Buscar a verdade talvez seja uma das tarefas mais antigas e, ao mesmo tempo, mais inacabadas do ser humano. Há algo de paradoxal nessa busca: desejamos encontrar uma resposta definitiva, mas cada resposta séria parece abrir uma nova pergunta. A verdade, quando tratada com rigor, não encerra o pensamento. Obriga-o a continuar.
Platão já distinguia os modos pelos quais nos aproximamos do conhecimento. Entre eles, a dianoia ocupa um lugar que me interessa particularmente: o pensamento discursivo, aquele que avança por hipóteses, relações e demonstrações. Não é ainda a contemplação absoluta da verdade, mas também não é mera opinião. É caminho. Talvez seja exatamente nesse espaço intermediário que vivamos: entre aquilo que acreditamos saber e aquilo que ainda precisamos demonstrar.
Sócrates transformou a consciência da própria ignorância em força intelectual. Descartes, muitos séculos depois, fez da dúvida um método. Duvidar, nesse sentido, não significa desistir da verdade, mas recusar a facilidade da certeza. O “penso, logo existo” procura um ponto que resista à demolição de todas as crenças anteriores. Entretanto, mesmo a certeza cartesiana não encerrou o problema. Ao contrário: abriu novas questões sobre o sujeito, o corpo, a consciência e os limites da razão.
Freud deslocou novamente esse sujeito ao mostrar que não somos inteiramente transparentes para nós mesmos. Se parte importante de nossa vida psíquica escapa à consciência, a busca da verdade precisa também desconfiar daquele que busca. Nietzsche levou a suspeita ainda mais longe ao interrogar os valores, os interesses e as perspectivas escondidas atrás das afirmações que se apresentam como definitivas. Schopenhauer, por sua vez, recorda-nos que a razão não reina sozinha: desejo e vontade participam profundamente da maneira como existimos e interpretamos o mundo.
A ciência acrescentou outra exigência: nenhuma explicação deve ser protegida contra a possibilidade de ser corrigida. O conhecimento científico cresce justamente porque aceita a provisoriedade. Uma hipótese ganha força não porque desejamos que seja verdadeira, mas porque resiste, enquanto puder, à observação, ao confronto e à crítica. Quando novos dados aparecem, a honestidade intelectual exige revisão.
A neurociência torna essa questão ainda mais fascinante. Aquilo que chamamos percepção não é uma fotografia neutra do mundo. O cérebro seleciona, organiza e interpreta sinais; a memória reconstrói; experiências anteriores interferem no presente. Isso não significa que toda verdade seja impossível ou que tudo seja apenas opinião. Significa que precisamos conhecer também os instrumentos com os quais procuramos conhecer. O observador faz parte do problema.
Por isso, não considero a verdade uma propriedade pessoal. Ninguém a possui como quem guarda um objeto. Podemos aproximar-nos dela por argumentos melhores, evidências mais fortes e perguntas mais precisas. Podemos também afastar-nos quando confundimos convicção com demonstração, autoridade com prova ou repetição com conhecimento.
Há, portanto, uma ética na busca da verdade. Ela exige coragem para defender uma ideia, mas exige coragem ainda maior para abandoná-la quando os fatos a contradizem. Exige humildade para dizer “não sei” sem transformar a ignorância em vergonha. Exige também resistência diante das certezas confortáveis, sobretudo quando elas nos favorecem.
Talvez a verdade seja menos um lugar de chegada do que um horizonte. Caminhamos em sua direção sabendo que nossa condição humana é limitada, histórica e falível. Isso não torna a caminhada inútil. Torna-a necessária. Se não posso possuir a verdade absoluta, posso ao menos recusar conscientemente a mentira, examinar minhas certezas e corrigir meus erros.
Depois de tantos filósofos, cientistas e perguntas, continuo sem uma fórmula final. E talvez essa ausência seja parte da resposta. A busca da verdade permanece viva enquanto nenhuma resposta estiver autorizada a proibir a próxima pergunta. Hoje estou mais próximo dela do que ontem, porque ainda sou capaz de perguntar.
Remilton José de Melo é psicanalista clínico, professor de Educação Física e psicomotricista. Licenciado em Educação Física pela Universidade de Pernambuco, possui pós-graduação em Psicomotricidade e mestrado em Psicanálise. Dedica-se ao estudo das relações entre psicanálise, filosofia, neurociência e consciência, campos que também orientam sua produção ensaística e literária.
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