Decolonialismo e o Controle da Subjetividade, por Carlos Gildemar Pontes

O Decolonialismo, como novo modelo ou parâmetro para debater as rupturas estabelecidas ao longo do processo de colonização, principalmente na imposição de ideias, conceitos, valores, princípios a serem seguidos pelos povos colonizados, rompe, definitivamente, com o modelo colonial. Já não é mais possível aceitar a imposição de uma relação de dominação e exploração entre povos que detinham o poder bélico/econômico aos povos desprovidos de uma reação à altura da violência que acompanhou a empresa colonizadora. Esse debate se estabeleceu com maior consistência a partir dos estudos culturais das décadas de 1960, em diante. O pós-2ª Guerra Mundial revelou a necessidade de reconstruir e redimensionar os novos parâmetros de civilização, para repensar um novo mundo deserdado pela civilização derrotada com a guerra e que não mais atendia aos preceitos do humanismo “civilizado”.

Para encontrarmos uma semelhança entre os povos dominados e partirmos para uma identificação do que os une como reação, já principiamos a discussão em Crítica da razão mestiça (2021), em como se dariam as questões gerais dessas semelhanças.

Como reconhecer as características de um povo levando-se em conta apenas os documentos históricos que o informam? Isso pode, em princípio, ser uma camuflagem com base na história oficial para determinar um processo de alienação da própria história do povo, imposta ao próprio povo pela sua elite. Grande parte da nossa história colonial foi contada por historiadores estrangeiros que se basearam em informações de viajantes e imagens de desenhistas que registraram a natureza e o homem selvagem. (p. 23)

Não foi apenas uma reação interna que provocou a incessante busca por uma identidade nacional, a presença do imigrante fez com que comparássemos culturas diversas e os modos de agir daqueles que vinham cumprir o papel de civilizar, mesmo os que eram explorados e subalternos em suas origens, aqui assumiam uma diferença dos brasileiros assimilando o comportamento colonial de suas elites.

A força do imigrante se dá, fundamentalmente, pela natureza da sua ascendência. Pessoas com ancestrais europeus, orientais, invariavelmente brancos, tendiam a se autodenominarem pelas suas origens. Formaram-se colônias italiana, alemã, japonesa… e que se identificavam socialmente pelas práticas culturais de seus países. Esses traços diferenciadores são típicos do processo de imigração e estabelecimento de uma identidade híbrida e, ao mesmo tempo, múltipla. Embora a distinção de origem atue como um elemento de valoração, o hibridizado, nesta configuração brasileiro estrangeirado ou estrangeiro abrasileirado, se coloca, na maioria das vezes, numa condição superior ao brasileiro ascendente do negro e do índio. Aí se cria o racismo estrutural. É por esta forma adotada na colonização, de apagamento do outro, que se inicia uma estruturação de classes distintas, colonizadores, brancos e ricos, de um lado, com a função predominantemente excludente, apoiado por uma classe agregada composta de pobres, mestiços, cooptados pelo poder dos primeiros, e uma classe oprimida composta de trabalhadores, negros, pobres e invisíveis, sujeitos ao controle da subjetividade moral e ética do colonizador.

O racismo estrutural é tão forte que determinou variantes dentro do modelo de dominação. O Nordeste, desde que perdeu o domínio da colônia, quando a capital se deslocou para o Rio de Janeiro, sofreu por abandono político e falta de investimentos. Mesmo quando recebeu indústrias e construções estruturantes beneficiou os donos do poder econômico que se aproveitaram das carências e da mão de obra barata. O reflexo disso é o estigma criado sobre o nordestino. Para alguns do eixo sudeste/sul, os nordestinos são vistos como um povo atrasado pobre e ingênuo, atenuante de burro que se vê muito frequentemente nas manifestações racistas por parte da classe agregada. Estigmatizou-se chamar o nordestino pela simplificação de nortista, baiano e paraíba, demonstração cabal de que ingênuo, não está no Nordeste, mas nas manifestações de ausência de conhecimento geográfico, histórico e biológico.

Muitos filhos de nordestinos, nascidos nas regiões sudeste e sul, aderem ao modo de viver e cultivam os mesmos padrões identitários do lugar onde vivem, escamoteando sua origem e, em muitos casos, se envergonhando de suas famílias. Outros, que migraram na infância ou na adolescência, procuram perder o vínculo com suas origens, aderindo à entonação e modo de falar, o sotaque, incorporam as gírias e mudam o que for preciso para se disfarçarem no meio assimilado, sem serem percebidos e identificados. Essa sobreposição de identidade ocorre para que o indivíduo seja aceito e se sinta integrado à nova cultura. Os valores a serem incorporados incluem torcer por times de massa como Flamengo e Corinthians, forjando rivalidades com outros times do Rio ou São Paulo e menosprezando os times do nordeste e de outros estados.

O reconhecimento das identidades, portanto, não é uma tarefa simples e fácil de se perceber. Necessita de uma formulação que observe as variantes culturais que as definem. Ao se inquirir sobre uma autoidentidade, interlocutores titubeiam em responder. Negros de pele mais clara se dizem pardos, pardos se dizem brancos, brancos invocam origem estrangeira, vinculada ao tipo hibridizado europeu. O processo de colonização mental e cultural é tão forte que alheia o brasileiro da sua própria história.

 


Escritor. Professor de Literatura no Curso de Letras da UFCG. Doutor em Letras pela UERN e Pós-Doutor em Letras pela UFC. Integra a Academia Cajazeirense de Artes e Letras. Coordena o Círculo de Pesquisa em Literatura, Estudos Decoloniais, Identidade e Mestiçagem – CPLEDIM, ligado à UFCG/CNPQ e edita a Revista de Estudos Decoloniais. Tem 28 livros publicados entre Poesia, Conto e Ensaio Literário.

 

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