Sentido!
Soldados!!!
Apontar, fogo!!!
Menino veste azul
Menina veste rosa
E seguimos nesse ritmo de separação.
Aos meninos, a rua
O vento na cara
A liberdade
Desbravar luas
Povoar cidades.
Subir em árvores
Jogar futebol
Voar como pássaros
No voo da pipa.
Sonhar acordado
Como protagonista
Senhores da história.
Criar narrativas
Sorriso aberto
Ser além muros
O lugar público como morada.
Às meninas, as bonecas
O avental
Brincar de panelinhas
De limpar casa
Copa e cozinha.
Nada de árvores, correr, brincar de liberdade
Nada de pipas, de sonhos, de banho de rio, de bola de gude
A elas o privado, a privada.
O prático,
Pragmático brincar de casinha, de mãe, de cozido e cozinha.
Cedo a gente aprende que menina lava prato
Ajuda a mãe na casa
A princesa brinca a vero de gata borralheira
Enquanto o menino corre nas ruas com os amigos de camisa aberta.
Ele é homem.
Menina veste rosa
Se arruma pra ficar arrumada
Se senta de pernas cruzadas
Como uma mocinha
E, ai de quem fugir as regras!!!
Vivemos nessa prática separatista
Morremos por sermos mulheres a cada instante de não
A cada passo dado na rua olhamos pra trás com medo dos homens, seja qualquer, seja pai, namorado ou irmão…
Os homens nos metem medo
Até os que dizem eu te amo!!
Somos assediadas por sermos mulheres
No trabalho, nas ruas, nos transportes públicos, a cada instante que formos pras ruas com nossos corpos, viramos proclamas, objeto de leituras e julgamentos pelas roupas escolhidas, pelas palavras faladas, pelo olhar lançado e até pelo silêncio.
Fomos e somos objetificadas
Padronizadas
E ai de quem não se depilar!!!
É mulher largada, suja, desalmada
Deus tá vendo
Isso é pecado!!
Respeite seu marido!
Embora você viva numa relação desrespeitada
Ele pode, ele é homem.
Você não deve se igualar a ele
Ele é sujo, você é limpa, educada pra ceder, calar, ouvir sempre, nunca falar.
Si len ci ar
Su fo car
E sufocada chorar sozinha
Mulher do lar.
Sabe na escola…
Vamos chamar a mãe desse menino?!!!
Ele não tem pai?!!!
Foi feito com o dedo??
Aquela mãe que jogou o filho no lixo
O pai jogou antes
Bem quando ejaculou primeiro.
Porque seu falo silenciou diante da cria.
Que é só dela.
A humanidade disse assim.
E assim petrificou a dor de ser estupro e de ser só
Culpada, porque é mulher.
E…
Só por sermos mulheres, devemos ser menos.
Se afrontar com um sonoro não, morremos.
Essa escravidão de sociedade doentia também ataca os homens que têm que ser fortes, não podem chorar, nem sorrir, têm que ser desumanos, cara fechada, andar feito homem, falar feito homem, e ser feito homem é ser coisa, não ter sentimento, ter pegada, macho alfa, aquele garanhão.
Homem delicado não tem virilidade, não é varão
Tá na Bíblia, dizem uns gesticulando o braço, apertando o cunhão.
Mulheres querem seu lugar de fala
Os homens querem garantir o seu lugar de falo
A palavra derradeira
O sim e o não.
É no tempo deles
A guerra e a paz
A cidade demolida ou a casa em construção.
E nós seguimos atônitas e atônitos
Reproduzindo esse modelo tosco de multi-separação.
Depois sem entender como se mata tantas mulheres no tempo de hoje
Plantando tantas diferenças e cobranças de modelos falidos
Seremos sempre essa falência de gente
Falando em liberdade
Plantando prisão.
Às meninas, as bonecas…
CÉLIA MARTINS
Pernambucana, Formada em Letras – UFPE
Escritora, Poeta, Atriz e Pintora.
Professora da Rede pública de Ensino da Cidade do Recife,
Pesquisadora de Línguas Indígenas, integrante do GT a Mulher na Literatura.
Atua em saraus e grupos de leituras e debates.
Desenvolve leitura Dramatizada na REDE de Ensino da Cidade do Recife: O VERSO E A VOZ A DRAMATURGIA DA PALAVRA
Publicações:
Algumas Antologias Poéticas no Recife
Livro solo em 2025- ARA-Y RAIZES DA TERRA (UM CÂNTICO À MÃE TERRA- Ed. MIRADA)