Matem o mensageiro! ou Me engana que eu gosto, por Alexandre Henrique Santos

“A dor é uma experiência inevitável.

O sofrimento é uma escolha.”

Bert Hellinguer

Era meado de 2017 e há pouco eu me mudara com a família para Madri. Ao fazer um reconhecimento de Moratalaz, onde nos estabelecemos, percebi cartazes que alertavam a vizinhança para um golpe que estava sendo aplicado nos moradores do bairro. Aproveitando o fato de que a Prefeitura promovia mudanças no fornecimento de energia elétrica, membros de uma quadrilha se faziam passar por funcionários públicos, entravam nas residências, aplicavam um questionário sobre o uso de eletrodomésticos e depois roubavam. Pois bem, certo dia, voltando de uma caminhada matinal, abro a porta e com o que me deparo?! Minha mulher e sogra estavam sentadas no sofá da sala ao lado de um desconhecido. Tomavam cafezinho e pareciam envolvidas num papo animado, respondendo perguntas sobre consumo de energia.

Acendi o sinal de alerta na hora. Falei abertamente dos cartazes vistos nos pontos de ônibus, nas padarias etc. O homem ficou desconcertado; contudo, as anfitriãs apenas sorriram e reforçaram o comportamento acolhedor. Não consideraram nem por um segundo a possibilidade de que o visitante pudesse ser um falsário. Preferiram achar que o sujeito que acabavam de conhecer era mesmo um eletricitário… Para resumir, o vigarista acelerou o preenchimento do formulário, encerrou de forma abrupta sua permanência conosco, em nenhum momento me olhou nos olhos e praticamente fugiu.

O relato acima sugere que a gente nem sempre tem consciência de que pode escolher no que acreditar. Se há suspeitas em situações presenciais, que dizer dos cenários virtuais, onde a inteligência artificial realiza prodígios e nos faz duvidar se o que vemos e ouvimos é ou não real… Está cada vez mais difícil separar o joio do trigo. E tudo piora com as pessoas de mentalidade binária – como costumam ser os analfabetos funcionais –, que têm dificuldades para perceber nuances.

Lembro que nos anos 80 uma vizinha chamada Mira era absolutamente fã e eleitora do ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf. Os leitores jovens se livraram de conhecê-lo; foi um símbolo nacional do político corrupto. Hoje com 93 anos, envelheceu rico, em prisão domiciliar e com uma tornozeleira eletrônica na canela. Diziam dele um chavão tristemente famoso: “Rouba, mas faz!” Nada do que eu tentei para abrir os olhos de Mira resultou em sucesso. Levei dezenas de reportagens sobre os crimes do referido meliante. Para ela, era tudo mentira, fantasia, intriga da oposição… Considerava mesmo que Maluf era um santo!

O certo é que a escolha de recusar conhecer a realidade, de negar a veracidade das investigações e até dos fatos comprovados; escolha de acreditar no que até Deus duvida, essas escolhas, são legítimas. Lamentáveis, sim, mas tão antigas quanto a humanidade. No passado os Reis tinham o hábito de mandar matar os mensageiros de más notícias – como se a culpa de infortúnios e tragédias deles fosse. Nos dias de hoje seria como se eu assassinasse o carteiro que me trouxe uma intimação judicial. Parece loucura, mas não é. Há uma pandemia de burrice, de ignorância e de preguiça de pensar que assola o planeta. Não se está falando aqui de fidelidade ideológica, partidária e nem de verdade única. Ao contrário. Falamos de pensar, ruminar; refletir sobre as informações que nos chegam. Isso costuma dar trabalho. Quero dizer, pensar exige algum esforço; e o que não falta é gente que odeia tirar o cérebro do “modo preguiça”!

Acompanhei uma situação recente que foi, em minha opinião, mais uma prova cabal desse tipo de ignorância e primitivismo que assola o país. Uma cliente ficou muito impressionada com o sério e exaustivo trabalho da jornalista Juliana Dal Piva sobre como o ex-presidente e agora presidiário Jair Bolsonaro construiu sua fortuna. Daí, desejou ajudar (sic) uma prima a abrir os olhos. Com a melhor das intenções, tal como eu com a amiga Mira décadas atrás. Comprou o livro O Negócio do Jair e o presenteou no aniversário da parente; inclusive tendo a delicadeza de um detalhe: grampeou no pacote um cartão com direito a troca da mercadoria – se por acaso não desejasse ler, bastava ir à loja trocá-lo. Mas pasmem, leitores, apaixonada por Bolsonaro, a aniversariante surtou, deu um chilique, desmanchou-se em lágrimas, considerou o regalo uma ofensa pessoal, não abriu o livro, decretou: Matem o mensageiro! – e deixou de falar com a prima.

Minha surpresa ao ler o editorial do Estadão do dia 23 de setembro próximo passado me relembrou essas histórias. Reproduzo abaixo o trecho com as palavras exatas da direção da empresa; elas resumem a ideia central da mensagem veiculada. Vejamos:

“Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República.”

Talvez só analfabetos funcionais não entendam o que está dito no artigo de opinião do principal diário conservador do país: Flávio Bolsonaro tem íntimas, velhas e comprovadas ligações com milicianos; elegê-lo, portanto, é um grave risco. Para mim, autor dessas linhas e seguidor da política nacional, a informação nada tem de nova ou de original. O que me surpreende é constatar as pessoas que evitam pensar, que se fazem de bobinhas e replicam a técnica do avestruz: enfiam a cabeça num buraco – ou simplesmente fecham os olhos – e acham que o problema acabou, sumiu!

Honestidade e retidão não têm preferência ideológica. Em qualquer agremiação partidária pode haver e talvez haja corruptos, bandidos e vilões. Daí que qualquer cidadão(ã) suspeito(a) de cometer um crime, deva ser rápida, devida e exaustivamente investigado(a). Mas não devemos ser levianos e julgar alguém antes de que se esgotem todos os cabíveis recursos da defesa.

Finalizo reforçando a epígrafe do artigo: a dor é inevitável porque faz parte da experiência da vida; já o sofrimento é uma escolha.

Isso vale para pessoas e para nações. O sofrimento aparece quando repetimos e/ou nos apegamos aos motivos que nos causaram dor. É assustador ver, em 2026, o país que há quatro anos esteve às portas do golpe de estado e da guerra civil, conferir aos representantes do bolsonarismo uma inegável montanha de votos. Esse resultado estatístico soa como um gigantesco jogral gritando em uníssono: “Matem o mensageiro! Não se atrevam a nos mostrar o que não queremos ver. Nós decidimos experimentar o sofrimento!”

 

Alexandre Henrique Santos é escritor, psicoterapeuta e cantautor (Alê Santos). Publicou pela Editora Vozes os livros “Planejamento Pessoal” e “O Poder de uma Boa Conversa”. Após décadas vivendo em diferentes cidades e países, hoje mora onde nasceu, na Ilha do Leite, no delta do Recife. Veja www.quereres.com & ale.santosoficial.

 

 

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