver psiquicamente enquanto caminhamos&#8230; Tudo isso vai fazendo a gramática de nossa personalidade e de nosso modo único de ser e ver, enfrentar e suplantar as dificuldades da vida. Com nossas narrativas, trocamos o real impossível pelo possível sonhado, inventado, procurado, encontrado, satisfeito&#8230; Por isso, nossas ficções são uma ferramenta para entender os enigmas do mundo, do desejo; os mecanismos do medo e do afeto; as engrenagens da identificação&#8230;</p>
<p>Nesse “habitat” social (que é abstrato), inventamos verdadeiras ficções consensuais as quais construíram saltos evolutivos que nenhuma outra espécie deu: na natureza não há nação, dinheiro, justiça, lei, democracia, direitos humanos, amor, casamento, fidelidade&#8230; Na verdade, essas “palavras” são fruto de uma ação ficcional que alterou o mundo que nos cerca de forma contundente, o que nos permite acrescentar que nossas narrativas afetam, e muito, a forma como sentimos e agimos historicamente.</p>
<p>Embora eu consiga ver que algumas pessoas sofrem muito – e ficam aprisionadas – quando aderem completamente a essas construções ficcionais compartilhadas (que, em parte, são um engodo coletivo alucinatório a que não podemos colar totalmente), também consigo reconhecer que esse sistema ambíguo é resistente, porque também sustenta alguns de nossos valores, agrega frações de nossa identidade, nos ajuda a construir nossos sentidos e nos humaniza.</p>
<p>A localização no exato ponto cardeal (nem aceitação total, nem negação total) é uma negociação vital que nos acompanha no percurso difícil de sermos seres que falam “duas línguas” – uma concreta, outra abstrata&#8230; uma real, outra imaginária&#8230; uma individual, outra coletiva&#8230;</p>
<p>O desafio é aprendermos o ponto certo em que a escolha não produza sofrimento pessoal desnecessário, nem rupturas e solidões dolorosas. Usando a razão e a sensibilidade, talvez possamos, com o acervo e o preenchimento de nossas ficções, ir ajustando as trilhas de nosso imaginário para que possamos fazer um futuro “que fale a nossa língua”, como diz Mia Couto.</p>
<p>Enfim, nossas ficções não só nos forjam: elas também são ferramentas irrenunciáveis para irmos elaborando passados, suplantando presentes e sonhando futuros melhores. Ou seja: com elas podemos ir adiante sem sair do nosso posto bonito de seres que agem não só pessoal e historicamente, mas também evoluem agônica e coletivamente, apesar das dificuldades&#8230;</p>
<p><strong>Flávia Suassuna é escritora, poeta e professora de Literatura</strong></p>
<p>O post <a href="https://culturanordestina.com.br/artigo/para-que-servem-nossas-ficcoes-flavia-suassuna/">Para que servem nossas ficções &#8211; Flávia Suassuna</a> apareceu primeiro em <a href="https://culturanordestina.com.br">Cultura Nordestina</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://culturanordestina.com.br/artigo/para-que-servem-nossas-ficcoes-flavia-suassuna/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O mestre é aquele “que sempre ensina, mas o que, de repente, aprende” &#8211; Flávia Suassuna</title>
		<link>https://culturanordestina.com.br/artigo/o-mestre-e-aquele-que-sempre-ensina-mas-o-que-de-repente-aprende-flavia-suassuna/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-mestre-e-aquele-que-sempre-ensina-mas-o-que-de-repente-aprende-flavia-suassuna</link>
					<comments>https://culturanordestina.com.br/artigo/o-mestre-e-aquele-que-sempre-ensina-mas-o-que-de-repente-aprende-flavia-suassuna/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Suporte Recify]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 May 2021 11:30:29 +0000</pubDate>
				<guid isPermaLink="false">https://culturanordestina.com.br/?post_type=artigo&#038;p=7733</guid>

					<description><![CDATA[<p>Já é de praxe, quando se fala na atividade do professor, partir da frase sabida de João Guimarães Rosa que afirma não ser o mestre aquele “que sempre ensina, mas o que, de repente, aprende”. Pudera. Todo ano fazemos uma revisão do assunto, o que nos dá uma oportunidade única de não esquecer, somada a [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://culturanordestina.com.br/artigo/o-mestre-e-aquele-que-sempre-ensina-mas-o-que-de-repente-aprende-flavia-suassuna/">O mestre é aquele “que sempre ensina, mas o que, de repente, aprende” &#8211; Flávia Suassuna</a> apareceu primeiro em <a href="https://culturanordestina.com.br">Cultura Nordestina</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Já é de praxe, quando se fala na atividade do professor, partir da frase sabida de João Guimarães Rosa que afirma não ser o mestre aquele “que sempre ensina, mas o que, de repente, aprende”. Pudera. Todo ano fazemos uma revisão do assunto, o que nos dá uma oportunidade única de não esquecer, somada a outra de rever o assunto, sempre, em perspectivas diferentes. É como, aos quarenta, reler um livro querido da adolescência – ele se torna outro.</p>
<p>Assim, comecei o ano, de novo, tendo que ensinar aos meus alunos o Quinhentismo, o período inicial da cultura do Brasil. Só que, por acaso, o mundo inteiro resolveu discutir o aquecimento global e os dois assuntos terminaram por se encontrar na minha vida e na minha sala de aula. Não me contive quando bateu a vontade de registrar o que, com a ajuda de meus alunos, terminei por aprender.</p>
<p>O Quinhentismo, na verdade, foi um hiato cultural bastante longo, que durou de 1500 até 1601, quando se iniciou o Barroco no Brasil. Durante esse período, havia dois tipos de manifestações literárias aqui – a informativa (comprometida com o objetivo do Expansionismo europeu, ibérico principalmente) e a jesuítica (comprometida com a meta da Contra-reforma católica).</p>
<p>Nenhum desses dois tipos de texto era literário, pois, como se pode constatar, a gratuidade passa bem longe deles: os textos informativos, como o próprio nome diz, informavam Portugal sobre o que havia aqui que podia ser apropriado; os jesuíticos, escritos pelos padres da Companhia de Jesus, também informavam a Igreja Católica das ações aqui empreendidas em favor dos objetivos tridentinos, mas, predominantemente, construíram, no Brasil, uma atmosfera medieval, mais favorável à catequese, sua principal meta. Poemas, peças teatrais ou dicionários foram escritos, não com o intuito de aprender, educar ou divertir os nativos, mas impor a eles um jeito de ser e pensar alheios.</p>
<p>Na pessoa do papa João Paulo II, a própria Igreja já pediu um perdão histórico por ter feito parte desse projeto de desrespeito à diversidade cultural e religiosa dos povos americanos.</p>
<p>Mas tudo isso vem apenas como ponto de partida para pensar a questão ecológica que se instalou aqui através do Processo Colonial. É que, sim, problemas ecológicos são decorrentes de questões políticas, apesar da falta de foco nisso que toda discussão sobre o assunto apresenta.</p>
<p>Do jeito como se discute “ambiente”, parece que todo o problema está em baleias, macacos ou florestas, quando essa “febre” apenas indica uma “infecção” no homem.</p>
<p>O Processo Colonial que vitimou o Brasil também construiu uma questão ecológica: a nossa Mata Atlântica tanto deu pau-brasil (entre 1503 e 1530, as remessas totalizaram 300 toneladas por ano), como, aos poucos, foi “desaparecida” para dar lugar aos engenhos de açúcar os quais, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, enriqueceram a Europa. Portugal, por exemplo, vivia do lucro da intermediação do comércio entre o Brasil e os outros países europeus.</p>
<p>À proporção que a Mata Atlântica era “assassinada”, nativos e africanos eram vítimas do primeiro grande genocídio perpetrado pelo homem contra o homem: doenças, seqüestros, escravidão, assassinatos, estupros, perseguições, maus tratos&#8230; tornam o fim da floresta um horror mencionável, mas menor. Esse homem “infeccionado” está, hoje, seqüelado, ao nosso lado, e sua recuperação é mais urgente do que a da floresta. Ou melhor: a floresta só se recuperará depois que ele obtiver sua cura, que um ambiente são pessoas, não pode ser considerado à parte, isolado do homem e de suas inseparáveis ações sociais, políticas e econômicas.</p>
<p>Nossa floresta, na atual discussão, nem parece ter sido dizimada pelos países ricos: nós é que somos acusados de sermos destruidores de florestas e eles saem de heróis salvadores de baleias jubarte, como se eles mesmos já não tivessem esgotado até as próprias florestas, por exemplo, durante a Revolução Industrial, além da nossa.</p>
<p>Todos só querem discutir o problema como se ele fosse de flora ou de fauna, sem se discutir estilo de vida e consumo.</p>
<p>Quem topa comprar menos? Trocar o carro por transporte coletivo? Tornar o verbo “comprar” um ato de responsabilidade pessoal e social e não de alienação? Os países ricos abrem mão dos recursos naturais que eles concentraram a força? Eles repartiriam a riqueza imensa que acumularam a partir dessa concentração? Deixariam de desperdiçar combustíveis?</p>
<p>Não? Então, continuemos a falar de buraco na camada de ozônio, mico-leão dourado, ararinha azul, em detrimento do homem que, ao lado desses animais, continua “infeccionado”, num mundo que nunca foi tão rico, tão informado e, aparentemente, tão preocupado com o futuro que, salvo engano, será, então, cheio de bichos e florestas, mas sem humanidade.</p>
<p><strong>Flávia Suassuna  é professora de Literatura</strong></p>
<p>O post <a href="https://culturanordestina.com.br/artigo/o-mestre-e-aquele-que-sempre-ensina-mas-o-que-de-repente-aprende-flavia-suassuna/">O mestre é aquele “que sempre ensina, mas o que, de repente, aprende” &#8211; Flávia Suassuna</a> apareceu primeiro em <a href="https://culturanordestina.com.br">Cultura Nordestina</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://culturanordestina.com.br/artigo/o-mestre-e-aquele-que-sempre-ensina-mas-o-que-de-repente-aprende-flavia-suassuna/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
